por Nubor Orlando Facure.
São resgates da minha infância; onde a memória falha, preciso me desculpar por eventuais tropeços.
Em 1947, quase toda Uberaba era católica e, por ocasião das quermesses da Igreja, o padre capuchinho da Igreja Santa Terezinha, pertinho de casa, ia às residências dos fiéis para escalar as tarefas que cada um se comprometia a fazer.
Uns angariavam as prendas para os leilões; outros organizavam as barracas de trabalho, como a do coelhinho e a da pescaria.
Entrando em nossa casa, viu, sobre o etagère, um exemplar da Bíblia que alguém presenteara minha mãe, dona Orlanda, que gostava muito de ler.
O padre disse que ela estava proibida de ler aquele livro, pois isso seria atribuição do sacerdote.
Ora, isso soou como um desafio — ou uma condenação — para dona Orlanda.
“Vamos ouvir outras interpretações”, disse ela a dona Maria, a vizinha da frente.
Decidiram ir, as duas, à Assembleia de Deus, ouvir a interpretação que os pastores davam à Bíblia.
Eu fui junto, pois ainda me lembro do trombone e das músicas ali cantadas.
Na volta do culto protestante, passávamos bem em frente ao Centro Espírita Uberabense.
Disse então minha mãe:
— Para sermos justas, vamos lá também.
Era uma sexta-feira; entraram no Centro Uberabense.
Rigorosamente, a reunião transcorria nessa ordem:
Ali, na mesa de direção dos trabalhos, o “presidente”, seu Lilito, convocava dois auxiliares do público: um para ler o Evangelho e o outro, O Livro dos Espíritos.
Depois, um orador experiente fazia sua breve preleção sobre os temas lidos — totalmente sem sentido para meus sete anos.
Logo a seguir, levantava-se, na extremidade da mesa, uma senhora de vestido longo, preto, com um rosto bonito e suave, tez muito clara, postura elegante, nobre, solene.
Era a médium, dona Maria Modesto Cravo.
Incorporada, ela trazia a lição da espiritualidade. O discurso era fluente, rápido, claro; a voz era a própria mansidão, com o poder de nos afetar nas mais íntimas vibrações. Independentemente do conteúdo, o silêncio e a elevação espiritual ainda ressoam em mim até hoje.
Algumas dessas preleções foram gravadas pelo professor Antônio Corrêa de Paiva e publicadas no jornal A Flama Espírita.
Depois de pequena pausa, percebíamos dona Modesta respirar, mudar o semblante e passávamos a ouvir a prece de encerramento, feita pelo Espírito Irmão José.
A comoção silenciava o ambiente.
Lição de casa
Só hoje percebo o valor e o significado dessas experiências tão precoces.
Passaram-se os anos; os personagens e as histórias já se foram.
Mas foram eles — e esses encontros — que nos prepararam para os dias de hoje.

