| O LIVRO DOS ESPíRITOS - LIVRO 3, CAP. 10 |
852. Há pessoas que parecem perseguidas por uma fatalidade, independentemente
de sua maneira de agir; a desgraça está no seu destino?
-- São, talvez, provas que devem sofrer e que elas mesmas escolheram. Ainda
uma vez levais à conta do destino o que é, quase sempre, a conseqüência de
vossa própria falta. Em meio dos males que te afligem, cuida que a tua
consciência esteja pura e te sentirás mais ou menos consolado.
As idéias justas ou falsas que fazemos das coisas nos levam a vencer ou fracassar, segundo o nosso caráter e a nossa posição social. Achamos mais simples e menos humilhante para o nosso amor-próprio atribuir os nossos fracassos à sorte ou ao destino, do que a nós mesmos. Se a influência dos Espíritos contribui algumas vezes para isso, podemos sempre nos subtrair a ela, repelindo as idéias más que nos forem sugeridas.853. Certas pessoas escapam a um perigo mortal para cair em outro; parece que não podem escapar à morte. Não há nisso fatalidade?
853-a. Assim, qualquer que seja o perigo que nos ameace, não morreremos se a
nossa hora não chegou?
-- Não, não morrerás, e tens disso milhares de exemplos. Mas quando chegar
a tua hora de partir, nada te livrará. Deus sabe com antecedência qual o gênero
de morte por que partirás daqui, e freqüentemente teu Espírito também o sabe,
pois isso lhe foi revelado quando fez a escolha desta ou daquela
existência.
854. Da infalibilidade da hora da morte segue-se que as precauções que se tomam
para evitá-la são inúteis?
-- Não, porque as precauções que tomais vos são sugeridas com o fim de
evitar a morte que vos ameaça; são um dos meios para que ela não se
verifique.
855. Qual o fito da Providência, ao fazer-nos correr perigos que não devem ter
conseqüências?
-- Quando tua vida se encontra em perigo é essa uma advertência que tu
mesmo desejaste, a fim de te desviar do mal e te tornar melhor. Quando escapas
a esse perigo, ainda sob a influência do risco por que passaste, pensas com
maior ou menor intensidade, sob a ação mais ou menos forte dos bons Espíritos,
em te tornares melhor. O mau Espírito retornando (digo mau, subentendendo o mal
que ainda nele existe), pensas que escaparás da mesma maneira a outros perigos
e deixas que as tuas paixões se desencadeiem de novo. Pelos perigos que
correis, Deus vos recorda a vossa fraqueza e a fragilidade de vossa existência.
Se examinarmos a causa e a natureza do perigo, veremos que, na maioria das
vezes, as conseqüências foram a punição de uma falta cometida ou de um dever
negligenciado. Deus vos adverte para refletirdes sobre vós mesmos e vos
emendardes. (Ver os itens 526 a 532)[62].
856. O Espírito sabe, por antecipação, qual o gênero de morte que deve
sofrer?
-- Sabe que o gênero de vida por ele escolhido o expõe a morrer mais de uma
maneira que de outra. Mas sabe também quais as lutas que terá de sustentar para
o evitar, e que, se Deus o permitir, não sucumbirá.
857. Há homens que enfrentam os perigos dos combates com uma certa convicção de
que a sua hora não chegou; há algum fundamento nessa confiança?
-- Com muita freqüência o homem tem o pressentimento do seu fim, como o
pode ter o de que ainda não morrerá. Esse pressentimento lhe é dado pelos seus
Espíritos protetores, que desejam adverti-lo para que esteja pronto a partir ou
reerguem a sua coragem nos momentos em que se faz mais necessário. Também lhe
pode vir da intuição da existência por ele escolhida, ou da missão que aceitou
e sabe que deve cumprir. (Ver itens 411 a 522).
858. Os que pressentem a morte geralmente a temem menos do que os outros? Por
quê?
