por Carlos Alberto Iglesia Bernardo.
Que é o espírito?
“O princípio inteligente do Universo”
(Allan Kardec, O Livro dos Espíritos, questão 23)
RESUMO
O ser vivo é um sistema dinâmico complexo, formado pela interação dos componentes materiais (o corpo físico e o períspirito ou corpo espiritual) com o espírito, este último como força organizadora e princípio inteligente. Este processo de interação é o que chamamos de vida e ele não se interrompe com a morte do corpo físico. Inicialmente simples, ao surgir nas formas mais primitivas de vida, esse processo ganha complexidade ao longo do tempo, levando o princípio inteligente a se individualizar, desenvolver consciência de si mesmo e do que o rodeia. O princípio inteligente individualizado e consciente de si mesmo é o que denominamos “Espírito”. O Espírito é o agente dos fenômenos espíritas.
- INTRODUÇÃO
Allan Kardec, na questão 23ª, no O livro dos Espíritos (O.L.E.) pergunta sobre a natureza intima do espírito e obtém a seguinte resposta “Não é fácil analisar o espírito com os conceitos e palavras que temos hoje na vossa linguagem” (Kardec 1982).
O espírito não é algo palpável para nós, mas, isso também ocorre com a matéria quando nos aproximamos das dimensões do mundo subatômico. Nessas dimensões, as partículas elementares se comportam como processos dinâmicos, descritas por equações de ondas que interagem entre si (Capra 1988, Rovelli 2021). A visão científica sobre a natureza da matéria vem se transformando ao longo do tempo (Einstein and Infeld 1980) e nos permite uma compreensão melhor da realidade física em que estamos inseridos.
A Natureza do Espírito é algo intrigante e a chave do conhecimento da vida, pois explica o objetivo de se viver. Segundo (Charon 1990) “o problema da natureza e dos mecanismos do Espírito é, com efeito, sem nenhuma dúvida, o problema central de toda a Metafísica, da qual derivam todos os outros objetos de reflexão (o Conhecimento, a vida, a morte, a Matéria, Deus…)”.
- IMPORTÂNCIA DA DISCUSSÃO SOBRE A NATUREZA DO ESPÍRITO
A discussão sobre a natureza do Espírito leva a um entendimento melhor de como os fenômenos espíritas ocorrem, principalmente ao aperfeiçoamento das hipóteses sobre seus mecanismos e consequentemente melhoria nos experimentos realizados para validá-las.
Também, um entendimento melhor sobre a natureza do Espírito é fundamental para que os resultados destes experimentos sejam corretamente registrados, avaliados e interpretados.
Por exemplo, um ponto muito destacado por Allan Kardec (vide KARDEC 2008) é que os fenômenos espíritas podem se apresentar das mais diversas formas e gradações, dependendo das características dos Espíritos que se manifestam, da existência de pessoas aptas a servirem de intermediários para a realização dos fenômenos (médiuns) e de condições ambientais e espirituais que favoreçam a ocorrência.
Essa diversidade é mais facilmente entendida quando se considera que o Espírito não é um ente abstrato, de natureza totalmente separada da matéria, mas sim um ente real, agente de fenômenos em que estão envolvidos diferentes níveis de interação entre o elemento espiritual e o material, que atua sobre o Espírito e o períspirito do médium e, com o auxílio deste, sobre a matéria que afeta os nossos sentidos.
Historicamente, os primeiros fenômenos estudados foram os físicos, em que sons ou batidas eram percebidas em objetos materiais. Por serem os mais fáceis de serem constatados e investigados, foram o ponto inicial da ciência espírita. Mas, não são os únicos e nem os mais significativos.
Particularmente a psicografia, a escrita por meio de um médium, é o fenômeno que tem permitido grandes avanços no conhecimento espírita. Estudada desde a época de Allan Kardec, é muito conhecida do público brasileiro em razão do aparecimento em nosso país de médiuns como Francisco Cândido Xavier e Yvonne A. Pereira.
Uma obra bastante instrutiva para quem se interessa pelo estudo da psicografia, especialmente quem tenha alguma dúvida sobre sua realidade, é o livro “A Psicografia ante os Tribunais” de Miguel Timponi (TIMPONI 1999). Esta obra analisa os vários aspectos do fenômeno, em razão de um célebre caso da justiça brasileira em que a família de um escritor desencarnado pleiteou seus direitos autorais.
