CONCLUSÃO
I
Aquele que só conhecesse de magnetismo terrestre o jogo dos
patinhos imantados, que fazemos nadar na água de uma bacia, dificilmente
poderia compreender que esse brinquedo encerra o segredo do mecanismo do
Universo e do movimento dos mundos. Acontece o mesmo com o que só conhece do
Espiritismo o movimento das mesas; ele não vê mais que um divertimento, um
passatempo das reuniões sociais e não compreende que esse fenômeno tão simples
e tão vulgar, conhecido da Antiguidade e até mesmo dos povos semi-selvagens,
possa estar ligado aos mais graves problemas da ordem social[70]. Para o observador superficial, com efeito que
relação pode ter uma mesa que gira com a moral e o futuro da Humanidade? Mas
quem quiser refletir se lembrará de que de uma simples panela cuja tampa se
erguia com o vapor, fato que também se verificava desde toda a Antiguidade,
saiu o possante motor com que o homem atravessa o espaço suprimindo as
distâncias. Pois bem: vós que não acreditais em nada fora do mundo material
sabei que dessa mesa que gira e provoca o vosso sorriso de desdém saiu toda uma
Ciência, com a solução de problemas que nenhuma filosofia pudera resolver.
Apelo a todos os adversários de boa-fé e lhes suplico dizerem se tiverem o
trabalho de estudar o que criticam. Porque em boa lógica a crítica só tem valor
quando o crítico conhece o assunto. Zombar de uma coisa que não se conhece, que
não se sondou com o escalpelo do observador consciencioso não é criticar mas
dar prova de leviandade e uma pobre idéia de sua capacidade de julgamento.
Seguramente, se tivéssemos apresentado esta filosofia como sendo uma obra do
cérebro humano ela teria encontrado menos desdém e teria merecido as honras de
um exame dos que pretendem dirigir a opinião. Mas ela vem dos Espíritos, que
absurdo! É muito que mereça um olhar. Julgam-na pelo título, como o macaco da
fábula julgava a noz pela casca. Fazei, se o quiserdes, abstração da origem;
suponde que este livro seja obra de um homem e dizei no vosso íntimo e em
consciência, depois de o ler seriamente, se encontrastes matéria para
zombaria.
II
0 Espiritismo é o mais perigoso antagonista do Materialismo;
não é, pois, de admirar que tenha os materialistas por adversários. Mas como o
Materialismo é uma doutrina que mal se ousa confessar (prova de que os seus
profitentes não se acreditam bastante fortes e são dominados por sua
consciência) eles se acobertam com o manto da razão e da Ciência e, coisa
bizarra, os mais céticos falam até mesmo em nome da religião, que também não
conhecem e não compreendem como o Espiritismo. Tomam por alvo sobretudo o
maravilhoso e o sobrenatural, que não admitem. Ora, segundo dizem, sendo
o Espiritismo fundado sobre o maravilhoso não pode ser mais do que uma
suposição ridícula. Não refletem que assim procedendo sem restrições contra o
maravilhoso e o sobrenatural, fazem o mesmo com a religião. Com efeito, a
religião se funda na revelação e nos milagres. Ora, o que é a revelação senão
as comunicações extra-humanas? Todos os autores sagrados, desde Moisés, falaram
dessas espécies de comunicações. Que são os milagres senão fatos maravilhosos e
sobrenaturais por excelência, pois são, no sentido litúrgico, derrogações das
leis da Natureza? Logo, rejeitando o maravilhoso e o sobrenatural, rejeitam as
próprias bases da religião. Mas não é sob esse aspecto que desejamos encarar o
assunto. O Espiritismo não tem de examinar se há ou não há milagres, quer
dizer, se Deus pôde, em certos casos, derrogar as leis eternas que regem o
Universo. Deixa ele, a esse respeito, toda liberdade à crença. Mas diz e prova
que os fenômenos sobre os quais se apoia só têm de sobrenatural a aparência.
Esses fenômenos não parecem naturais aos olhos de certas pessoas, pelo fato de
serem insólitos e exorbitarem dos fatos conhecidos. Mas não são mais
sobrenaturais do que todos os fenômenos de que a Ciência nos dá hoje a solução
e que em outras épocas pareciam maravilhosos. Todos os fenômenos espíritas,
sem exceção, são conseqüências de leis gerais. Eles nos revelam uma das
forças da Natureza, força desconhecida, ou para melhor dizer, incompreendida
até hoje, mas que a observação demonstra estar na ordem das coisas. O
Espiritismo, portanto, repousa menos no maravilhoso e no sobrenatural do que a
própria religião. Os que o atacam nesse sentido não o conhecem. E mesmo que
fossem os maiores sábios, nós lhes diríamos: se a vossa Ciência, que vos
ensinou tantas coisas, não vos revelou que o domínio da Natureza é infinito,
sois apenas meio-sábios.
