Meros intérpretes

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Orson Peter Carrara

 

A palavra intérprete, muito utilizada, indica entre suas definições, pessoa que atua como intermediária entre indivíduos que não falam a mesma língua, traduzindo da língua de um para a língua do outro. Também, dentro do mesmo idioma, pode ser usada para indicar aquele que interpreta um texto, explicando-o numa exposição verbal, numa aula, na exploração de um tema qualquer, esclarecendo para os ouvintes ou leitores. Para usar um único exemplo, um advogado ou juiz interpreta os artigos da lei, para a condução dos processos jurídicos.

Trazendo o assunto para a prática espírita, encontramos a definição em Instruções Práticas sobre as Manifestações Espíritas, de Allan Kardec (ed. O CLARIM), no Vocabulário Espírita, que:

 

MÉDIUM – do lat. medium, meio, intermediário. Pessoa acessível à influência dos Espíritos e mais ou menos dotada da faculdade de receber e transmitir suas comunicações. Para os Espíritos o médium é um intermediário; é um agente ou instrumento mais ou menos cômodo, conforme a natureza ou o grau da faculdade mediatriz. Essa faculdade é devida a uma disposição orgânica especial, susceptível de desenvolvimento. Distinguem-se diversas variedades de médiuns, conforme sua aptidão particular para este ou aquele modo de transmissão, ou tal ou qual gênero de comunicação.

 

Sendo, portanto, meio, intermediário, e encarregado de receber/transmitir mensagens, é também um intérprete dos espíritos comunicantes, exercendo expressiva influência sobre o conteúdo. Essa influência no conteúdo pode ser muito positiva, preservando os valores morais e instruções contidas, como igualmente negativa com deturpações e inclusões indevidas advindas da moralidade do médium. Isso está muito claro no capítulo XX – Influência Moral do Médium, em O Livro dos Médiuns. Um médium moralizado, instruído, não deturpará o conteúdo. No lado oposto, um médium inescrupuloso, e também sem conhecimento, vai inserir seus interesses variados no conteúdo transmitido.

Como somos todos mais ou menos médiuns (item 159 de O Livro dos Médiuns), ostensivos ou intuitivos, e meros intérpretes, portanto, podemos alterar conteúdos na condição de meio, intermediário, entre nós e os espíritos. Ou respeitá-los, claro.

A presente reflexão surgiu do precioso texto Pelos Médiuns, constante do capítulo 28 de O Evangelho Segundo o Espiritismo, item 9, em trecho que transcrevemos parcialmente:

 

“(…) Os médiuns são os intérpretes incumbidos de transmitir aos homens os ensinos dos Espíritos; ou, melhor, são os órgãos materiais de que se servem os Espíritos para se expressarem aos homens por maneira inteligível. Santa é a missão que desempenham, visto ter por fim rasgar os horizontes da vida eterna. (…)”

 

Simples leitura do trecho transcrito já abre a perspectiva, pelo fato de serem intérpretes, da manifestação espiritual sofrer a influência leviana ou moralizada do medianeiro, ou intérprete. O texto, na íntegra, é outro tesouro da Codificação. Busque lá, itens 8 e 9 do citado capítulo.

Daí a necessidade do discernimento de aproveitamento ou não do que vem pela mediunidade, solicitando análise prévia da seriedade do conteúdo. Sensacionalismo barato e leviandade também estão presentes nas manifestações mediúnicas, seja do espírito comunicante, seja do médium. Por isso o estudo continuado, especialmente de O Livro dos Médiuns, é essencial. Não há como exercer seriedade, fidelidade, comprometimento, sem conhecimento prévio.

Dever das instituições, compromisso de todos nós, médiuns ostensivos ou intuitivo, atuando como médiuns propriamente ditos ou como palestrantes, escritores, coordenadores de estudos ou dirigentes e divulgadores. O compromisso é de responsabilidade, pois a Causa é do Cristo!

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