PROJETO ENTREVISTA ELETRÔNICA*
Entrevista nº 1, ano 1996
Módulo 1
Reúno numa só resposta duas perguntas que cuidam, praticamente, do mesmo assunto.
a) A primeira delas está assim redigida: “Alguém que não atenda ao apelo do protetor espiritual para não viajar, num avião, por exemplo, e venha a desencarnar sem que isso tenha sido determinado para acontecer, comete suicídio?”
b) A segunda diz o seguinte: “Os integrantes do Mamonas Assassinas que desencarnaram num trágico acidente tiveram vários sinais de que aconteceria uma tragédia, como sonhos, avisos de videntes, etc. Em um caso desses, em que somos avisados de que algo ruim está para acontecer, o destino não está totalmente definido e podemos mudá-lo? Ou se eles conseguissem escapar daquele acidente haveria outro e desencarnariam do mesmo jeito, pois era uma fatalidade que não podia ser evitada?”
Os verdadeiros amigos espirituais costumam ser muito discretos e se revelam mais interessados em nos orientar no sentido de um comportamento ético, do que dizer como decidir as inúmeras situações que se nos apresentam no varejo da existência. Nota-se, da parte deles, um cuidado muito grande em não interferir com o exercício de nosso livre-arbítrio. Temos de aprender a tomar decisões. Estamos aqui para isso; para assumir o ônus dos erros cometidos e ter o mérito dos acertos. Costumo dizer que viver é fazer escolhas entre as numerosas opções que se colocam a cada momento diante de nós. Creio, no entanto, que se ignorarmos avisos ou intuições de que não convém fazer a viagem, que acaba sendo fatal, não estaremos cometendo suicídio, a não ser que haja, de fato, o propósito de matar-se. Pelo que se ficou sabendo, um dos componentes do grupo dos Mamonas não seguiu com os seus companheiros por haver cedido seu lugar a outra pessoa. Em situações como essas, é impraticável saber-se tudo o que se passa nos bastidores de cada destino pessoal. Podemos especular, mas não dizer com precisão por que as coisas se passaram desta ou daquela maneira.
Outro aspecto a considerar é o de que o destino de cada um de nós não está fatalisticamente determinado. Trazemos, ao renascer, um plano de trabalho, projetos a desenvolver, tarefas a cumprir, retificações a promover. Poderemos ter um bom índice de êxito, cumprirmos parcialmente o programa, realizá-lo todo ou simplesmente não fazer nada daquilo e em vez de nos resgatarmos de erros anteriores, acrescentar mais erros à carga que já carregamos do passado. Pelas numerosas comunicações transmitidas por intermédio de Chico Xavier, nos últimos anos, especialmente de jovens desencarnados em acidentes, percebe-se habitualmente a presença de um componente cármico embutido no processo, mesmo naquilo que parece aleatório, como uma bala perdida ou um disparo involuntário. Seja como for, o rumo de nossa vida na terra depende do comportamento de cada um. Muitos que vêm para a carne com pesados débitos de outras vidas resgatam-se pelo devotamento ao bem e ao próximo, sem aflições maiores. A lei divina não é punitiva — ela é educativa. Por isso, diz Pedro, na sua epístola, que “o amor cobre uma multidão de pecados”.
Módulo 2
O jovem consulente formou-se recentemente em direito e pergunta se, “perante a lei divina, é correto o procedimento de julgamento dos homens”. Informa saber de jurados que inocentam criminosos por temerem a possível retaliação divina. Deseja saber, por isso, como devem proceder advogados, promotores e juízes, “segundo os mandamentos de Kardec”.
Devo lembrar ao amigo doutor que me honra com as suas questões que, como ele sabe, não há mandamentos espíritas, menos ainda propostos por Kardec. O espiritismo é a doutrina da liberdade responsável. Estamos aqui para aprender a errar menos, até que saibamos escolher sempre a atitude correta entre as numerosas opções que temos diante de nós. Ao contrário do Decálogo, que é um documento de comando, no qual predomina o não, Jesus introduziu a doutrina do amor.
Especificamente quanto à pergunta formulada, penso que, eventualmente, ao cabo de um longo processo evolutivo, a sociedade será praticamente autogovernável, sem necessidade de um Código Penal para catalogar crimes e dosar as penas, sem polícia, tribunais, cadeias e presídios. Cada um saberá de seus deveres e não pedirá mais do que aquilo que for de seu direito. No estágio evolutivo em que nos encontramos, porém, a sociedade não pode, infelizmente, prescindir de uma estrutura legal destinada a coibir abusos e distorções de comportamento a fim de garantir um mínimo de estabilidade política, social e econômica, tanto quanto o direito às liberdades básicas. Para aplicação das leis humanas — por mais imperfeitas que sejam — torna-se necessária toda uma estrutura jurídica, preparada para examinar cada caso e determinar as correções que se impõem. Não vejo como fazer isso sem advogados, promotores, juízes, credenciados pela sociedade para aplicação adequada dos princípios de salvaguarda dos mecanismos de convivência social. Acho, contudo, que a legislação humana ainda tem muito do caráter punitivo e pouco ou nada das conotações (re)educativas. Em muitos países, ainda se manda assassinar (executar) aquele que assassinou, como se fosse uma vingança. São inevitáveis, por outro lado, os angustiantes conteúdos humanos nos casos levados aos tribunais e isso introduz em qualquer julgamento um elemento imponderável de emoção, que não deve ser ignorado. A Justiça não deve ser cruel.
Módulo 3
Descreve-me alguém, em espanhol, o drama que vive no lar. Ao cabo de 25 anos, a esposa não o quer mais e nem mais acredita nele. E pergunta: “Que esta pasando? Que puedo hacer?”
Caro amigo: Infelizmente não há soluções mágicas para conflitos como esse. Além disso, desconhecemos as causas que produziram a situação de angústia que se criou, certamente para ambos. Não há como dizer-lhe, portanto, o que se passa. E’ bem provável que o desacerto entre vocês possa ter algum componente cármico, ou seja, compromissos decorrentes de equívocos cometidos em existências anteriores. Os membros de uma família não se reúnem por acaso, mas para um processo reeducativo. Daí a importância da convivência tolerante e compreensiva no lar. Imagino que você já tenha procurado um entendimento negociado com a esposa. Tente persuadi-la a desistir de seus propósitos. Procure modificar, em você, as atitudes que, porventura, a tenham levado a tão drástica decisão. Se conseguiram conviver durante 25 anos, porque não será possível um pouco de tolerância mútua, de modo a viverem juntos outros 25? Será possível falarem ambos com um conselheiro matrimonial? Ore, pedindo a Deus que os ajude e lhes inspire uma solução de consenso, na qual cada um ceda um pouco de sua parte para que a paz se faça.
Módulo 4
Este leitor informa que já leu alguns livros meus, como Nossos Filhos são Espíritos e que, em Muitas Vidas, Muitos Mestres, de um psiquiatra americano, notou a surpresa do autor, quando seus pacientes começaram a falar de vidas anteriores.
E pergunta:
a) “Há um tempo mínimo entre uma reencarnação e outra?”
Que eu saiba, não há regras fixas para definição desse lapso de tempo, de vez que, cada caso é um caso. A matéria é tratada na Questão número 223 de O Livro dos Espíritos. Allan Kardec formulou a seguinte pergunta: “A alma se reencarna imediatamente após a separação do corpo?” Eis a resposta dos Instrutores da Codificação: “Às vezes, imediatamente, mas, na maioria das vezes, depois de intervalos mais ou menos longos. Nos mundos superiores a reencarnação é quase sempre imediata. A matéria corpórea sendo menos grosseira, o Espírito encarnado goza de quase todas as faculdades do Espírito. Seu estado normal é o dos vossos sonâmbulos lúcidos.”