III
Quereis, segundo dizeis, curar o vosso século de uma mania que
ameaça invadir o mundo. Gostaríeis que o mundo fosse invadido pela
incredulidade, que procurais propagar? Não é à ausência de qualquer crença que
temos de atribuir o relaxamento dos laços de família e a maioria das desordens
que minam a sociedade? Demonstrando a existência e a imortalidade da alma o
Espiritismo reaviva a fé no futuro, reergue os ânimos abatidos, faz suportar
com resignação as vicissitudes da vida. Ousareis chamar a isso um mal? Duas
doutrinas se enfrentam: uma, que nega o futuro, outra, que o proclama e o
prova; uma que nada explica, outra que tudo explica e por isso mesmo se dirige
à razão. Uma é a sanção do egoísmo, a outra oferece uma base à justiça, à
caridade e ao amor do próximo. A primeira não mostra mais do que o presente e
aniquila toda a esperança, a segunda consola e mostra o vasto campo do futuro.
Qual a mais perniciosa?
Certas pessoas, e entre as mais céticas, fazem-se apóstolos da fraternidade e
do progresso. Mas a fraternidade supõe o desinteresse, a abnegação da
personalidade; o orgulho é uma anomalia para a verdadeira fraternidade. Com que
direito imporeis um sacrifício àquele mesmo a quem dizeis que com a morte tudo
se acabará para ele, e que amanhã talvez nada mais seja do que uma velha
máquina desarranjada e atirada fora? Que razão terá ele para se impor alguma
privação? Não é muito mais natural que nos curtos instantes que lhe concedeis
ele procure viver o melhor possível? Vem disso o desejo de possuir bastante
para melhor gozar. Desse desejo nasce a inveja dos que possuem mais e dessa
inveja ao desejo de tomar o que eles possuem vai apenas um passo. Que é o que o
retém? A lei? Mas a lei não abrange todos os casos. Direis que é a consciência,
o sentimento do dever? Mas em que se baseia o sentimento do dever? Esse
sentimento encontra uma razão de ser na crença de que tudo acaba com a vida?
Com essa crença uma única máxima é racional: cada um por si. As idéias de
fraternidade, de consciência, de dever, de humanidade e mesmo de progresso não
são mais do que palavras vãs. Oh, vós que proclamais semelhantes doutrinas não
sabeis todo o mal que fazeis à sociedade, nem de quantos crimes assumis a
responsabilidade! Mas por que falo de responsabilidade? Para o cético ela não
existe; ele só presta homenagem à matéria.
IV
O progresso da Humanidade tem como princípio a aplicação da lei
da justiça, amor e caridade, e essa lei se funda sobre a certeza do futuro.