- DUALIDADE ESPÍRITO-MATÉRIA
Em artigo anterior (Bernardo 2021), foi abordada a possibilidade de que o Espírito represente na realidade uma das forças fundamentais que agem sobre a matéria, atuando sobre os processos dinâmicos que lhe constituem a natureza, organizando-os e moldando-os. Na questão 22 de O.L.E., os Espíritos esclarecem que “a matéria existe em estados que vos são desconhecidos. Pode ser, por exemplo, tão etérea e sutil que nenhuma impressão vos cause aos sentidos. Contudo, é sempre matéria, embora para vós não o seja“ e na 22ª, definem “a matéria é o laço que prende o espírito; é o instrumento do qual este se serve e sobre o qual, ao mesmo tempo, exerce sua ação”
A dualidade da matéria-espírito foi descrita por Jean E. Charon ao estudar as partículas elementares em Física. O físico e filósofo concluiu que algumas delas encerram um espaço e tempo do Espírito. Assim, o espaço-tempo considerado apenas como “simples”, é na realidade “duplo”, existindo um espaço-tempo do Espírito ao lado do espaço-tempo da Matéria (tradicional) (Charon 1990).
- DEFINIÇÃO DE VIDA
O conjunto espírito e matéria forma um sistema dinâmico e o processo de interações entre eles é o que chamamos de vida.
A vida pode ser definida como a rede de interações, em diversos níveis de organização, que dentro de padrões de autorregulação e aprendizado, mantém a identidade do ser ao longo do tempo. Capra and Luisi 2014 mostram como este processo dinâmico é o que realmente diferencia um organismo vivo da matéria inerte.
A autorregulação é a inteligência que mantem a estabilidade e a identidade do ser vivo, por mais que suas partes se modifiquem e sejam substituídas ao longo dos processos que ocorrem em seu interior ou pelas trocas de matéria e energia com o ambiente externo. No corpo físico, por exemplo, temos células, tecidos e órgãos que interagem dinamicamente entre si e tornam possível nos percebermos como um ser individualizado e único ao longo do tempo.
- VIDA ALÉM DO CORPO FÍSICO
Na visão espírita, as fronteiras entre a matéria e o espírito não são absolutas. Os fenômenos espíritas demonstraram que além do corpo físico, há um corpo espiritual, o períspirito, que não é destruído pela morte do corpo físico. Este corpo é ainda formado de matéria, porém mais sutil, com natureza intermediária entre o espírito e a matéria conhecida da nossa ciência.
A morte (desencarnação) corresponde ao desligamento da parte constituída pelo corpo físico. O nascimento (reencarnação) é o fenômeno inverso, onde há a ligação do Espírito, através do seu períspirito, a um corpo físico.
Dessa forma, quando o ser vivo está encarnado ele apresenta três componentes (corpo físico, períspirito e Espírito). Livre da matéria física (desencarnado) mantém dois elementos (perispírito e Espírito).
- CONTINUIDADE DA INDIVIDUALIDADE
Os estudos sobre a reencarnação demonstram que a continuidade da individualidade do ser é um fato experimental (vide, por exemplo, Andrade 1988). Ela não se perde com as mudanças nos corpos de que se reveste, apenas se transforma. Tal qual a termodinâmica tem a lei da conservação da energia, que em um sistema fechado não se perde jamais, apenas se transforma, podemos falar de uma lei da conservação da individualidade do Espírito.
Inicialmente simples e ignorante (O.L.E. questão 115) a individualidade formada no processo dinâmico espírito-matéria, ganha complexidade, aprende a perceber a si mesma e adquire conhecimento do que está ao seu redor.
As fases de ligação com a matéria grosseira, o encadeamento de nascimentos e mortes, é um dos mecanismos que tornam possível essa evolução. Plantas, animais e seres humanos são estágios diferentes dessa caminhada. Delanne, 1995 denomina esta caminhada de “Evolução Anímica”.
À medida que o Espírito se desenvolve, se aperfeiçoa e ganha sabedoria, chega-se a um ponto onde a passagem pelas existências materiais deixa de ser necessária e mesmo o períspirito vai se tornando de natureza cada vez mais sutil. Pode-se conceber, pela imaginação, o estado do Espírito puro, em que ele está completamente desligado da matéria.
De fato, não sabemos ainda nem como, nem quando, esse processo tem início, mas sabemos que a individuação ocorre ao longo do tempo e que cada ser percorre ao seu próprio ritmo o caminho da evolução (O.L.E. questão 79).
Um conceito sobre a continuidade da individualidade do ser, muito similar ao processo discutido aqui, existe no Budismo. Steven 1982 e Harvey 2004 discutem em detalhe a ideia budista de anatta – a (não) + Atta (entidade eterna e imutável) – analisando como a continuidade da individualidade do ser ocorre por meio de um processo dinâmico envolvendo consciência (espírito) e forma (matéria), sem o suporte de uma substância eterna e imutável (chamada na filosofia oriental de atta ou atma).