O cientista brasileiro Hernani Guimarães Andrade, meu particular amigo, publicou, certa vez, um estudo sobre a provável frequência das reencarnações e os respectivos períodos de intermissão (tempo entre uma e outra), levando em conta o nível populacional de cada época. Numa época como a nossa, na qual a população da terra é medida aos bilhões, claro que há maiores oportunidades de reencarnação. Em tempos passados, quando a população do planeta era bem menor, os intervalos entre uma vida e outra teriam de ser, necessariamente, mais longos. Lamentavelmente, não tenho condições de identificar em que ponto da obra de Hernani se encontra esse estudo.
b) É possível um espírito desencarnar e voltar numa geração seguinte, dentro da mesma família?
É perfeitamente possível isso e acontece com frequência, até na mesma geração. Há casos bem documentados de desencarnados que renascem como filhos ou filhas dos mesmos pais. O livro Twenty Cases Suggestive of Reincarnation, do prof. Ian Stevenson, menciona alguns desse tipo. Um deles ocorreu no Brasil, Rio Grande do Sul, na família do prof. Francisco Waldomiro Lorenz, eminente linguista, escritor e professor. Nesse mesmo livro, Stevenson apresenta o caso de um homem que se reencarnou como filho de seu filho e, portanto, avô de si mesmo.
c) Ele pode escolher reencarnar na mesma família, ou há uma designação, de um espírito mais elevado, determinando aonde ele deve reencarnar?
Mais uma vez, temos de recorrer ao chavão: cada caso é um caso. Não creio que haja “determinação” de algum espírito mais elevado. Há estudos, pesquisas, debates e deliberações de consenso sobre o que mais convém a cada espírito reencarnante, na moldura geral de seu quadro cármico. Pesquise a obra do autor espiritual André Luiz e você encontrará informações minuciosas sobre as complexidades de alguns desses projetos de reencarnação.
Módulo 5
Este leitor formula quatro perguntas. Vejamo-las.
a) A divulgação do espiritismo, bem como de outras religiões, poderá sofrer impactos nunca vistos, com a possibilidade de uso intensivo da rede Internet por todo o mundo. Como o senhor sugere que deveria ser a presença de nossa doutrina na rede, se de uma maneira não articulada ou coordenada, a cargo de pessoas espíritas, engajadas no movimento espírita e com grande entusiasmo, porém sem toda a experiência e conhecimento necessários, ou via utilização de recursos que eventualmente pudessem ser disponibilizados pelo movimento espírita, através da FEB e/ou órgãos federativos, como a USEERJ e a USE, devidamente coordenados?
Realmente, a Internet criou um sistema de comunicação de amplitudes nunca sonhadas. Tal sistema precisa e deve ser explorado na divulgação da doutrina dos espíritos junto a público gigantesco e presumivelmente predisposto a saber o que temos a dizer nesta hora na qual a civilização se mostra alienada, buscando, à deriva, mecanismos de fuga.
Acho, contudo, que, pior do que não entrar na Internet com a mensagem espírita de esclarecimento e esperança, seria entrar de modo inadequado. O problema, a meu ver, não oferece dificuldades técnicas no enfrentamento das complexidades da informática, em si mesma, que isso pode ser resolvido com relativa simplicidade, entregando a matéria a ser divulgada a profissionais experimentados e competentes na sua apresentação. O problema situa-se na seleção e preparo desse material, ou seja, no seu conteúdo. Pelo menos numa primeira abordagem, creio que seria impraticável e até contraproducente colocar, por exemplo, os textos da Codificação pura e simplesmente para estudo e consulta. Penso que deveríamos começar por uma dissertação em estilo leve e atraente sobre os aspectos fundamentais do espiritismo, com chamadas nas quais o micreiro pudesse clicar, aí sim, para receber mais amplas informações sobre cada ponto que lhe interessasse conhecer melhor, nos livros de Kardec e em outros. Sem capturar, logo de início, a atenção do micreiro nesse texto introdutório, ele abandonará a pesquisa, passando a outro “site” que lhe pareça mais acessível e atraente. Não cabe aí uma longa e cansativa especulação de caráter filosófico, nem uma tentativa de “doutrinar” o eventual leitor. Tanto quanto possível, o texto deve ser ilustrado, não apenas do ponto de vista gráfico, mas com historinhas pessoais, casos concretos, sumariamente expostos.
Um aspecto prioritário, que logo se impõe ainda nas preliminares, é o da língua. Por mais que amemos o idioma português, temos de reconhecer suas limitações na competição com o inglês, por exemplo, ou o francês e até o espanhol. Os esperantistas certamente proporiam colocar os textos no belo idioma criado por Zamenhof. E acho que estariam certos, a prazo médio. Entendo, porém, que, pela sua disseminação pelo mundo a fora, especialmente entre os informatas, o inglês seria a primeira opção a considerar. Topamos, neste ponto, com outro aspecto delicado — a qualidade dos textos. Não são muitas as pessoas familiarizadas, ao mesmo tempo, com a doutrina espírita, com a língua portuguesa e a língua inglesa. Os brasileiros que estão procurando difundir o espiritismo nos Estados Unidos e na Inglaterra conhecem bem o problema e têm se esforçado por enfrentá-lo, conscientes, porém, de que ainda há muito o que fazer nessa área. Na verdade, a tradução de textos espíritas para o inglês tem sido um apertado gargalo que vem dificultando o trânsito da mensagem espírita, não apenas entre os povos de língua inglesa, como entre aqueles que fizeram do inglês sua segunda língua, onde quer que estejam e onde quer que chegue um terminal acoplado à Internet.
Acho, por isso, que um texto preliminar, doutrinária e lingüisticamente satisfatório em português, deveria ser vertido para outras línguas — inglês em primeiro lugar — por tradutores profissionais de alto nível.
Esse texto básico, além de ser, obviamente, representativo consensual do melhor pensamento espírita, deveria ser preparado por um pequeno grupo de trabalho supervisionado por entidades oficiais responsáveis pelo movimento espírita no Brasil.
E aí se coloca um novo aspecto do problema. Costuma-se dizer que se você não quer que um projeto seja elaborado conclusivamente, deve entregá-lo a um grupo de trabalho, que logo se põe a inventar procedimentos burocráticos. Dizem até que o camelo é todo feio e desconjuntado porque foi criado num grupo de trabalho… O grupo teria de ser, portanto, pequeno, composto de pessoas competentes, dispostas a trabalhar dentro de um prazo que previsse a entrega de um documento acabado, em tempo razoável. O movimento dispõe de gente adequada para preenchimento de tais especificações, contando até mesmo com publicitários credenciados, como Merry Sheba.
Trata-se, portanto, de um projeto de vulto e de grande responsabilidade. Para muita gente, no exterior, o texto que for eventualmente para a Internet tem de ter, como se diz coloquialmente, “a cara do espiritismo” — uma “cara” simpática, descontraída e, ao mesmo tempo, séria, convincente e que desperte no internauta o desejo e a disposição de mergulhar mais fundo na sua temática.
b) Como o senhor vê a questão da Transcomunicação Instrumental (TCI) no Brasil? As pesquisas são sérias, profundas e à luz da doutrina espírita? E no exterior?
A pergunta é ampla demais para as minhas limitações. Não conheço o assunto em profundidade e, por isso, não tenho como avaliá-lo Tenho lido as matérias que costumam sair nas publicações doutrinárias brasileiras, entre elas as de autoria do cientista brasileiro dr. Hernani Guimarães Andrade, pesquisador da maior competência e seriedade, grande figura humana, a quem admiro, respeito e estimo há mais de 50 anos.
