| O LIVRO DOS ESPíRITOS - LIVRO 3, CAP. 10 |
869. Com que fim o futuro é oculto ao homem?
-- Se o homem conhecesse o futuro, negligenciaria o presente e não agiria
com a mesma liberdade de agora, pois seria dominado pelo pensamento de que se
uma coisa deve acontecer não adianta ocupar-se dela, ou então procuraria
impedi-la. Deus não quis que assim fosse, a fim de que cada um pudesse
concorrer para a realização das coisas, mesmo daquelas a que desejaria
opor-se. Assim é que tu mesmo, sem o saber, quase sempre preparas os
acontecimentos que sobrevirão no curso da tua vida.
870. Mas se é útil que o futuro permaneça oculto, por que Deus permite, às
vezes, a sua revelação?
-- É quando esse conhecimento antecipado deve facilitar o cumprimento das
coisas, em vez de embaraçá-lo, levando o homem a agir de maneira diferente do
que o faria se não o tivesse. Além disso, muitas vezes é uma prova. A
perspectiva de um acontecimento pode despertar pensamentos que sejam mais ou
menos bons: se um homem souber, por exemplo, que obterá uma fortuna com a qual
não contava, poderá ser tomado pelo sentimento de cupidez, pela alegria de
aumentar os seus gozos terrenos, pelo desejo de a obter mais cedo, desejando a
morte daqueles que lha deve deixar, ou então essa perspectiva despertará nele
bons sentimentos e pensamentos generosos. Se a previsão não se realizar, será
outra prova: a da maneira por que suportará a decepção. Mas não deixará por
isso de ter o mérito ou o demérito dos pensamentos bons ou maus que a crença na
previsão lhe provocou.
871. Desde que Deus tudo sabe, também sabe se um homem deve ou não sucumbir
numa prova. Nesse caso, qual a necessidade da prova, que nada pode revelar a
Deus sobre aquele homem?
-- Tanto valeria perguntar por que Deus não fez o homem perfeito e
realizado (item 119), por que o homem passa pela infância, antes de chegar à
idade madura (item 379). A prova não tem por fim esclarecer a Deus sobre o
mérito do homem, porque Deus sabe perfeitamente o que ele vale, mas deixar ao
homem toda a responsabilidade da sua ação, uma vez que ele tem a liberdade de
fazer ou não fazer. Podendo o homem escolher entre o bem e o mal, a prova tem
por fim colocá-lo ante a tentação do mal, deixando-lhe todo o mérito da
resistência. Ora, não obstante Deus saiba muito bem, com antecedência, se ele
vencerá ou fracassará, não pode puni-lo nem recompensá-lo, na sua justiça, por
um ato que ele não tenha praticado. (Ver item 258).
É assim entre os homens. Por mais capaz que seja um aspirante, por mais certeza que se tenha do seu triunfo, não se lhe concede nenhum grau sem o exame, o que quer dizer sem prova. Da mesma maneira, um juiz não condena um acusado senão pela prova de um ato consumado e não pela previsão de que ele pode ou deve praticar esse ato.Quanto mais se reflete sobre as conseqüências que teria para o homem o conhecimento do futuro, mais se vê como a Providência foi sábia ao ocultá-lo. A certeza de um acontecimento feliz o atiraria na inação; a de um acontecimento desgraçado, no desânimo; e num caso como no outro suas forças seriam paralisadas. Eis por que o futuro não é mostrado ao homem senão como um alvo que ele deve atingir pelos seus esforços, mas sem conhecer as vicissitudes por que deve passar para atingi-lo. O conhecimento de todos os incidentes da rota lhe tiraria a iniciativa e o uso do livre arbítrio; ele se deixaria arrastar pelo declive fatal dos acontecimentos sem exercitar as suas faculdades. Quando o sucesso de uma coisa está assegurado, ninguém mais se preocupa com ela.
| O LIVRO DOS ESPíRITOS - LIVRO 3, CAP. 10 - CONHECIMENTO DO FUTURO |