Tirai essa certeza e lhe tirareis sua pedra angular. Dessa lei derivam todas as
outras porque ela encerra todas as condições da felicidade humana. Somente ela
pode curar as chagas da sociedade. E isso podemos julgar pela comparação das
épocas e dos povos, porquanto melhoram a sua condição à medida que essa lei é
melhor compreendida e melhor praticada. Se uma aplicação parcial e incompleta
produz um bem real, o que será quando a tomarem por base de todas as
instituições sociais? Isto é possível? Sim, porque quem deu dez passos pode dar
vinte e assim por diante. Pode-se pois avaliar o futuro com base no passado. Já
estamos vendo se extinguirem, pouco a pouco, as antipatias entre os povos; as
barreiras que os separam caem com a civilização: eles se estendem as mãos de um
extremo a outro do mundo; maior justiça preside às leis internacionais; as
guerras se tornam cada vez mais raras e não mais excluem os sentimentos de
humanidade: a uniformidade se estabelece nas relações; as distinções de raças e
de castas desaparecem e os homens de crenças diferentes fazem calar os
preconceitos sectários para se confundirem na adoração de um único Deus[71]. Falamos dos povos que se encontram à frente da
civilização. (Ver itens 789-793). Sob todos os aspectos estamos ainda longe da
perfeição e existem ainda muitos resíduos antigos a serem destruídos, até que
tenham desaparecido os derradeiros vestígios da barbárie. Mas aqueles vestígios
poderão opor-se ao poder irresistível do progresso, a essa força viva que é em
si mesma uma lei da Natureza? Se a geração presente é mais adiantada que a
anterior, porque a que nos sucederá não o seria mais do que a nossa? Ela o será
por força das coisas; primeiro, porque com as gerações se extinguem dia a dia
alguns velhos campeões dos velhos abusos, e assim, pouco a pouco, a sociedade
vai-se formando de elementos novos, destituídos dos velhos preconceitos; em
segundo lugar, porque, desejando o progresso, o homem estuda os obstáculos e se
empenha em derrubá-los. Desde que o movimento progressivo é incontestável, o
progresso futuro não poderia ser posto em dúvida. O homem, por natureza, quer
ser feliz, e não busca o progresso senão para aumentar a sua felicidade, sem o
que o progresso não teria objetivo. O que seria o progresso para ele se não
tivesse por fim melhorar-lhe a posição? Mas quando tiver a soma de felicidade
que o progresso intelectual lhe pode dar perceberá que essa felicidade não é
completa, reconhecendo que ela só é impossível sem a segurança das relações
sociais. E esta segurança ele só a encontrará no progresso moral. Então, por
força das circunstâncias ele mesmo impulsionará o progresso nesse sentido, e o
Espiritismo lhe oferecerá a mais poderosa alavanca para atingir o alvo.
V
Os que dizem que as crenças espíritas ameaçam invadir o mundo
proclamam a sua força, porque uma idéia sem fundamento e destituída de lógica
não poderia tornar-se universal. Se, pois, o Espiritismo se implanta por toda
parte, se recruta adeptos sobretudo nas classes esclarecidas, como todos o
reconhecem, é que tem um fundo de verdade. Contra essa tendência serão inúteis
todos os esforços dos seus detratores e o que prova é que o próprio ridículo de
que o procuraram cobrir, longe de deter o seu impulso, parece lhe haver dado
novo rigor. Esse resultado justifica plenamente o que muitas vezes os Espíritos
têm dito: "Não vos inquieteis com a oposição, tudo o que fizerem contra vós se
tornará em vosso favor e os vossos maiores adversários servirão à vossa
causa sem o querer. Contra a vontade de Deus a má vontade dos homens não
poderá prevalecer."
Com o Espiritismo a Humanidade deve entrar numa fase nova, a do progresso
moral, que lhe é conseqüência inevitável. Deixai, pois, de vos admirar da
rapidez com que se propagam as idéias espíritas. A causa disso está na
satisfação que elas proporcionam a todos os que as aprofundam e que nelas vêem
alguma coisa mais do que um fútil passatempo. Ora, como o homem quer a sua
felicidade acima de tudo, não é de admirar que se interesse por uma idéia que o
torna feliz.
O desenvolvimento dessas idéias apresenta três períodos distintos: o primeiro é
o da curiosidade provocada pela estranheza dos fenômenos; o segundo é o do
raciocínio e da filosofia; o terceiro, o da aplicação e das conseqüências. O
período da curiosidade já passou: a curiosidade não dura mais que um certo
tempo e uma vez satisfeita muda de objeto; mas o mesmo não acontece com o que
se refere ao pensamento sério e ao raciocínio. O segundo período já começou e o
terceiro o seguirá inevitavelmente. O Espiritismo progrediu sobretudo depois
que foi melhor compreendido na sua essência, depois que lhe perceberam o
alcance, porque ele toca nas fibras mais sensíveis do homem: as da sua
felicidade, mesmo neste mundo. Nisso está a causa da sua propagação, o segredo
da força que o faz triunfar. Ele torna felizes os que o compreendem, enquanto a
sua influência não se estende sobre as massas. Mesmo aquele que não tenha
testemunhado nenhum fenômeno material de manifestações dirá: Além dos fenômenos
há uma filosofia; essa filosofia me explica o que nenhuma outra havia
explicado; nela encontro, pelo simples raciocínio, uma demonstração racional
dos problemas que interessam no mais alto grau ao meu futuro. Ela me
proporciona a calma, a segurança, a confiança, me livra do tormento da
incerteza, e ao lado disso a questão dos fatos materiais se torna secundária.