Como aprecio muito os escritos do jornalista e escritor americano Jess Stearn, li seu excelente relato sobre as pesquisas feitas por George Meek, um dos pioneiros daquilo que hoje conhecemos como TCI. O testemunho colhido por Stearn não deixa dúvidas quanto à seriedade de Meek, um sujeito lúcido, competente, brilhante mesmo, respeitado pela sua notável atividade como engenheiro-consultor do mais alto nível. Meek pôde dedicar-se ao seu projeto porque dispunha de amplos rendimentos pessoais produzidos por suas numerosas invenções patenteadas, em uso na indústria americana e européia.
Acho até válido o esforço em se criar instrumentação que possibilite o intercâmbio entre encarnados e desencarnados. Por que não? Os resultados que o sistema venha eventualmente a produzir pode ser de utilidade em convencer pessoas que se agarram à idéia de que a morte é ponto final e não ponto-e-vírgula. Os mais obstinados, contudo, continuarão acorrentados aos dogmas materialistas de sua preferência. Como a gente sabe, para alguns destes a morte renova as idéias, mas há também aqueles que, mesmo depois de desencarnados, continuam arrastando consigo o cadáver de suas ilusões materialistas.
Como espírita, alegro-me de que os cientistas estejam empenhados em criar mais uma via de acesso ao plano espiritual, mas prefiro manter, como prioridade pessoal, minha contribuição — singela, por certo — a partir daquilo que já conhecemos acerca da realidade espiritual. Com todo respeito pela postura de companheiros e companheiras que se dedicam ao projeto TCI, entendo que os que se acham já convencidos de tal realidade devem ocupar-se mais em vivenciar o conhecimento de que já dispõem, pois, como dizia o Cristo, a seara é muito grande e os trabalhadores continuam escassos. Se puderem fazer ambas as coisas, tanto melhor.
c) Outro leitor também aborda o mesmo tema, perguntando-me (1) como vejo os avanços da TCI, no mundo atual? (2) Seria a TCI um risco ao mediunismo tradicional? e (3) Estariam os países europeus abrindo mão do mediunismo tradicional pela TCI?
Creio que a primeira das três perguntas ficou atendida neste módulo. Quanto à segunda questão, penso que, em princípio, a TCI não representará nenhum risco às práticas tradicionais da mediunidade. Será apenas mais um instrumento de intercämbio com os desencarnados. A questão está em desenvolver-se uma técnica satisfatória de comunicação e na utilização ética do método.
Sobre a terceira pergunta, não acho que os europeus estejam, propriamente, “abrindo mão do mediunismo tradicional” em favor da TCI, dado que, pelo que sabemos, o exercício da mediunidade na Europa, nos termos em que o conhecemos no Brasil, é pouco significativo. Pelo que se sabe, ainda há, por lá, uma rejeição muito grande à realidade espiritual. Talvez a fenomenologia produzida com a ajuda da parafernália eletrônica se torne mais aceitável pela sofisticada cultura européia.
d) Sistematicamente, creio que há vários anos, o bispo católico da diocese de Novo Hamburgo, RS, d. Boaventura Kloppenburg, vem criticando os espíritas e a doutrina espírita, em órgãos da imprensa, tal como o Jornal do Brasil. Tenho visto, eventualmente, algumas réplicas por parte do presidente da USEERJ, Gerson Simões Monteiro, procurando esclarecer de forma precisa, em conformidade com o espiritismo, sempre com o cuidado de não ser deselegante. Pergunto a opinião do senhor se cabe, também, às pessoas espíritas redigirem cartas, contestando alguma coisa divulgada de maneira errônea na mídia, porém com o risco de que a contestação não seja formulada precisamente, dando ensejo a novas críticas de adversários do espiritismo, e aí, talvez, fundamentadas?
Caro leitor, o ilustrado bispo de Novo Hamburgo é um antigo e diligente adversário do espiritismo. Está no desempenho de seu papel, tem o direito de fazê-lo e deve ser respeitado por isso. Como membro destacado da sua Igreja e cônscio de suas responsabilidades de pastor, combate o espiritismo com o propósito de orientar seu rebanho, como se lê no subtítulo de um de seus livros. É claro que ele apresenta a doutrina espírita dentro da sua óptica e, por isso, com as refrações pessoais ditadas pela sua postura religiosa. Não há como censurá-lo por cumprir o que entende por seu dever. Nem por em dúvida sua honestidade de propósitos. Tanto reconhece a força da doutrina dos espíritos que se pôs em campo para tentar deter o esvaziamento que vem sofrendo sua Igreja, nos últimos tempos. Faz isso alertando os fiéis sobre o que considera as “falácias e incongruências” que vê nos postulados básicos do espiritismo, tanto quanto na sua prática. Um brilhante e irreverente confrade e amigo meu muito querido costumava recomendar aos que se interessassem pela história do espiritismo no Brasil, um dos livros do dr. Boaventura, àquela época, frei Boaventura. O autor preparou bem seus deveres de casa, estudando a doutrina, a fim de combatê-la melhor. Acho isso muito bom, para ele, principalmente, porque, ao chegar de volta ao mundo espiritual, o conhecimento que leva do espiritismo lhe será muito mais útil do que tudo aquilo que se contém na sua respeitável erudição teológica católica.
Nada tenho a reparar quanto àqueles que procuram contestar suas contestações, como o dinâmico confrade Gerson Simões Monteiro. Gerson, certamente sabe que seria ilusória a expectativa de convencer o ilustre sacerdote de que a razão está com os espíritos. O debate serve, no entanto, para esclarecer um ou outro leitor desavisado, na melhor definição do que é e do que não é espiritismo. Como não tenho gosto nem competência para a polêmica, prefiro continuar escrevendo meus livrinhos.
e) O centro espírita é o elemento-chave para o espiritismo, onde o homem irá encontrar o amparo, o conhecimento e o trabalho necessários ao seu aperfeiçoamento moral. No sentido de melhorar continuamente o funcionamento do centro, verifica-se, algumas vezes, a necessidade de se ampliar o mesmo a fim de dar melhor funcionalidade às atividades desenvolvidas na Casa. Esse é o caso do que frequento, onde obras estão sendo realizadas para aumentar o número de salas e melhorar as atividades relacionadas com a evangelização infantil, mocidade e atendimento fraterno. O que o senhor sugere, sempre à luz da doutrina espírita, como possíveis atividades válidas para obtenção de recursos financeiros para realização desse tipo de obra? Em tempo, destaco que rifas, bingos e assemelhados não são de forma alguma utilizados em nossa Casa. Para obtenção dos recursos financeiros estamos realizando eventos, como almoço fraterno e atividades como venda de brindes, de camisetas com motivos espíritas e de livros espíritas, em conjunto com as doações recebidas dos sócios e freqüentadores da Casa.
Talvez eu desaponte o caro leitor ao dizer isto, mas não tenho a menor experiência em tarefas de administração de instituições espíritas, pois nunca as frequentei regularmente, a não ser como membro do Conselho Superior da Federação Espírita Brasileira, durante cerca de 15 anos. Como você sabe, as reuniões desse Conselho realizam-se, usualmente, apenas uma vez por ano, para aprovação das contas e eleição da diretoria. É que minha opção, logo ao me tornar espírita, foi pela tarefa de escritor e eu achava, como penso até hoje, que seria difícil desenvolvê-la a contento em paralelo com as intensas atividades profissionais e ainda com responsabilidades administrativas em alguma instituição de minha escolha, caso nela me atribuíssem qualquer responsabilidade administrativa. Orientação específica para decisões desse tipo a gente encontra na Primeira Epístola aos Coríntios, capítulo 12, versículos 4-30, onde Paulo recomenda que cada trabalhador escolha uma tarefa compatível com seus recursos, possibilidades e limitações. Foi o que procurei fazer. Tenho a impressão de que deu certo.
