Curiosidades mais que humanas na neurologia

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por Nubor Orlando Facure.

 

1 – Thomas Willis (1621–1675)
Ao retirar por inteiro o cérebro de um cadáver, percebeu, ao observar a base do órgão, um conjunto de artérias.
Foi denominado polígono de Willis — essas artérias formam um polígono de onde partem vasos que irrigam a fossa posterior do cérebro.
Willis casou-se com a irmã de um padre de Oxford e faleceu aos 56 anos, com tuberculose pulmonar.


2 – Bayard Horton (1895–1980)
Descreveu um tipo de cefaleia crânio-facial: a cefaleia em salvas.
São crises agudas, muito intensas nas regiões temporais e no olho, geralmente acompanhadas de lacrimejamento e coriza.
É mais comum em homens.
Era fanático por sapatos, possuindo mais de 140 pares; consta que trocava de sapato quatro vezes por dia.


3 – Harold Wolff (1898–1962)
Foi um dos primeiros grandes especialistas em cefaleia e sofria de fortes enxaquecas.
Estudava os pacientes em uma espécie de centrífuga para confirmar a dilatação das artérias.
Aliviava suas crises jogando squash no 27º andar do New York Hospital.
Ao que parece, funcionava.


4 – John Hughlings Jackson (1835–1911)
Considerado um dos maiores neurologistas da Inglaterra, foi estudioso da epilepsia.
Descreveu uma crise epiléptica focal caracterizada pela progressão da contração motora do polegar até a face.
Sua esposa padecia desse tipo de crise.
Fez descrições do dreamy state (estado onírico) e dos automatismos nas crises psicomotoras do lobo temporal.
Também propôs uma organização hierárquica do cérebro em três níveis funcionais.
Além de médico, foi jornalista.


5 – Joseph Babinski (1857–1932)
Descreveu o sinal neurológico mais famoso.
Assistente de Jean-Martin Charcot, fundador da neurologia francesa, demonstrou que, nas lesões com hemiplegia, a extensão lenta e majestosa do dedão do pé — ao estímulo da planta — indica lesão neurológica orgânica.
Babinski era alto, elegante e solteiro.
Morava com o irmão, próximo à Ópera de Paris.
Seu irmão Henri tornou-se célebre na culinária francesa.
Babinski faleceu com doença de Parkinson.


6 – Charles Bell (1774–1842)
Descreveu a paralisia facial periférica, comum em exposições ao frio, em 1821, na Royal Society de Londres.
Em sua monografia, demonstrou a anatomia do nervo facial dissecando a cabeça de um jumento.


7 – Robert Bárány (1876–1946)
Médico em Viena, foi pioneiro nos estudos sobre vertigem e o labirinto.
Recebeu o Prêmio Nobel de Medicina em 1914, quando era prisioneiro de guerra das forças russas.
Só pôde recebê-lo em 1916, após intervenção da Cruz Vermelha e do rei da Suécia.


8 – Julius Wagner-Jauregg (1857–1940)
Primeiro neuropsiquiatra a ganhar o Prêmio Nobel de Medicina.
Introduziu a febre como tratamento para distúrbios mentais causados pela sífilis.
Utilizou sangue de um paciente com malária para induzir febre nos doentes — técnica chamada piretoterapia ou malarioterapia.


9 – Camillo Golgi (1843–1926) e Santiago Ramón y Cajal (1852–1934)
Golgi introduziu, em 1873, a “reação negra”, técnica com sais de prata que permitia visualizar neurônios e suas ramificações.
Defendia que os neurônios formavam uma rede contínua.
Cajal, estudando embriões, demonstrou que os neurônios são células individuais separadas, formulando a “doutrina do neurônio”.
Ambos receberam o Prêmio Nobel em 1906, apesar da divergência científica entre suas teorias.


10 – Paul Broca (1824–1880)
Anatomista e antropólogo francês que, em 1861, apresentou o cérebro de um paciente conhecido como “Tan”, incapaz de falar além dessa única palavra.
Identificou uma área no lobo frontal esquerdo responsável pela linguagem.
Pierre Marie contestou essa visão, propondo um circuito mais amplo envolvendo outras regiões cerebrais.
Hoje, entende-se que ambos contribuíram corretamente para o conhecimento da linguagem.


11 – O cérebro e a novidade
O ser humano e seu cérebro são atraídos por novidades, herança evolutiva dos animais.
Experimentos mostram que até um rato reage com intensa curiosidade diante de algo novo.
Hoje, um carro elétrico ou um novo modelo tecnológico desperta entusiasmo semelhante ao de crianças em um parquinho recém-inaugurado.
Essa função está ligada à chamada “zona incerta”, abaixo do tálamo, relacionada ao estado de alerta e aos comportamentos emocionais.


12 – Microscopia eletrônica
Muito do que sabemos sobre neurônios e sinapses deve-se à microscopia eletrônica, especialmente às imagens em 3D.
A fenda sináptica, os grânulos proteicos e as vesículas de neurotransmissores tornam-se visíveis com grande nitidez.


13 – Neurônios fluorescentes
Certos vírus podem ser utilizados para produzir luminosidade nos neurônios.
Isso permite acompanhar trajetos de estímulos nervosos ao seguir essas “luzes”.


14 – Síndrome de Klüver-Bucy
Pesquisadores removeram cirurgicamente os lobos temporais de chimpanzés, observando alterações comportamentais marcantes:
hiperoralidade, bulimia, hipersexualidade, placidez excessiva, agnosia visual e perda de memória.


15 – Karl Pribram (1919–2015)
Neurocirurgião que propôs o modelo do “cérebro holográfico”, sugerindo que a consciência se organiza como imagens holográficas.


16 – Egas Moniz (1874–1955)
Neurologista português que introduziu a arteriografia cerebral (1927) e a leucotomia frontal (1935).
A arteriografia permitiu diagnosticar AVCs e tumores.
A leucotomia deu origem à psiconeurocirurgia, gerando intensos debates éticos, pois alterava profundamente o comportamento dos pacientes.
Foi vítima de um atentado em seu consultório, sobrevivendo com um projétil alojado na coluna.
Recebeu o Prêmio Nobel de Medicina em 1949.


Lição de casa

A história da neurologia mostra que o conhecimento científico avança entre descobertas, erros, debates e até controvérsias.
Cabe a nós aprender com esse percurso, valorizando o rigor, a ética e a curiosidade que impulsionam a compreensão do cérebro humano.

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