Vós todos, que o atacais, quereis um meio de o combater com sucesso? Ei-lo
aqui. Substitui-o por alguma coisa melhor, encontrai uma solução mais
filosófica para todas as questões que ele resolve, dai ao homem outra
certeza que o torne mais feliz, mas compreendei bem o alcance dessa palavra
certeza, porque o homem não aceita como certo senão o que lhe parece
lógico. Não vos contenteis em dizer que isso não é assim, pois é muito fácil
negar. Provai, não por uma negação, mas através de fatos que isso não é, jamais
foi e nem pode ser. E se isso não é, dizei sobretudo o que devia ser em
seu lugar. Provai, por fim, que as conseqüências do Espiritismo não tornaram os
homens melhores, e portanto mais felizes, pela prática da mais pura moral
evangélica, moral que muito se louva mas pouco se pratica. Quando tiverdes
feito isso, tereis o direito de o atacar. O Espiritismo é forte porque se apoia
nas próprias bases da religião: Deus, a alma, as penas e recompensas futuras, e
porque sobretudo mostra essas penas e recompensas como conseqüências naturais
da vida terrena, oferecendo um quadro do futuro em que nada pode ser contestado
pela mais exigente razão. Vós, cuja doutrina consiste inteiramente na negação
do futuro, que compensação ofereceis para os sofrimentos deste mundo? Vós vos
apoiais na incredulidade, e ele se apóia na confiança em Deus. Enquanto ele
convida os homens à felicidade, à esperança, à verdadeira fraternidade, vós
lhes ofereceis o nada por perspectiva e o egoísmo por consolação.
Ele explica tudo, vós nada explicais. Ele prova pelos fatos e vós nada provais.
Como quereis que o homem hesite entre essas duas doutrinas?
VI
Seria fazer uma idéia bem falsa do Espiritismo acreditar que a
sua força decorre da prática das manifestações materiais e que portanto,
entravando-se essas manifestações pode-se minar-lhes as bases. Sua força está
na sua filosofia, no apelo que faz à razão e ao bom senso. Na Antiguidade ele
era objeto de estudos misteriosos, cuidadosamente ocultos ao vulgo. Hoje, não
tem segredos para ninguém: fala uma linguagem clara, sem ambigüidades; nada há
nele de místico, nada de alegorias suscetíveis de falsas interpretações. Ele
quer ser compreendido por todos porque chegaram os tempos de se fazer que os
homens conheçam a verdade. Longe de se opor à difusão da luz, ele a deseja para
todos; não reclama uma crença cega, mas quer que se saiba por que se crê, e
como se apóia na razão será sempre mais forte do que as doutrinas que se apoiam
sobre o nada. Os entraves que se tentassem oferecer à liberdade das
manifestações poderiam abafá-las? Não, porque produziriam o efeito de todas as
perseguições: o de excitar a curiosidade e o desejo de conhecer aquilo que foi
proibido. De outro lado, se as manifestações espíritas fossem o privilégio
pessoal de um só homem, ninguém duvidaria que, pondo esse homem de lado, as
manifestações acabariam. Desgraçadamente, para o adversário, elas estão ao
alcance de todos e são utilizadas por todos, desde o menor ao maior, desde o
palácio à choupana. Pode-se interditar o seu exercício público; mas sabe-se
precisamente que não é em público que elas se produzem melhor, e sim na
intimidade. Ora, cada um podendo ser médium, quem pode impedir uma família no
seu lar, um indivíduo no silêncio do seu gabinete, o prisioneiro na sua cela,
de terem comunicações com os Espíritos à revelia e até mesmo em face dos seus
verdugos? Se as proibissem num país, poderiam ser impedidas nos países vizinhos
ou no mundo inteiro? Pois não há uma região, nas duas partes da Terra, em que
não haja médiuns! Para encarcerar todos os médiuns seria necessário encarcerar
a metade do gênero humano; conseguindo-se, o que não seria mais fácil, queimar
todos os livros espíritas, no dia seguinte eles estariam reproduzidos porque a
mente é inatingível e porque não se poderia jamais encarcerar nem queimar os
Espíritos, seus verdadeiros autores.