Quanto à especificidade de sua pergunta, parece-me correta a atitude adotada pelo centro que você freqüenta, procurando obter recursos financeiros sem recorrer a jogos de azar. No nosso caso, o grupo não dispõe de qualquer estrutura formal e, por isso, não há despesas a realizar, senão as que temos regularmente com as tarefas assistenciais em uma favela do Rio. Esse trabalho é custeado por algumas doações, e, principalmente, pelos direitos autorais dos meus livros publicados pela Lachâtre. Refiro-me a esses, especificamente porque as demais obras foram doadas a diferentes instituições, como a FEB, o Lar Emmanuel (Correio Fraterno do ABC), C.E. Caminho da Redenção (Divaldo Franco), o Centro Espírita “Amantes da Pobreza”, responsável pela Casa Editora O Clarim, e outras.
Módulo 6
Este leitor formula três perguntas. Uma delas, sobre o acidente em que morreram os Mamonas Assassinas, ficou respondida, no Módulo 1, juntamente com outra semelhante. Restam-nos duas a atender.
a) Há casos de regressão de memória em que foi comprovado, através de pesquisas, que aquela personalidade do passado realmente existiu?
Sim, há muitos casos desses, a começar pelo de Bridey Murphy, em 1956. Por mais que a mídia tenha se esforçado por demolir o depoimento colhido por Morey Bernstein, no livro The Search for Bridey Murphy, as evidências são convincentes, não especificamente sobre a existência de Bridey, mas pelos dados históricos relatados por ela. Pelo que se depreende, Bridey era uma pessoa obscura que não teria deixado nenhum registro pessoal. O leitor interessado deve recorrer ao meu artigo “Bridey Murphy: uma reavaliação”, publicado em “Reformador”, janeiro de 1980, pp. 23-31.
Eu Sou Camille Desmoulins, escrito por mim e por Luciano dos Anjos, é o relato de uma regressão com o próprio Luciano, que se indentifica como o jornalista, escritor e político da Revolução Francesa. Praticamente todas as informações dadas por ele, em transe, foram conferidas posteriormente e achadas corretas. O livro foi publicado pela Lachâtre e está em sua terceira edição.
Caso ainda mais recente é o de uma jovem senhora inglesa, que descobriu sua própria família de uma existência anterior, na Irlanda. A dramática experiência foi narrada por Jenny Cockell, a própria pessoa que a viveu, no livro Across Time and Death (Simon & Schuster, Nova York, 1994). A sra. Cockell lembrava-se, desde menina, e com impressionante realismo, de episódios de sua existência anterior. Ela sabia que havia morrido jovem, na Irlanda, e deixara seis filhos, sendo a última ainda um bebê, com cerca de seis anos de idade. Após vários anos de pesquisa, ela conseguiu localizar os filhos, já idosos, exceto dois deles, falecidos. Seu nome de solteira, naquela existência, foi Mary Hand, nasceu em 1 de dezembro de 1895, casou-se em 22.7.1917, com John Sutton, adotando o sobrenome do marido. Morreu em 24 de outubro de 1932, aos 37 anos incompletos. Renasceu, como Jenny, na Inglaterra, em 1953. A sra. Cokell conseguiu importantes documentos de sua vida anterior, como certidão de casamento e a de morte, bem como comprovação do batismo de todos os seus filhos, na igreja de São Silvestre, em Malahide, Irlanda, onde viviam os Suttons. Convém acrescentar que Jenny Cockell é pessoa intelectualmente bem dotada e faz parte da Mensa, sociedade integrada exclusivaente por gente de elevado QI. Na sua existência atual, ela é casada, tem um casal de filhos e exerce a profissão de quiropodista. Estudo meu sobre o caso está para ser publicado em livro que reúne textos inéditos de vários autores espíritas. Aguarde. Sugiro que você leia também A Memória e o Tempo, livro meu igualmente publicado pela Lachâtre.
b) Como explicar o caso de “regressão” em que na verdade a pessoa é levada ao futuro e não ao passado? Isso não seria uma contradição a idéia de que a regressão comprova a reencarnação?
Insisto em que você leia A Memória e o Tempo, onde encontrará, com minúcias que seria impraticável reproduzir aqui, o que se pode pensar do assunto. A “ida” ao futuro é uma realidade insofismável, por mais que o fenômeno nos deixe perplexos. O coronel Albert de Rochas, em seu livro Les Vies Successives, chama tais incursões ao futuro de progressões, em vez de regressões. Este livro está para ser publicado, em tradução brasileira, pela Lachâtre.
Confesso não haver entendido a razão de sua dúvida. A regressão é uma ida ao passado, onde o regredido encontra e revive (ou se recorda de) episódios de uma ou mais existências vividas anteriormente. A progressão é uma ida ao futuro, onde ele ou ela poderá experimentar vivências que, para as nossas limitações de tempo e espaço, ainda não aconteceram. Jenny Cokell, ainda há pouco citada, experimentou um fenômeno espontâneo de progressão, ao ver-se numa existência futura, como uma menina nepalesa. A escritora britânica Joan Grant teve uma visão dessas, ao contemplar não apenas suas existências anteriores, como uma série de vidas futuras. Isso está narrado em seu livro Far Memory. Não sei explicar esse mecanismo de atemporalidade. Chet Snow, em Mass Dreams of the Future, escreveu um capítulo inteiro para discutir a complexa temática do tempo, mas sua dissertação está fora do alcance da minha ignorância matemática. O caso é que, explicados ou não, os fenômenos de regressão e progressão constituem uma realidade desafiadora que aí está para ser estudada e decifrada. Seja como for, a progressão de memória, longe de enfraquecer a evidência da reencarnação robustecea ainda mais.
Módulo 7
O leitor deseja saber em “qual área de pesquisa” eu trabalho.
Não sou um cientista e nem tenho formação adequada para isso. Sou apenas um escritor que gosta de aprender para partilhar com eventuais leitores aquilo que aprende.
Módulo 8
Este leitor informa ter passado por “uma fase em que, ao meditar e orar, “via” seres em diversas situações, todos eles muito felizes. “Às vezes, tais seres chegavam a parar em sua caminhada e olhar para mim. Depois prosseguiam em sua estrada. Nunca conversaram comigo, apenas passavam diante de meus olhos mentais, se me é lícito usar a expressão. Subitamente tudo isto diminuiu de intensidade e, no momento, quando medito, pouco ou quase nada tenho visto. Há uma explicação para isso?”.
É conhecido o fato de que em relaxamento, entre a vigília e o sono, no estado chamado hipnagógico, costuma ocorrer um desdobramento parcial entre o corpo físico e o espírito (sempre acoplado ao seu perispírito). Desse modo, imagens colhidas na dimensão espiritual são percebidas pela pessoa semi-adormecida. Creio, porém, que o seu esforço em captar conscientemente tais imagens, acaba criando um estado de tensão e alertamento que leva você a não mais perceber as imagens. Em outras palavras: em vez de se manter meio adormecido, você desperta e, aí, não vê mais nada. Sugiro que você leia meu livro Alquimia da Mente, onde encontrará algumas especulações acerca da dicotomia alma/espírito.
