Como aprendi a estudar?

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por Nubor Orlando Facure.

 

1 – Quase tudo que aprendi foi fora da sala de aula

Gostaria tanto de ter tido aula no pátio da escola, no gramado, no jardim de inverno, no banheiro, na sala da diretora, na oficina de reparos — eram nesses lugares que estava toda a minha curiosidade.
É ali que as conversas são mais interessantes.


2 – A professora não deixava a gente conversar

Só podíamos tirar dúvidas com ela.
Deixei tanta coisa para trás sem perguntar.
Tantos colegas que eu queria reencontrar hoje e ter olhado as soluções nos cadernos deles.
Sempre soube que os outros, ao nosso lado, têm muito a nos ensinar.


3 – Adorava ouvir histórias

Meu pai era um contador de histórias.
Herdei dele esse talento de inventar causos.
Mas eu queria mesmo era ser os personagens.
Queria ser herói, defender a princesa, prender o lobo mau, voar com o Peter Pan, saber o que sobrou da perna do Saci-Pererê.


4 – Eu lia os livros da escola

É uma pena que a professora não deixava a gente mudar o enredo dos textos.
Eu queria escrever:
“O Grande Príncipe”,
“A Emília e o Pedrinho na Disney”.

Na festa no céu, em vez de bichos, eu ia encher de crianças.
Os anõezinhos da Branca de Neve seriam todos escoteiros.


5 – Sempre tirei notas boas

Até hoje não sei o que isso significava.
Os alunos mais conhecidos na escola nunca se importavam com a nota.
Eu queria mesmo era que meus colegas pudessem dar notas.
A aprovação dos colegas tinha mais valor do que a das professoras.


6 – Já fiz “trabalho em grupo”

Adorei — na verdade, a gente mais conversava do que trabalhava —, mas nunca se esquece da casa do colega onde a gente ia se reunir para preparar o trabalho.
A mãe deles sempre trazia coisas gostosas para o nosso lanche.

Não gostava das notas que a professora dava ao trabalho do grupo. Achava mais justo se ela perguntasse se valeu a pena todo o esforço que fizemos juntos.


7 – Meus melhores momentos foram os dias de exposição

O que isso significava?
Os alunos enchiam as paredes de cartazes: Meio Ambiente, Nossas Indústrias, o Valor da Água, as “Criações” nas fazendas, a mata e os rios de Minas Gerais.


8 – Conheci dois irmãos que a professora dizia terem deficiência

A mãe era idosa e sofria da tireoide; os meninos nasceram com deficiência.
Eram o Jony e a Janice. A escola mandava os agentes de ensino levarem as provas do fim do mês e passarem as lições para eles.
Mas quem ensinava mesmo era a Cotinha, empregada dedicada que eles tinham em casa.

Muitos de nós aprendemos a tabuada foi mesmo com a Cotinha. Como seria bom dispormos de mais “professores” em nossas casas com o talento dela.


Lição de casa

O aprendizado é permanente.
Mas as primeiras letras, os primeiros passos na escola, aqueles primeiros colegas e aquelas professoras do primário repercutem por toda a vida naquilo em que nos transformamos.

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