- O ESPÍRITO
É importa frisar aqui que diferentes palavras, como espírito, mente, alma, psique, self, etc são utilizadas em contextos e campos distintos do saber para expressar ideias específicas sobre a essência do ser humano ou da sede de seus pensamentos, emoções e senso de identidade.
Seguindo a mesma convenção de Allan Kardec (KARDEC 1982), utilizamos a palavra espírito para designar o princípio inteligente do Universo, que em interação com o princípio material, forma os seres vivos. Neste contexto, inteligência, mente, psique, self são propriedades, características ou funções que surgem a partir dessa interação.
Por esta mesma convenção, empregamos a mesma palavra, “Espírito”, com a letra inicial maiúscula, para designar o princípio inteligente que atingiu o nível de consciência de si mesmo e de seus atos, que caracteriza os seres humanos. A palavra alma, quando usada, será empregada com o mesmo sentido de Espírito encarnado.
- REENCARNAÇÃO E DESENCARNAÇÃO
A reencarnação e a desencarnação são processos complexos de transformações no corpo físico e no períspirito que criam ou desfazem os laços entre eles (Xavier(Médium) and Luiz 1997). O processo de transformação na desencarnação pode ser analisado principalmente nos trechos de estudos casos de desencarnação relatados nas obras de André Luiz (Nobre 2000).
Durante a gravidez, o períspirito funciona como um campo organizador biológico sobre o qual a multiplicação das células se dá e que permite que as informações codificadas no DNA se desenvolvam corretamente na formação dos tecidos e órgãos. Ao longo da vida, é ainda o molde que comanda a substituição e regeneração das células, bem como o intermediário entre o estado do espírito e o estado do corpo, permitindo que um aja sobre o outro.
Andrade 1984 trata em detalhes o papel do modelo organizador biológico na formação do corpo físico. Em Xavier (Médium) e Luiz 1997 esse papel pode ser observado na descrição do processo de reencarnação. Em Pereira 2009 são mostradas situações de reencarnação onde o períspirito está em desequilíbrio e as consequências resultantes.
- AGENTE DO FENÔMENO ESPÍRITA
A experiência mostra que o Espírito, que continua a existir como ser vivo após o desligamento do corpo físico, consegue, por meio do seu períspirito, interagir com os seres que permanecem encarnados e, por meio dessa interação, é o agente causador dos fenômenos espíritas.
Não há, portanto, nada de sobrenatural ou miraculoso por detrás dos fenômenos espíritas. São parte da natureza de um Universo que ainda estamos começando a entender e que podem ser investigados cientificamente como quaisquer outros.
Apenas, por se tratar de uma ordem de fenômenos que envolvem além da matéria, também o Espírito, devem ser abordados com paradigma, teorias e métodos apropriados.
REFERÊNCIAS
Andrade, H. G. (1984). Espírito, Perispírito e Alma. São Paulo, Editora Pensamento.
Andrade, H. G. (1988). Reencarnação no Brasil. Matão, Casa Editora O Clarim
Bernardo, C. A. I. (2021, 26/11/2021). “Empecilho para o Estudo dos Fenômenos Espíritas (Malhelpo por la Studo de Spiritaj Fenomenoj).” https://www.geae.net.br/publicacoes/artigos-gerais/1228-empecilho.
Capra, F. (1988). The TAO of physics. New Yok, Bantam Books.
Capra, F. ; P. L. Luisi (2014). A visão sistêmica da vida. São Paulo, Cultrix.
Charon, J. E. (1990). O espírito, este desconhecido. São Paulo, Melhoramentos.
Delanne, G. (1995). A Evolução Anímica. Rio de Janeiro, FEB
Einstein, A. ; L. Infeld (1980). A evolução da física. Rio de Janeiro, Zahar Editores.
Harvey, P. (2004). The selfless mind. London, RoutledgeCurzon.
Kardec, A. (1982). O livro dos espíritos. São Paulo, Edicel.
Kardec, A. (2008). O livro dos médiuns. Brasília, FEB.
Nobre, M. (2000). Nossa vida no além. São Paulo, Editora FE.
Pereira, Y. A. C. C. B. E. (2009). Memórias de um suicída. Rio de Janeiro, FEB.
Rovelli, C. (2021). Helgoland. New York, Riverhead Books.
Steven, C. (1982). Selfless persons. Cambridge, Cambridge University Press.
Xavier(Médium), F. C. ; André Luiz(Espírito) (1997). Missionários da luz. Rio de Janeiro, FEB.