Módulo 9
A pergunta está assim formulada: “Levando-se em consideração a grande quantidade de casos estudados e o crescente aumento no número de relatos públicos, gostaria de saber sua opinião sobre experiências fora do corpo, pois venho estudando este tipo de fenomenologia há alguns anos e gostaria de saber qual a opinião das principais figuras ligadas ao espiritismo.”
Obrigado por me considerar, generosamente, uma das “principais figuras” no movimento espírita. Não sou mais do que um mero escriba.
Há, de fato, considerável material publicado acerca do fenômeno de OBE e acho que você faz bem em estudá-lo. Tenho lido coisas esparsas, a partir de Journeys Out of the Body, livro de Robert Moore (Doubleday, Nova York, 1977), e, antes dele, o de Carrington. Foram, que eu saiba, dos primeiros a retomar o estudo do assunto, que é tão antigo quanto o ser humano. Todos nós, em menor ou maior intensidade, desdobramo-nos durante o sono fisiológico. A hagiografia católica menciona vários casos de desdobramento, como os de Antônio de Pádua, Tereza de Ávila, são João Cupertino e outros.
Emmanuel Swedenborg (1688-1772), “um dos maiores místicos de todos os tempos”, no entusiasmado dizer de Lewis Spence (in An Encyclopaedia of Occultism), publicou cerca de 80 livros para narrar suas experiências de desdobramento. Escrevi sobre ele, um opúsculo intitulado Swedenborg — uma análise crítica, publicado pelo Centro Espírita Léon Denis, do Rio de Janeiro.
Um especialista contemporâneo no assunto é o dr. Waldo Vieira, autor de alguns livros, como Projeciologia, um volumoso tratado sobre a temática do seu interesse e que, provavelmente, você já conhece.
Autores de língua inglesa costumam designar fenômenos de desdobramento — ou projeção, na terminologia do dr. Waldo –, pela expressão “travelling clairvoyance”, ou seja clarividência itinerante. Sugiro que você leia meu livro Diversidade dos Carismas, onde encontrará algum material acerca da OBE.
Especificamente, sobre sua pergunta, posso dizer que considero o desdobramento fenômeno anímico, ou seja uma atividade do espírito encarnado, enquanto o corpo se encontra em repouso e relaxamento. Há, no entanto, aspectos mediúnicos no desdobramento, quando a pessoa desdobrada funciona como intermediária entre seres encarnados e desencarnados, segundo a definição proposta por Allan Kardec, em O Livro dos Médiuns, capítulo final (Vocabulário), no qual reúne alguns termos utilizados na Codificação.
Módulo 10
Este leitor informa que um amigo ateu quis demonstrar-lhe a inexistência de Deus com a seguinte pergunta: “Se Deus é Todo-Poderoso, ele pode criar uma pedra tão pesada que ele mesmo não possa carregar?”
Sugiro ao leitor que não se preocupe com os ateus, seu amigo inclusive. Eles ainda não perceberam que, como criaturas inteligentes, têm, necessariamente, de provir de uma causa inteligente, o Criador. No tempo devido, eles despertarão para essa realidade. Jesus também os encontrou e aproveitou a oportunidade para louvar a Deus por haver ocultado “estas coisas aos sábios e doutores” e as revelado “aos pequeninos”. (Mt 11,25). O prof. Saxton Burr declara enfaticamente, em Blueprint for Immortality, que a natureza — um dos pseudônimos de Deus — “mostra-se relutante em revelar seus segredos ao intelectualismo arrogante.” Paradoxos acerca de Deus, acho eu, são meros jogos de palavras a demonstrar a generalizada incapacidade da mente racional para lidar com os transcendentais conceitos de infinito, eternidade, onipotência. Há um ponto em que a razão — atributo da personalidade — deve ceder espaço mental à intuição, atributo da individualidade. Sugiro a leitura de meu livro Alquimia da Mente, onde este aspecto é abordado, como, também, em A Grande Síntese, de Pietro Ubaldi.
Alguns ateus não se conformam de haver algo que não possam entender. Costumam ser, contudo, sinceros e honestos na sua descrença. Acontece que a descrença também é uma forma de fé, ainda que, paradoxalmente, na própria descrença. Aliás, tanto faz a gente crer como não, Deus está aí, por toda parte “à minha volta”, como escreveu Angelus Silesius. A existência de Deus não depende de nossas convicções filosóficas e teológicas. Num momento cultural, como este que estamos vivendo, não obstante, em que a física quântica declara precisar de uma superinteligência ordenadora do universo para explicar certos fenômenos, o ateísmo é, no mínimo, uma postura obsoleta.
Isto me faz lembrar um delicioso poeminha de Ronald Knox, que encontrei em Alternate Realities, do dr. Lawrence LeShan. Tratam os versos de um diálogo entre um universitário e Deus.
Ei-lo:
There was a young man who said,‘God,
must find it unusually odd,
when he sees that the tree
continues to be
when there’s no one about in the Quad’.
Prontamente, Deus mandou um bilhete para o jovem pensador. Nestes termos:
“Dear Sir, it is you who are odd,
I am always about in the Quad.
And that’s why the tree
continues to be
as observed by, yours faithfully, God.”
Para os que não estejam bem familiarizados com o inglês vamos tentar aqui uma tradução livre e em prosa.
“Disse um jovem: ‘Deus deve achar muito estranho ver que a árvore continua existindo no pátio mesmo quando não há ninguém por perto para vê-la’.”
A resposta de Deus está assim redigida:
“Prezado Senhor, você é que é estranho. Eu estou sempre por ali, no pátio. Eis porque a árvore continua existindo, pois está sendo observada pelo, fielmente seu, Deus.”
Como percebe o leitor, o ponto em discussão é um daqueles abstratos argumentos filosóficos, segundo o qual o mundo externo só existe quando há alguém a contemplá-lo.
Quanto ao “argumento” de seu ilustrado amigo, podemos dizer que Deus criou a tal pedra — o Universo — e tem dado boa conta de carregá-la, acrescida do peso adicional de nossa pertinaz insensatez. Se Ele fosse depender de nossa crença para existir, estaríamos perdidos para sempre. Tão generoso, paciente e tolerante é ele que até permite que a gente zombe dele, construindo sarcásticos paradoxos sobre ele. Se Deus tivesse lábios, prestando bastante atenção, até se poderia perceber com os olhos da mente, como disse há pouco, um internauta amigo, o esboço de um sorriso complacente.
Módulo 11
Alguém me propõe o seguinte problema: — “Filho, por que está chorando?” Resposta: “Estou pensando na morte.” O leitor deseja saber como responder a essa indagação da criança.
As crianças são espíritos reencarnados e, por conseguinte, trazem toda uma bagagem de conhecimento que permanece depositada intacta no inconsciente. Como todos nós, elas já passaram por muitas existências, morreram muitas vezes e voltaram a viver na carne. Se você explicar isso em palavras simples, compatíveis com seu vocabulário, ainda reduzido, ela entenderá. A morte não existe — é apenas a passagem de uma dimensão ou estado de ser para outro. O que morre é o corpo físico, mesmo assim simplesmente restituindo os átomos utilizados ao imenso reservatório cósmico. A preocupação dessa criança com a morte terá, certamente, sua razão de ser. Procure saber, sem pressionar, conversando descontraidamente, demonstrando seu amor e seu desejo de ajudá-la a compreender que estamos todos em Deus, “mortos” — ou seja, sem o corpo físico — ou “vivos”. É preciso dizer que, em vez de se preocupar com a morte, trate de preparar-se para a vida, pois certamente todos nós trazemos um programa para ser realizado aqui. Fale-lhe de Deus, ensine-o a orar, fale de Jesus e das coisas que ele ensinou com o seu exemplo e sua sabedoria. Em meu livro Nossos Filhos São Espíritos, você encontrará informações que poderão ajudá-lo a dialogar e conviver com as crianças.
