por Nubor Orlando Facure.
Dona Landa, assim como muitas outras mulheres, recebia um carinho todo especial de Chico Xavier.
Ela, minha irmã e eu iniciamos as aulas de evangelização no barracão do centro espírita onde o Chico foi morar, em Uberaba, creio que em 1962.
Certa madrugada, visitando o Chico em sua casa, ele nos pediu para ficarmos mais um instante, para que pudesse ler uma página de um livro que sempre trazia sob o braço:
Fonte Viva — Emmanuel/Chico Xavier.
A lição repetia as palavras de Jesus:
“Não atireis pérolas aos porcos.”
(Evangelho de Mateus 7:6 diz: “Não deem o que é santo aos cães, nem joguem pérolas aos porcos; pois os porcos pisotearão as pérolas, e os cães se voltarão contra vocês e os atacarão.”)
— O que Jesus quis ensinar com essa afirmação, Chico? — perguntou minha mãe.
Chico nos respondeu:
— Consultando Emmanuel, ele nos diz que, no deserto, para quem tem sede, devemos adiar o Evangelho para oferecer água.
Então compreendemos que cada coisa deve vir ao seu tempo.
Nisso, o Chico se dirigiu a mim, pedindo minha opinião.
Meio sem jeito, com 22 anos e sem experiência, falei trêmulo:
— Onde faltar Jesus e Emmanuel não nos acolherem, não nos esqueçamos de que, acima deles, temos nosso Pai amoroso, Deus, que sempre nos acode.
— E Deus criou as mães — eu disse ao Chico. — Deve ter seus propósitos.
Pode-se procurar nas portas das cadeias mais terríveis: são as mães que estão ali, suplicando para terem seus filhos de volta em suas próprias mãos.
Elas os consideram sempre inocentes. Dizem que eles erraram sem querer, que foram os amigos que os induziram ao erro, que estão arrependidos.
Elas, sim, ensinarão o Evangelho de Jesus para eles, sem desprezá-los.
Quando terminei, o Chico chorava e, segurando minhas mãos, pediu-me para agradecer.
Enquanto eu falava, ele recebeu a visita de sua mãe, que havia oito anos não via.
E dona Maria João de Deus estava ali para nos inspirar, lembrando o amor incondicional de todas as mães, principalmente daquelas cujos filhos se desviaram de Jesus.
Dona Landa gostava muito de ler.
Uma das coleções de que me lembro era a de Alexandre Dumas, autor de O Conde de Monte Cristo, no qual havia um personagem, o Abade Faria, que trabalhava com o transe sonambúlico.
Certa ocasião, foi à nossa casa, em Uberaba, o padre capuchinho da Paróquia Santa Terezinha e viu a Bíblia sobre um móvel da sala.
O vigário repreendeu dona Landa, dizendo que somente o padre poderia interpretar aquele livro.
Isso despertou a curiosidade de minha mãe, que decidiu estudar, ouvindo os protestantes e, depois, os espíritas.
Eu tinha sete anos e me lembro de ter ido à Assembleia de Deus e ao Centro Uberabense com minha mãe e dona Maria, nossa vizinha.
No centro espírita, por essas coincidências que Deus nos proporciona, era dia de reunião com a participação da médium dona Maria Modesta Cravo.
Ela se levantava e fazia uma preleção evangélica comovente, numa fluência incrível.
Terminada sua fala, ela era incorporada pelo espírito Irmão José, que nos brindava com uma prece de agradecimento a Jesus.
Desde então, toda a família se envolveu com a doutrina espírita.