O Espiritismo não é obra de um homem. Ninguém se pode dizer seu autor porque
ele é tão antigo quanto a Criação; encontra-se por toda parte, em todas as
religiões e mais ainda na religião católica, com mais autoridade do que em
todas as outras porque nela se encontram os princípios de todas as
manifestações: os Espíritos de todos os graus, suas relações ocultas ou
patentes com os homens, os anjos guardiães, a reencarnação, a emancipação da
alma durante a vida, a dupla vista, as visões, as manifestações de todo gênero,
as aparições tangíveis. No tocante aos demônios, não são mais do que os
Espíritos maus e salvo a crença de que são eternamente destinados ao mal,
enquanto a via do progresso não é interditada aos outros, entre eles não há
qualquer outra diferença além do nome.
O que faz a moderna Ciência espírita? Reúne em um todo o que estava disperso;
explica em termos próprios o que só se conhecia em linguagem alegórica; poda
tudo aquilo que a superstição e a ignorância haviam criado para deixar somente
o que é real e positivo: eis o seu papel. Mas não lhe cabe o papel de
fundadora. Ela revela o que existe, coordena mas não cria nada, porque as suas
bases estão em todos os tempos e em todos os lugares. Quem, pois, ousaria
considerar-se bastante forte para abafá-la sob os sarcasmos e mesmo sob a
perseguição? Se a proscreverem num lugar, ela renascerá em outros, nas mesmas
condições em que foi banida, porque está na própria Natureza e não é dado ao
homem aniquilar uma potência da Natureza nem opor o seu veto aos decretos de
Deus.
De resto, que interesse haveria em se entravar a propaganda das idéias
espíritas? Essas idéias, é verdade, se levantam com os abusos que nascem do
orgulho e do egoísmo. Mas esses abusos, de que alguns se aproveitam, prejudicam
as massas. O Espiritismo terá, portanto, as massas a seu favor e não terá por
adversários sérios senão os interessados na manutenção desses abusos. Por sua
influência, pelo contrário, essas idéias tornarão os homens melhores uns para
os outros, menos ávidos de interesses materiais e mais resignados ante os
decretos da Providência, fazendo-se portanto um penhor de ordem e
tranqüilidade.
VII
O Espiritismo se apresenta sob três aspectos diferentes: o das
manifestações, o dos princípios de filosofia e moral que delas decorrem e o da
aplicação desses princípios. Daí as três classes ou antes os três graus de
adeptos: 1.) os que crêem nas manifestações e se limitam a constatá-las: para
eles é uma ciência de experimentação; 2.) os que compreendem as suas
conseqüências morais; 3. ) os que praticam ou se esforçam por praticar essa
moral. Qualquer que seja o ponto de vista científico ou moral sob o qual se
encarem esses fenômenos estranhos, cada um deles compreende que é toda uma nova
ordem de idéias que surge e cujas conseqüências não podem deixar de ser uma
profunda modificação no estado da Humanidade, compreendendo também que essa
modificação não pode verificar-se a não ser no sentido do bem.
Quanto aos adversários, também podemos classificá-los em três categorias: 1.)
os que negam sistematicamente tudo o que é novo e não procede de suas próprias
mentes, e que dele falam sem conhecimento de causa; a esta classe pertencem
todos os que nada admitem fora do testemunho dos sentidos; nada viram, nada
querem ver e menos ainda aprofundar; ficariam mesmo aborrecidos se vissem as
coisas de maneira muito clara, de medo de serem forçados a convir que não têm
razão; para eles o Espiritismo é uma quimera, uma loucura, uma utopia; ele não
existe, e eis tudo. Estes são os incrédulos de posição fixada. Ao seu lado
podem ser colocados os que não lhe lançaram sequer um golpe de vista para
desencargo de consciência, a fim de poderem dizer: Quis ver e nada vi. Eles não
compreendem que possa ser necessário mais de meia hora para se darem conta de
toda uma Ciência. - 2.) Os que, sabendo muito bem o que devem pensar da
realidade dos fatos, não obstante os combatem por motivos de interesse pessoal.
Para eles, o Espiritismo existe mas temem as suas conseqüências e o atacam como
a um inimigo. - 3.) Os que encontram na moral espírita uma censura demasiado
severa para os seus atos ou as suas tendências. O Espiritismo levado a sério os
incomodaria. Esses não o rejeitam nem o aprovam, preferem fechar-lhe os olhos.