Módulo 12
Eis o que me escreve um médico: “Participo de grupo de desobessão em hospital psiquiátrico espírita e, apesar de minha formação em medicina, muitas vezes não consigo formar opinião sobre os casos de doentes crônicos e residuais. Valeria a pena insistir no tratamento desobessivo propriamente dito, ou apenas passes? Dos casos que tive oportunidade de acompanha e registrar, apenas um obteve resposta considerada excelente.”
Caro doutor: você não está sozinho em suas indagações. Pelo menos eu também as tenho experimentado, com frequência, em mais de trinta anos de intercâmbio com os espíritos trazidos ao nosso trabalho mediúnico. Muitas vezes, sinto-me insuficiente perante a dor da entidade com a qual dialogo. A gente gostaria de entender tudo para ajudar a resolver os aflitivos problemas que nos são propostos por tantos seres sofridos e angustiados. Como você se lembra, mesmo os apóstolos, instruídos na tarefa pelo próprio Cristo, falhavam em alguns casos de tratamento espiritual. Jesus explicou que para uma abordagem a tais situações era necessário praticar o jejum e a prece. Ou seja, são casos muito difíceis e que exigem devotamento e amor fraterno. Ele disse, também, em algumas oportunidades, depois de curar a pessoa de doenças orgânicas ou de possessão espiritual: Vai e não peques mais para que não te aconteça coisa pior. E explicitava, ensinando que aquele que erra torna-se escravo do erro e não se livra da dor correspondente enquanto não se resgatar perante a lei divina. Suponho, por isso, que há numerosos casos de dramático sofrimento que ainda não estão “maduros” e predispostos a uma resposta positiva ao tratamento. Muitas vezes, a gente fica limitada a ouvir, orar e chorar com o que sofre uma lágrima de solidariedade e consolo. Em Vozes do Grande Além (Edição FEB), organizado por Arnaldo Rocha, há um levantamento estatístico dos casos de resposta positiva, de casos em que houve algum alívio e substancial percentagem de situações ainda inabordáveis, sem perspectiva de cura ou melhora a curto prazo. (O médium do grupo era o próprio Chico). A lei é paciente, porque espera e distribui a carga conforme nossas forças, mas é, também, severa. Tem de ser — se não o fosse, teríamos o caos ético. Continue com o seu valioso trabalho. Um só desses espíritos atormentados que a gente consiga resgatar de vez em quando já é suficiente para justificar o devotamento à causa do sofrimento. Há, no Evangelho, outra passagem ilustrativa do trato com as entidades sofredoras. A certa altura, regressam, eufóricos, alguns dos 72, de suas missões de caridade, porque haviam conseguido o afastamento de alguns obsessores e possessores. Mas o Cristo ensina que, mais do que isso, eles tinham, pelo seu trabalho, inscrito seus nomes nos céus.
Módulo 13
O leitor pergunta o que eu sei sobre “o uso energético e terapêutico que certos grupos esotéricos e até espíritas tem feito de cristais, assim como da cromoterapia” e se conheço, a respeito, a opinião dos espíritos.
Lamento informar que não sei praticamente nada acerca do emprego de cristais em terapia e menos ainda sobre a cromoterapia. Em meu livro Alquimia da Mente há algo acerca dos cristais, não, porém, como instrumentos terapêuticos. Em princípio, acho possível o poder que alguns deles possam ter sobre os seres vivos, por causa da faculdade que dispõem de reordenar manifestações de energia como a luz. Como sabemos, o raio laser resulta de uma filtragem da luz que, ao passar pelo campo magnético do cristal, sai do outro lado, reordenada, concentrada e potencializada. O cristal é capaz até de fazer “cicatrizar” suas próprias fraturas, como se sabe do livro Evolução Anímica de Gabriel Delanne. Quem sabe se com a reordenação e o redirecionamento das sutis energias que circulam pelo nosso corpo não podem eles promover a cura de algumas disfunções orgânicas?
Como você vê, isto são meras especulações. Não conheço a opinião de entidades espirituais sobre o assunto. Há referências sobre os cristais em André Luiz e em A Grande Síntese, como ficou dito em meu já citado Alquimia da Mente. Ambas essas fontes de natureza mediúnica consideram o cristal como uma das mais rudimentares manifestações de um remoto psiquismo, mas não me lembro de referências ao poder curativo deles.
Módulo 14
Acerca da criação dos espíritos, o leitor deseja saber sua opinião sobre as duas teorias que menciona: “1) Ele começa como mineral e vai progredindo a vegetal, passando pelo reino animal até chegar ao homem (espírito mais evoluído) e vai evoluindo moralmente até chegar à perfeição. 2) Ele sempre está na forma de homem e vai evoluindo moralmente até chegar à perfeição.”
Você diz que opta pela primeira. É, também, essa a minha escolha. A segunda é, praticamente, a da criação bíblica de Adão e Eva, interpretada ao pé da letra, o que é inaceitável.
Emmanuel cuida do assunto em A Caminho da Luz, psicografia do Chico, páginas 22 e seguintes. Vejamos apenas um pequeno tópico, para não tomar muito tempo:
“O protoplasma foi o embrião de todas as organizações do globo terrestre, e, se essa matéria, sem forma definida, cobria a crosta solidificada do planeta, em breve a condensação da massa dava origem ao surgimento do núcleo, iniciando-se as primeiras manifestações dos seres vivos.”
Quanto à inteligência dos animais, sugiro-lhe a leitura do módulo “5. O abismo das verdades” (pp. 71-85) de Alquimia da Mente. Aproveite a oportunidade para ler o anterior, o de número 4, sobre “Como conversar com as plantas”, bem como o número 3 intitulado “O pó da terra”. Acham-se todos esses módulos no capítulo III – “Em busca de um psiquismo na matéria.” Não se esqueça, porém, de que a origem dos espíritos constitui problema muito complexo, sobre o qual os Instrutores da Codificação preferiram ser lacônicos, talvez à espera de melhores conhecimentos de nossa parte para entendê-lo melhor. Veja, ainda, Evolução em Dois Mundos, de André Luiz. Referências ao tema são igualmente encontradas em A Grande Síntese, de Pietro Ubaldi.
Módulo 15
Um leitor e confrade médico, em tarefa de desobsessão em um hospital espírita, propõe a seguinte questão: “Nossos trabalhos evoluíram para a conclusão, através de informação prestada por espírito interessado no caso, que a patologia suspeita teve origem desde encarnação do paciente no antigo Egito, onde fora sacerdote. A partir daí, quando atingiu o auge do desenvolvimento das capacidades paranormais, vem relutando em aceitar qualquer imposição corretiva. O caso foi levado à sessão clínica, porém fui advertido por colega espírita que tal revelação causal padecia de critérios científicos e doutrinários, com o que não concordo. Solicito seu parecer sobre a nossa limitação de médicos espíritas em trazer a foro de debate informações obtidas por via mediúnica.”
