por Orson Peter Carrara.
No capítulo 19 do livro Obreiros da Vida Eterna, penúltimo da obra, publicado em 1946 pela FEB (psicografia de Chico Xavier e autoria de André Luiz), com o título A serva fiel, o autor faz narrativa sobre a desencarnação de Adelaide, nobre espírito que, junto a outros servidores, mereceu assistência especializada no retorno à vida espiritual. O livro todo, descrevendo processos de desencarnação, é uma preciosidade e o capítulo em especial destaca a notável servidora. Dada sua natural liderança e espírito de serviço, os demais companheiros encarnados sentiam a inevitável partida da amiga querida, e de alguma forma, forneciam obstáculos a uma liberação mais tranquila, justamente porque sentiam a falta que ela faria.
Zenóbia, diretora da instituição espiritual responsável por aquele trabalho de assistência, conclamou os servidores encarnados para que, durante o sono do corpo, estivessem reunidos em assembleia no mundo espiritual, a fim de fazer-lhes um apelo, dado aos pensamentos de um certo ressentimento pela já esperada desencarnação. Transcrevo trecho parcial do capítulo dada a essência do apelo, advertência que cabe a todos nós.
“(…) Venho até aqui somente fazer-vos pequeno apelo. Não ignorais que nossa Adelaide necessita passagem livre a caminho da espiritualidade superior. Enferma desde muito, cooperou conosco, anos consecutivos, dando-nos o melhor de suas forças. Dócil às influências do bem, foi valioso instrumento de organização desta casa de amor evangélico. (…)”
E prossegue, num apelo sentido, respeitoso:
“(…) – Porque a detendes? Há dias, o quarto de repouso físico da doente que nos é tão amada permanece enlaçado com pensamentos angustiosos. São forças que partem de vós, sem dúvida, companheiros ciosos do trabalho em ação, mas esquecidos do “faça-se a vossa vontade” que devemos dirigir ao Supremo Senhor, em todos os dias da vida. Lastimo as circunstâncias que me compelem a falar-vos com tamanha franqueza. Entretanto, não nos resta alternativa diferente. (…) Adelaide apenas restituirá maquinaria gasta ao laboratório da Natureza. Continuará, porém, contribuindo nos serviços da verdade e do amor, com ânimo inextinguível. Quanto a vós, não olvideis a necessidade de ação individual, no campo do bem. (…)”
Um apelo leal, sem recriminação, com respeito, mas exaltando a necessidade da “passagem do bastão”. O tempo dela se esgotou e essa compreensão precisa estar presente naqueles que ainda permanecem, assumindo agora as responsabilidades e tarefas da servidora que cumpriu sua tarefa e agora retorna. Os sentimentos do grupo estavam criando alguma dificuldade, daí a importância do apelo da diretora da instituição que acolhe Adelaide.
Um trecho breve no capítulo, mas refletindo uma situação muito comum nas instituições. Normalmente o líder cria os ambientes favoráveis, motiva a equipe, mas chega o dia de ser substituído e o grupo precisa estar preparado para assumir as tarefas, sem receio.
O trabalho segue, os integrantes se revezam, o tempo muda as circunstâncias, mas é preciso prosseguir. Trecho importante da obra, que consideramos expressivo trazer.

