por Nubor Orlando Facure.
Atendi a Soninha em duas fases de sua vida: aos 4 e aos 12 anos.
Ela tem deficiência intelectual e atraso no desenvolvimento motor.
Demorou para andar.
Não conseguia falar aos 4 anos.
Comunica-se por gestos, grunhidos ou monossílabos.
Normalmente, seu comportamento é muito hostil, mas, como seu humor oscila, ela nos surpreende: às vezes é carinhosa e dócil.
Como um animalzinho de casa, parece escolher a visita com quem vai sintonizar.
Precisa de ajuda no banho, na alimentação e para se vestir.
Não sabe escolher suas roupas.
Não forma grupo de amigos.
Tive a impressão de que, aos 4 e aos 12 anos, era exatamente a mesma pessoa.
Quase nenhum progresso.
A Soninha foi uma fruta que não amadureceu.
Ocorreram apenas mudanças no tipo de tarefas e no estilo de vida em que estava envolvida.
Passou da boneca para o celular.
Mas o nível de deficiência era o mesmo.
Era como se existisse uma pedrinha rígida de cristal no seu núcleo psíquico.
Parecia envolta por camadas, como cascas de cebola, ao seu redor.
À medida que a idade avançava, surgiam novas tarefas, novas “cascas de cebola”.
Mas as dificuldades motoras e de compreensão permaneciam as mesmas.
Passou das bonecas para o celular com a mesma infantilidade, não sabendo quantificar os valores de cada objeto.
Parece que sua inteligência não recebeu o “processador” adequado para se desenvolver.
Fazia tarefas sempre com a mesma dificuldade, seja amarrando o tênis aos 6 anos ou abotoando a blusa aos 12.
Não tinha habilidade para esses atos motores simples.
Sua doença ocorreu ao nascimento, no decorrer de um “trauma de parto”, tão comum no passado das parturientes, produzindo os famosos quadros de paralisia cerebral.
Vários médicos que a avaliaram falaram em autismo, atraso do desenvolvimento e outros diagnósticos “da moda”.
Em algumas poucas áreas, ela progrediu.
Consegue nos avisar sobre algumas de suas necessidades biológicas básicas ou apontar, fazendo escolhas de objetos que deseja.
Mas as lesões impediram o desenvolvimento dos programas associados à inteligência.
Noções de neurologia:
Recebemos como herança uma espécie de “cristalzinho” que forma o núcleo da nossa inteligência e o conteúdo da nossa personalidade.
O desenvolvimento do cérebro vai agregando outros “aplicativos”, tornando-nos mais competentes:
A atenção.
A memória.
O raciocínio lógico.
A percepção do que é certo ou errado.
A noção de espaço e das dimensões dos objetos.
Aprendemos a dar significados às coisas do mundo à nossa volta.
Mas é preciso manter ativo um mecanismo importantíssimo:
o processador de tarefas baseado na inteligência.
Temos uma inteligência basal, genética.
O que fazemos para crescer é promovido pelos desafios.
É preciso manter esse processador sempre ativo; senão, com o tempo, nosso “cristalzinho” perde o brilho.
É necessário muito zelo para que, no decorrer da vida, nosso desinteresse pelo aprendizado não acabe “descascando a cebola” que nos reveste, enrijecendo nossos cristais.
Lição de casa:
Uma criança com deficiência grave é um curso inesgotável de aprendizado.
Fixa o amor.
Amplia a renúncia.
Engrandece a paciência.
Expõe o significado das pequeninas coisas.