Caro doutor. Como você sabe, as entidades responsáveis pela Codificação recomendaram reiteradamente severa análise crítica das informações recebidas por via mediúnica. Isso não quer dizer, contudo, que a informação fica sob suspeita somente porque teve essa origem, ou não teríamos, hoje, uma riquíssima literatura psicografada por vários médiuns responsáveis e de confiança. Tanto quanto posso avaliar, não vejo nada de anticientífico ou antidoutrinário na informação recebida por vocês sobre o caso do paciente mencionado. Por que anticientífico? Por que faltam provas? Se é isso, que tipo de provas seriam exigidas? Em que teria contrariado preceitos doutrinários? E que preceitos estariam sendo contestados? Acho perfeitamente possível que uma entidade fique de tal modo envaidecida de seus dons mediúnicos, que se julgue o máximo da perfeição, sem admitir qualquer espécie de crítica. Isso demonstraria que não basta ser um bom médium — é preciso ser, também, uma boa pessoa, equilibrada, sensata, sempre disposta a aprender.
Quanto a levar o assunto à discussão com seus colegas, não é surpresa encontrar resistências. No Congresso Espírita de Brasília, em 1989, queixei-me de que muitos profissionais da saúde mental só se tornam espíritas depois que encerram os trabalhos do dia e fecham a porta de seus consultórios. Não que devessem fazer de suas profissões subsidiárias da doutrina e do movimento espíritas, mas que procurem utilizar-se dos conceitos doutrinários fundamentais na prática profissional, da mesma forma que um profissional meramente cristão é cristão também no trato de seus clientes. Como um dr. Bezerra de Menezes, por exemplo.
Módulo 16
Este leitor formula três perguntas: 1) Dentro das pesquisas por você realizadas, o que pode apontar como definitivo no sentido de provas da reencarnação? 2) Quais os mais significantes exemplos, ao longo de todos os seus anos de pesquisas, acerca da mediunidade? 3) Que obras classifica como imperdíveis para os espíritas pesquisarem, afora as espíritas?
Como costumo dizer, que tipo de provas a gente pode desejar acerca da reencarnação, por exemplo, ou da sobrevivência do ser? Nas pesquisas em torno da realidade espiritual, temos de nos contentar basicamente com evidências convincentes, convergentes, lógicas e racionais. Provas materiais, creio eu, somente no domínio de pesquisas com a matéria que pode impressionar os nossos sentidos ou a instrumentação inventada como extensões deles, como balanças, microscópios, telescópios, raios X, ressonância magnética e tantos outros. Esses critérios não se aplicam aos fenômenos produzidos pela realidade espiritual. Pelo menos por enquanto, não temos como pesar, medir, cheirar, apalpar um espírito a não ser que esteja temporariamente materializado. Mesmo assim, estaremos testando a matéria ectoplasmática que, eventualmente, tenha lhe servido para tornar-se visível, e não o espírito em si. Como provar (materialmente) que B é reencarnação de A, se o corpo físico é outro? De minha parte, acho que a experiência de regressão de memória com Luciano dos Anjos, demonstra razoavelmente bem ser ele a reencarnação do jornalista e político francês Camille Desmoulins. Veja o livro Eu Sou Camille Desmoulins e avalie a evidência oferecida pela meticulosa pesquisa histórica.
Tenho procurado aproveitar a oportunidade de estar servindo em trabalhos mediúnicos, com a publicação de volumoso material sobre mediunidade e sua prática. São vários os livros em que o tema é tratado. Cito alguns: Diálogo com as Sombras, Diversidade dos Carismas e a série de quatro volumes sob o título genérico de “Histórias Que Os Espíritos Contaram”. Há referências ao tema, ainda, em Alquimia da Mente, especificamente, no módulo 8 – “Ignotas regiões do psiquismo”, capítulo V. “Consciente e Inconsciente”. Confira.
Não tenho em mente nenhuma obra imperdível para recomendar como leitura a não ser o Novo Testamento, mas isto é óbvio, dado que o espiritismo é uma retomada do cristianismo original. De minha parte, procuro seguir orientação do própxio Kardec, que declarando o espiritismo aberto às novas revelações do futuro, nos deixou um roteiro de leitura e estudo. Tenho procurado ler tudo aquilo que, direta ou indiretamente, possa contribuir para ampliar nosso entendimento da excelente doutrina dos espíritos, que, explicitamente, não disseram tudo quanto sabiam. O próprio Cristo adotou essa posição. Há um bom exemplo para ilustrar esse aspecto – e acho que não precisamos mais do que um, aqui. O conceito de inconsciente, embora já estivesse como que “no ar” ao tempo em que a Codificação foi elaborada, somente começou a ser explicitado a partir da obra de Eduard von Hartman e, mais tarde, Freud, Jung e outros. A pergunta que me fiz, como espírita, é a seguinte: Há lugar para o conceito de inconsciente, na doutrina dos espíritos? Ou se trata de algo inaceitável em termos doutrinários? Penso que não apenas há lugar para o inconsciente na doutrina, como explicações sobre como, onde e por que ele se encaixa no contexto doutrinário. Algumas dessas reflexões você encontrará em meus livros A Memória e o Tempo e Alquimia da Mente.
Módulo 17
Formula este leitor, a seguinte pergunta: “O catolicismo surgiu de um sincretismo envolvendo judaísmo, cristianismo e mitraísmo. Como praticamente todas as denominações cristãs derivaram do catolicismo, considero o cristianismo atual uma caricatura da doutrina exemplificada pelo Cristo. A Bíblia que utilizam é a versão Sixto Clementina repleta de equívocos e adulterações. Até que ponto estou equivocado?
O caro leitor tem razão na sua contestação. Procuro ser compreensivo com os equivocados caminhos do que hoje se faz passar por cristianismo. Talvez seja algum sentimento de culpa meu, não sei. Dizem-me amigos espirituais que militei, repetidamente, durante séculos na Igreja Católica Apostólica Romana. Sei lá se andei ajudando a inventar alguns de seus dogmas e a desviá-la do roteiro que o Cristo esperava que ela seguisse? Isso, porém, não me impede de analisar com a possível lucidez e opinar com veemência, sobre o panorama atual do cristianismo, tal como o vejo. O leitor amigo encontrará esse depoimento meu em Cristianismo, a mensagem esquecida, edição “O Clarim”, de Matão, SP., bem como em O Evangelho Gnóstico de Tomé, edição Lachâtre. Ou, ainda, em As Marcas do Cristo, edição FEB.
Módulo 18
Amigo e confrade de Fortaleza pergunta sobre o que me levou ao espiritismo e acrescenta que, há alguns anos, tentou um contato comigo, mas não conseguiu meu endereço. Gostaria de saber se tal contato é sempre difícil.
Vamos por partes. Meu livro Nossos Filhos São Espíritos conta um pouco de como fui abrigar-me no aconchego luminoso da doutrina dos espíritos. Confira, lendo, principalmente o capítulo 23, intitulado “Presença de Deus”, no livro citado. Fui atraído pela luz, como inseto perdido na noite… Cheguei, gostei e fiquei. O espiritismo é chama que ilumina, aquece, mas não queima. E, como diziam os gnósticos, viemos todos de “lá, onde a luz nasce de si mesma” e para lá regressaremos um dia. Por isso, a luz nos atrai, especialmente depois de perambular, às tontas e por longo tempo, pelas sombras.
Lamento tenha sido tão difícil encontrar-me, aliás, não me encontrar. Desculpe. Resido no Rio desde 1956, ano que costumo tomar como referência de meu encontro com a doutrina espírita. Desde 1980 estou aposentado das atividades profissionais (Ciências Contábeis). Há, contudo, um problema — limito-me em ser um mero escriba. Como orador, continuo sendo um escriba, só que ainda pior. Desejo, se possível, continuar escrevendo meus livrinhos, nos últimos tempos, diante da telinha do computador. Gostaria de viajar para conhecer pessoalmente alguns dos numerosos amigos que me escrevem, como os de Fortaleza. São muitos os convites, mas a idade já vai longe (76) e a saúde nem tanto, impondo-me limitações que tenho de aceitar.