Os primeiros são levados pelo orgulho e pela presunção; os segundos, pela
ambição; os terceiros pelo egoísmo. Compreende-se que essas causas de oposição,
nada tendo de sólidas, devem desaparecer com o tempo, pois em vão procuraríamos
uma quarta classe de antagonistas, ou seja, aquela que se apoiasse em causas
contrárias evidentes, demonstrando um estudo consciencioso e laborioso do
problema. Todos não lhe opõem senão a negação, nenhum deles apresenta uma
demonstração séria e irrefutável em contrário.
Seria presumir demasiado da natureza humana acreditar que ela pudesse
transformar-se subitamente pelas idéias espíritas. A ação dessas idéias não é
certamente a mesma nem do mesmo grau, em todos os que as professam; mas
qualquer que seja o seu resultado, mesmo fraco, representa sempre uma melhora,
mesmo que seja apenas o de dar a prova da existência de um mundo extracorpóreo,
o que implica a negação das doutrinas materialistas. Isto é o que decorre da
simples observação dos fatos. Mas entre os que compreendem o Espiritismo
filosófico e nele vêem alguma coisa mais do que os fenômenos mais ou menos
curiosos, os efeitos são outros. O primeiro e o mais geral é o de desenvolver o
sentimento religioso até mesmo naquele que, sem ser materialista, seja
indiferente às coisas espirituais. Disto resulta para ele o desprezo pela
morte; não dizemos o desejo da morte, longe disso, porque o espírita defenderá
a sua vida como qualquer outro, mas uma indiferença que lhe faz aceitar sem
queixas nem pesar uma morte inevitável como uma coisa antes feliz do que
temível, em virtude da certeza do estado que lhe sobrevirá. O segundo efeito,
talvez tão geral como o primeiro, é a resignação em face das vicissitudes da
vida. O Espírito faz ver as coisas de tão alto que a vida terrena perde três
quartas partes de sua importância e o homem não mais se perturba tanto com as
suas tribulações. Daí mais coragem nas aflições, mais moderação nos desejos e
daí também o afastamento do desejo de abreviar a vida, porque a Ciência
espírita ensina que pelo suicídio se perde sempre o que se pretendia ganhar. A
certeza de um futuro que de nós mesmos depende tornar feliz, a possibilidade de
estabelecer relações com os seres que nos são caros proporcionam ao espírita
uma suprema consolação: seu horizonte se amplia até o infinito pela visão
contínua da vida de além-túmulo, da qual podem sondar as misteriosas
profundidades. O terceiro efeito é o de despertar a indulgência para com os
defeitos alheios; mas, é necessário dizê-lo, o princípio do egoísmo e tudo o
que dele decorre são o que há de mais tenaz no homem e por conseguinte mais
difícil de se desenraizar. Podemos fazer sacrifícios voluntários, contanto que
nada custem e sobretudo que não nos privem de nada; o dinheiro exerce ainda
sobre a maioria dos homens uma atração irresistível e bem poucos compreendem a
palavra supérfluo quando se trata de suas próprias pessoas. Assim, a
abnegação de si mesmo é o sinal do mais eminente progresso.
VIII
Os Espíritos, perguntam algumas pessoas, nos ensinam uma nova
moral, qualquer coisa de superior ao que o Cristo ensinou? Se essa moral não é
outra senão a do Evangelho, que vem fazer o Espiritismo? Esse raciocínio se
parece singularmente àquele do califa Omar falando da Biblioteca de Alexandria:
"Se ela não contém - dizia ele - mais do que aquilo que existe no Alcorão, é
inútil e portanto deve ser queimada; se encerra outra coisa é má e tanto mais
deve ser queimada". Não, o Espiritismo não encerra uma moral diferente daquela
de Jesus, mas perguntaremos, por nossa vez, se antes de Cristo os homens não
dispunham da lei de Deus revelada a Moisés. Sua doutrina não se encontra no
Decálogo? E por isso se dirá que a moral de Jesus foi inútil? Perguntaremos
ainda, aos que negam a utilidade da moral espírita, porque a do Cristo é tão
pouco praticada e porque até mesmo aqueles que proclamam a sua sublimidade são
os primeiros a violar a primeira de suas leis: a caridade universal. Os
Espíritos vêm, não somente confirmá-las, mas também mostrar-nos a sua utilidade
prática; eles tornam inteligíveis e patentes as verdades que só haviam sido
ensinadas sob a forma alegórica, e ao lado da moral vêm definir-nos os mais
abstratos problemas da Psicologia.
