| O LIVRO DOS ESPíRITOS - LIVRO 4, CAP. 2 |
1.012. De acordo com isso o Inferno e o Paraíso não existiriam como os homens
os representam?
-- Não são mais do que figuras; os Espíritos felizes e infelizes estão por
toda parte. Entretanto, como já o dissemos também, os Espíritos da mesma ordem
se reúnem por simpatia. Mas podem reunir-se onde quiserem, quando
perfeitos.
A localização absoluta dos lugares de penas e de recompensas só existe na imaginação dos homens. Provém da sua tendência de materializar e circunscrever as coisas cuja natureza infinita não podem compreender.1.013. O que se deve entender por Purgatório?
Aquilo que o homem chama Purgatório é também uma figura pela qual se deve entender, não algum lugar determinado, mas o estado dos Espíritos imperfeitos que estão em expiação até à purificação completa que deve elevá-los ao plano dos Espíritos felizes. Operando-se a purificação nas encarnações, o purgatório consiste nas provas da vida corpórea.1.014. Como se explica que Espíritos que revelam superioridade por sua linguagem tenham respondido, a pessoas bastante sérias, a respeito do Inferno e do Purgatório, de acordo com as idéias vulgarmente admitidas?
1.014-a. Concebe-se isso de parte dos Espíritos que desejam instruir-nos. Mas
como se explica que Espíritos interrogados sobre a sua situação tenham
respondido que sofriam as torturas do Inferno ou do Purgatório?
-- Quando eles são inferiores e não estão completamente desmaterializados
conservam uma parte de suas idéias terrenas e traduzem as suas impressões pelos
termos que lhes são familiares. Encontram-se num meio que não lhes permite
sondar o futuro senão de maneira deficiente. Essa é a causa por que em geral os
Espíritos errantes, ou recentemente libertados, falam como teriam feito se
estivessem na vida carnal. Inferno pode traduzir-se por uma vida de
provas extremamente penosas, com a incerteza de melhora; Purgatório por
uma vida também de provas, mas com a consciência de um futuro melhor. Quando
sofres uma grande dor não dizes que sofres como um danado? Não são mais
que palavras, sempre em sentido figurado.
1.015. O que se deve entender por alma penada?
-- Uma alma errante e sofredora, incerta do seu futuro, à qual podeis
proporcionar um alívio que freqüentemente ela solicita ao vir comunicar-se
convosco. (Ver item 664).
1.016. Em que sentido se deve entender a palavra Céu?
-- Crês que seja um lugar como os Campos Elísios dos antigos, onde todos os
bons Espíritos estão aglomerados e confundidos, sem outra preocupação que a de
gozar na eternidade uma felicidade passiva? Não. É o espaço universal; são os
planetas, as estrelas e todos os mundos superiores em que os Espíritos gozam de
todas as suas faculdades, sem as tribulações da vida material nem as angústias
inerentes à inferioridade.
1.017. Disseram alguns Espíritos habitar o quarto, o quinto céu, e etc.; o que
entendiam por isso?
-- Vós lhes perguntais que céu habitam, porque tendes a idéia de muitos
céus sobrepostos como os andares de uma casa: então eles respondem de acordo
com a vossa linguagem. Mas para eles as palavras "quarto, quinto céu" exprimem
diferentes graus de purificação e por conseguinte de felicidade. É exatamente
como quando se pergunta a um Espírito se ele está no Inferno. Se for infeliz
dirá que sim porque para ele Inferno é sinônimo de sofrimento; mas ele
sabe muito bem que não se trata de uma fornalha. Um pagão vos responderia que
estava no Tártaro.
Acontece o mesmo com outras expressões análogas, tais como as de cidade das flores, cidade dos eleitos, segunda ou terceira esfera, etc., que não são mais do que alegorias empregadas por certos Espíritos, seja como figuras, seja por ignorância da realidade das coisas e mesmo das mais simples noções científicas.1.018. Em que sentido se devem entender as palavras do Cristo: "Meu reino não é deste mundo?"Segundo a idéia restrita que outrora se fazia dos lugares de penas e de recompensas, e sobretudo de acordo com a opinião de que a Terra era o centro do Universo, que o Céu formava uma abóbada na qual havia uma região de estrelas, colocava-se o Céu no alto e o Inferno embaixo. Daí as expressões: subir ao Céu, estar no mais alto dos céus, ser precipitado no inferno. Hoje, que a Ciência demonstrou que a Terra não é mais que um dos menores mundos entre tantos milhões de outros, e sem importância especial; que traçou a história da sua formação e descreveu a sua constituição, provando que o espaço é infinito, de maneira que não há nem alto nem baixo no Universo, faz-se necessário renunciar a colocar o Céu acima das nuvens e o Inferno nos lugares baixos. Quanto ao Purgatório, nenhum lugar lhe havia sido marcado. Estava reservado ao Espiritismo dar sobre todas essas coisas a mais racional explicação, a mais grandiosa e ao mesmo tempo a mais consoladora para a Humanidade. Assim, podemos dizer que trazemos em nós mesmos o nosso inferno e o nosso paraíso e que encontramos o nosso purgatório em nossa encarnação, em nossas vidas corpóreas ou físicas.
1.019. O reino do bem poderá um dia realizar-se na Terra?
-- O bem reinará na Terra quando entre os Espíritos que a vêm habitar os
bons superarem os maus. Então eles farão reinar o amor e a justiça, que são a
fonte do bem e da felicidade. É pelo progresso moral e pela prática das leis de
Deus que o homem atrairá para a Terra os bons Espíritos e afastará os maus. Mas
os maus só a deixarão quando o homem tenha banido daqui o orgulho e o
egoísmo.
A transformação da Humanidade foi predita e chegais a esse momento em que todos os homens progressistas estão se apressando. Ela se realizará pela encarnação de Espíritos melhores que constituirão sobre a Terra uma nova geração. Então os Espíritos dos maus, que a morte ceifa diariamente, e todos os que tentem deter a marcha das coisas serão excluídos, porque estariam deslocados entre os homens de bem, cuja felicidade perturbariam. Irão para mundos novos, menos adiantados, cumprir missões penosas, nas quais poderão trabalhar pelo seu próprio adiantamento ao mesmo tempo que trabalharão para o adiantamento de seus irmãos ainda mais atrasados. Não vêdes na sua exclusão da Terra transformada a sublime figura do Paraíso Perdido? E no homem que veio à Terra em condições semelhantes, trazendo em si os germens de suas paixões e os traços de sua inferioridade primitiva, a figura não menos sublime do pecado original? Considerado dessa maneira, o pecado original se refere à natureza ainda imperfeita do homem que só é responsável por si mesmo e por suas próprias faltas, e não pelas de seus pais.
Vós todos, homens de fé e de boa vontade, trabalhai portanto com zelo e coragem na grande obra da regeneração, porque colhereis centuplicado o grão que tiverdes semeado. Infelizes dos que fecham os olhos à luz, pois preparam para si mesmos longos séculos de trevas e de decepções. Infelizes dos que colocam todas as suas alegrias nos bens deste mundo, pois sofrerão mais privações do que os gozos que desfrutaram. Infelizes sobretudo os egoístas, porque não encontrarão ninguém para os ajudar a carregar o fardo das suas misérias. SÃO LUÍS
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