Módulo 19
Recentemente foi publicada a notícia de que pesquisadores teriam conseguido isolar um gene, o qual, supostamente, seria o responsável pelo comportamento agressivo de alguns camundongos. O próximo passo, segundo essa mesma fonte, seria identificar, no ser humano, os genes que, analogamente, determinariam seus caracteres psicológicos, tais como personalidade, caráter, fobias, etc. Uma vez que tais características são atributos do espírito e não dos genes, como podemos interpretar o resultado da pesquisa?
Tanto quanto se sabe, o gene é um componente material do corpo humano e a matéria não revela iniciativa de impulsos agressivos ou quaisquer outros — limita-se a servir de instrumento na execução de comandos mentais do ser que esteja acoplado ao conjunto celular. Os dados sobre a pesquisa a que você alude, no entanto, são insuficientes para uma avaliação adequada do problema colocado. Disfunções psicológicas ou de comportamento, porventura detectadas nos genes, devem resultar de desarmonias espirituais que não permitiram um mínimo de equilíbrio no momento em que os genes são arranjados no corpo físico em formação. Sabe-se também, que problemas mentais mais graves acabam por danificar de maneira irreversível os circuitos nervosos. É incontestável o poder da mente sobre o corpo físico e, consequentemente, sobre suas funções. A função psicossomática é uma realidade hoje reconhecida.
Traços de personalidade e de caráter, bem como fobias e tendências ditas inatas, dependem da experiência acumulada pelo espírito em suas existências anteriores. É através do perispírito que o quadro geral dos compromissos cármicos se transcreve na personalidade e, por extensão, no corpo físico em formação. Em Alquimia da Mente, procuro estudar o binômio alma/espírito, a que aludem os Instrutores da Codificação, comparando-o com personalidade/individualidade. Quanto aos camundongos, não sei o que se passa. Seria necessário conhecer melhor as experiências realizadas. Acho, porém, sensato dizer que o suposto “gene da agresssividade” seria efeito e não causa.
Módulo 20
1) Por que Allan Kardec nunca nos mandou nenhuma mensagem do além? 2) Existe algum fundamento nas notícias que dizem que Chico Xavier é Kardec reencarnado?
São, realmente, escassas as mensagens mediúnicas provindas de Kardec. Não sei por quê. Em meu livro As Mil Faces da Realidade Espiritual (Edicel, Sobradinho, DF) há um texto sob o título “Mensagens de Kardec” (pp. 109-117). A “Revue Spirite”, ano 1869, pp. 270/272, estampa uma comunicação subscrita por João Huss junto de outra assinada por Kardec. Interpreto-as como um “recado” do Codificador no sentido de confirmar sua encarnação anterior como Huss, mostrando a coerência de seus propósitos em diferentes existências. Não faltam, contudo, mensagens apócrifamente atribuídas a Kardec, como a que recebeu Dunglas Home, pouco após a desencarnação do Codificador. Dizia assim: “Lamento haver ensinado a doutrina espírita. a) Allan Kardec.” “A mensagem” — escrevi no citado livro — “é tão estapafúrdia que nem o insuspeito sr. Jean Vartier, crítico impiedoso de Kardec, a admitiria como legítima, como se lê de seu livro Allan Kardec – La Naissance du Spiritisme, Hachete, 1971, Paris.”
Na minha opinião — sem desdouro para um, nem para outro e com o devido e merecido respeito a ambos –, não há o menor fundamento na notícia de que Chico seria a reencarnação de Kardec.
Módulo 21
Em seu livro O Exilado, no conto “O discípulo de Galileu”, o doutrinador conversa com um espírito regredido ao tempo em que era contemporâneo de Sócrates. Não ficou, a meu ver, exatamente claro, mas tive a impressão de que o doutrinador também fora um discípulo do grande filósofo. Por isso, pergunto: O senhor já pensou em escrever um livro biográfico sobre Sócrates? Um livro que fosse realizado com base nas informações obtidas através da regressão de memória de alguém que tivesse sido contemporâneo de Sócrates?
Você acertou na mosca! Esse é um grande e antigo sonho, por enquanto irrealizável. Meu primeiro projeto seria o de um levantamento histórico sobre o cristianismo primitivo, pesquisado na memória de gente que “estava lá”. Espero ainda poder concretizá-lo algum dia… Leia, a propósito dessa temática, um texto meu intitulado “Glastonbury — a mediunidade a serviço da arqueologia”, no livro As Mil Faces da Realidade Espiritual. Veja, também, meu livro Arquivos Psíquicos do Egito (Lachâtre, Niterói).
Outro projeto seria o de recuperar, via regressão de memória, períodos de ouro como o da Grécia Antiga. Quanto à sua impressão de leitura, também foi a minha, ante o que disse o espírito, mas não há como confirmar ou negar a possível condição de ex-discípulo de Sócrates. Não se poderia nem dizer que o doutrinador apenas teve a honra de engraxar as botas do Filófoso, porque ele costumava andar descalço, quando muito, com umas sandálias empoeiradas.
Módulo 22
Este leitor lembra que, quando encarnados, pode-se abreviar a vida na terra por meio do suicídio, arcando com as desastrosas consequências da insensatez. Pergunta, a seguir, se, como espírito desencarnado, poderíamos cometer um “suicídio” às avessas, forçando uma reencarnação.
Tenho minhas dúvidas, caro leitor. Do que a gente observa nos livros de André Luiz, as reencarnações constituem processos complexos e delicados, que envolvem estudo meticuloso de dados muito sutis para um planejamento adequado. Dessa operação participam entidades experimentadas e de alto nível ético. Penso que seria muito difícil, senão improvável, que alguém conseguisse reencarnar-se sem essa cuidadosa metodologia.
Módulo 23
Pergunta: Que orientação daria aos doutrinadores com pouca experiência?
Li, certa vez, que a gente só aprende a nadar pulando na água. Seja prudente, contudo. Se nadar a gente não aprende somente lendo, doutrinar exige leitura, meditação e prece, aliadas a uma certa dose de humildade. Doutrinadores experientes foram, de início, inexperientes. Penso, também, que não há doutrinadores perfeitos. Os melhores serão, certamente, aqueles que souberem combinar a doação espontânea e sincera do amor fraterno, com o desejo de servir, de ajudar, de minorar o sofrimento alheio e de aprender, a cada sessão, com cada manifestação, as novas lições que elas trazem. Estas seriam as condições, digamos, inatas. Quem não se sentir dentro de tais especificações, procure outra tarefa, pois trabalho não falta. É necessário entender, ainda, que o doutrinador não deve colocar-se como um ser redimido e purificado, a dar conselhos a um infeliz, mas um irmão no mesmo nível, disposto a ouvir e partilhar a dor que as entidades trazem em si, por mais que a escondam atrás da agressividade e da zombaria. Em meu livro Diálogo com as Sombras (FEB) há um texto específico em que é discutido o problema do doutrinador. Leia, também, Diversidade dos Carismas.
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O projeto “entrevista eletrônica” é uma organização conjunta de: Casa Editora ‘O Clarim’
Grupo de Estudos Avançados Espíritas – GEAE
Instituto de Difusão Espírita – IDE
Publicações Lachâtre
Projeto “Entrevista Eletrônica”, entrevista nº 1, ano 1996, Hermínio C. Miranda
É permitida a reprodução parcial ou total do texto contido neste documento, para fins pessoais e não lucrativos, desde que o texto não seja alterado e seja citada a fonte.
Os direitos autorais do material aqui contido pertencem ao entrevistado.