Jesus veio mostrar aos homens a rota do verdadeiro bem. Por que Deus, que o
enviara para relembrar a sua lei esquecida, não enviaria hoje os Espíritos para
novamente a lembrar de maneira mais precisa, agora que os homens a esquecem
para tudo sacrificarem ao orgulho e à cupidez? Quem ousaria opor limites ao
poder de Deus e determinar os seus caminhos? Quem dirá que os tempos preditos
não são chegados, como afirmam os Espíritos, e que não alcançamos aqueles em
que as verdades mal compreendidas ou falsamente interpretadas devem ser
ostensivamente reveladas ao gênero humano para acelerar o seu adiantamento? Não
há qualquer coisa de providencial nessas manifestações que se produzem
simultaneamente por todas as partes do globo? Não é apenas um homem, um profeta
que nos vem advertir, pois é por toda parte que a luz se derrama: é todo um
mundo novo que se desenrola aos nossos olhos. Com a invenção do microscópio nos
descobriu o mundo dos infinitamente pequenos que nem sequer suspeitávamos, como
o telescópio nos descobriu milhares de mundos de que também não suspeitávamos,
as comunicações espíritas nos revelam o mundo invisível que nos rodeia, cujos
habitantes nos acotovelam a todo momento, participando à nossa revelia de tudo
o que fazemos. Algum tempo ainda e a existência desse mundo, que é justamente o
que nos espera, será tão incontestável como a do mundo microscópico e o dos
grandes globos perdidos no espaço. E nada valerá, então, nos terem feito
conhecer todo um mundo, nos haverem iniciado nos mistérios da vida de
além-túmulo? É verdade que essas descobertas, se assim as podemos chamar,
contrariam de algum modo certas idéias estabelecidas. Mas não é certo que todas
as grandes descobertas científicas igualmente modificaram e até mesmo
derrubaram as idéias até então mais acreditadas? E não foi necessário que o
nosso amor-próprio se curvasse diante da evidência? O mesmo acontecerá com o
Espiritismo e dentro em pouco ele terá direitos de cidadania entre os
conhecimentos humanos.
As comunicações com os seres de além-túmulo tiveram por resultado nos fazer
compreender a vida futura, nos fazer vê-la, nos iniciar nos princípios das
penas e dos gozos que nos esperam, segundo os nossos méritos, e, por isso
mesmo, conduzir ao Espiritualismo aqueles que não admitiam em nós mais
do que uma máquina orgânica. Assim, tivemos razão de dizer que o Espiritismo
matou o Materialismo através dos fatos. Não tivesse ele produzido mais do que
isso e a ordem social lhe teria de ser reconhecida. Mas ele fez mais: mostra os
inevitáveis efeitos do mal e por conseguinte a necessidade do bem. O número dos
que ele conduziu a sentimentos melhores, neutralizando as suas tendências más e
desviando-os do mal, é maior do que se pensa e aumenta todos os dias. É que
para eles o futuro já não se compreende, que se pode explicar, quando se vêem e
quando se ouvem os que nos deixaram lamentar-se ou felicitar-se pelo que
fizeram na Terra. Quem quer que testemunhe isso é levado a meditar e sente a
necessidade de se conhecer, de julgar a si mesmo e de se emendar.
IX
Os adversários do Espiritismo não se esqueceram de utilizar
contra ele algumas divergências de opinião sobre certos pontos da doutrina. Não
é de admirar que no começo de uma Ciência, quando as observações estão ainda
incompletas e cada um as encara sob o seu ponto de vista, sistemas
contraditórios tenham podido aparecer. Mas três quartas partes desses sistemas
já estão hoje aniquiladas diante dos estudos mais aprofundados, a começar por
aquele que atribuía todas as comunicações ao Espírito do Mal, como se a Deus
fosse impossível enviar aos homens os bons Espíritos. Doutrina absurda porque
desmentida pelos fatos, ímpia porque é a negação do poder e da bondade do
Criador. Os Espíritos sempre nos aconselharam a não nos inquietarmos com essas
divergências, pois que a unidade se faria: ora, a unidade já se fez sobre a
maioria das questões e as divergências tendem a desaparecer cada dia. A esta
pergunta: "Esperando que a unidade se faça, sobre o que se pode basear o homem
imparcial e desinteressado para formular um juízo?" eis a resposta que nos
deram:
"A luz mais pura não é obscurecida por nenhuma nuvem; o diamante sem jaça é o
de maior valor; julgai, pois, os Espíritos pela pureza dos seus ensinamentos.
Não vos esqueçais de que entre os Espíritos há os que ainda não se despojaram
das idéias da vida terrena; sabei distingui-los pela linguagem; julgai-os pelo
conjunto dos que vos dizem; vede se há encadeamento lógico nas idéias, se nada
do que dizem denuncia ignorância, orgulho ou malevolência, em uma palavra, se
as suas expressões estão sempre marcadas pelo cunho da sabedoria que revela a
verdadeira superioridade. Se o vosso mundo fosse inacessível ao erro, seria
perfeito, mas está longe disso, pois estais ainda aprendendo a distinguir o
erro da verdade; necessitais das lições da experiência para exercitar o vosso
julgamento e vos poder adiantar. A unidade se fará do lado em que o bem jamais
esteve misturado com o mal; é desse lado que os homens se ligarão pela força
das circunstâncias porque reconhecerão que ali se encontra a verdade".
"Que importam, aliás, algumas dissidências que são mais de forma que de fundo?
Notai que os princípios fundamentais são os mesmos por toda parte e vos devem
unir num pensamento comum: o do amor de Deus e da prática do bem. Quaisquer que
sejam, portanto, o modo de progredir que se admita, ou as condições normais da
existência futura, o alvo final; sempre o mesmo: fazer o bem; e, como sabeis,
não há duas maneiras de o fazer".
Se entre os adeptos do Espiritismo há os que divergem de opinião sobre alguns
pontos da teoria, todos, entretanto, estão de acordo sobre os pontos
fundamentais. Há, pois, unidade, a não ser da parte dos que, em número muito
pequeno, ainda não admitem a intervenção dos Espíritos nas manifestações,
atribuindo-as a causas puramente físicas, o que contraria o axioma de que todo
efeito inteligente tem uma causa inteligente, ou ao reflexo do nosso próprio
pensamento, o que é desmentido pelos fatos[72].
Os demais pontos são secundários e em nada ferem as bases fundamentais. Pode
aliás haver escolas que procurem esclarecer-se sobre as partes ainda
controvertidas da Ciência; mas não deve haver seitas rivais e só deveria haver
antagonismos entre os que almejam o bem e os que fizessem ou quisessem o mal.
Ora, não há um espírita sincero, compenetrado das grandes máximas morais
ensinadas pelos Espíritos que possa querer o mal ou desejar o mal do próximo,
sem distinção de opinião. Se uma dessas escolas for errada, cedo ou tarde será
esclarecida, desde que haja boa-fé e ausência de prevenções; enquanto esperam,
todas têm um laço comum que deve uni-las num mesmo pensamento; todas têm um
mesmo objetivo; pouco importa, pois, a rota seguida, contanto que ela conduza
ao alvo. Ninguém deve impor-se pelo constrangimento material ou moral e só
estaria em caminho falso aquele que lançasse o seu anátema a outro, porque
evidentemente estaria agindo sob a ação de maus Espíritos. A razão deve ser
sempre o argumento supremo e a moderação assegurará melhor o triunfo da verdade
do que as diatribes envenenadas pela inveja e pelo ciúme. Os bons Espíritos não
pregam senão a união e o amor do próximo e jamais um pensamento malfazejo ou
contrário à caridade pode surgir de uma fonte pura. Ouçamos, sobre este
assunto, para terminar, os conselhos do Espírito de Santo Agostinho:
"Durante muito tempo os homens se estraçalharam e se anatematizaram em nome de
um Deus de paz e de misericórdia, ofendendo-o com um tal sacrilégio. O
Espiritismo é o laço que os unirá um dia porque lhes mostrará onde está a
verdade e onde está o erro. Mas ainda por muito tempo haverá escribas e
fariseus que o negarão, como negaram o Cristo. Quereis, pois, saber sob
influência de que Espíritos estão as diversas seitas que se repartem o mundo?
Julgai-as pelas suas obras e pelos seus princípios. Jamais os bons Espíritos
foram instigadores do mal; jamais aconselharam ou legitimaram o assassínio e a
violência; jamais excitaram o ódio dos partidos nem a sede de riquezas e
honrarias, nem a avidez dos bens terrenos. Somente os bons, humanos e
benevolentes para com todos são os seus preferidos, como são também os
preferidos de Jesus porque seguem a rota indicada para levar a Ele." SANTO
AGOSTINHO
Impressão:
BARTIRA GRÁFICA E EDITORA S/A
(011) 458-0255
|