-- É o homem que teme a morte, não o Espírito. Aquele que a pressente pensa
mais como Espírito do que como homem: compreende a sua libertação e a
espera.
859. Se a morte não pode ser evitada quando chega a sua hora, acontece o mesmo
com todos os acidentes no curso da nossa vida?
-- São, em geral, coisas demasiado pequenas, das quais podemos prevenir-vos
dirigindo o vosso pensamento no sentido de as evitardes, porque não gostamos do
sofrimento material. Mas isso é de pouca importância para o curso da vida que
escolhestes. A fatalidade só consiste nestas duas horas: aquelas em que deveis
aparecer e desaparecer neste mundo.
859-a. Há fatos que devem ocorrer forçosamente e que a vontade dos Espíritos
não pode conjurar?
-- Sim, mas que tu, quando no estado de Espírito, viste e pressentiste, ao
fazer a tua escolha. Não acredites, porém, que tudo o que acontece esteja
escrito, como se diz. Um acontecimento é quase sempre a conseqüência de uma
coisa que fizeste por um ato de tua livre vontade, de tal maneira que, se não
tivesses praticado aquele ato, o acontecimento não se verificaria. Se queimas o
dedo, isso é apenas a conseqüência de tua imprudência e da condição da matéria.
Somente as grandes dores, os acontecimentos importantes e capazes de influir na
tua evolução moral são previstos por Deus, porque são úteis à tua purificação e
à tua instrução.
860. Pode o homem, por sua vontade e pelos seus atos, evitar acontecimentos que
deviam realizar-se e vice-versa?
-- Pode, desde que esse desvio aparente possa caber na ordem geral da vida
que ele escolheu. Além disso, para fazer o bem, como é do seu dever e único
objetivo da vida, ele pode impedir o mal, sobretudo aquele que possa contribuir
para um mal ainda maior.
861. O homem que comete um assassinato sabe, ao escolher a sua existência, que
se tornará assassino?
-- Não. Sabe apenas que, ao escolher uma vida de lutas terá a probabilidade
de matar um de seus semelhantes, mas ignora se o fará ou não, porque depende
quase sempre dele tomar a deliberação de cometer o crime. Ora, aquele que
delibera sobre uma coisa é sempre livre de a fazer ou não. Se o Espírito
soubesse com antecedência que, como homem, devia cometer um assassínio, estaria
predestinado a isso. Sabei, então, que não há ninguém predestinado ao crime e
que todo crime, como todo e qualquer ato, é sempre o resultado da vontade e do
livre arbítrio. De resto, sempre confundis duas coisas bastante distintas: os
acontecimentos materiais da existência e os atos da vida moral. Se há
fatalidade, às vezes, é apenas no tocante aos acontecimentos materiais, cuja
causa está fora de vós e que são independentes da vossa vontade. Quanto aos
atos da vida moral, emanam sempre do próprio homem, que tem sempre, por
conseguinte, a liberdade de escolha: para os seus atos não existe jamais
a fatalidade.
862. Há pessoas que nunca conseguem êxito na vida e que um mau gênio parece
perseguir em todos os seus empreendimentos. Não é isso o que podemos chamar
fatalidade ?
-- Pode ser fatalidade, se assim o quiserdes, mas decorrente da escolha do
gênero de existência, porque essas pessoas quiseram ser experimentadas por uma
vida de decepções, a fim de exercitarem a sua paciência e a sua resignação. Não
creias, entretanto, que seja isso o que fatalmente acontece; muitas vezes é
apenas o resultado de haverem elas tomado um caminho errado, que não está de
acordo com a sua inteligência e as suas aptidões. Aquele que quer atravessar um
rio a nado, sem saber nadar, tem grande probabilidade de morrer afogado. Assim
acontece na maioria das ocorrências da vida. Se o homem não empreendesse mais
do que aquilo que está de acordo com as suas faculdades, triunfaria quase
sempre; o que o perde é o seu amor-próprio e a sua ambição, que o desviam do
caminho para tomar por vocação o simples desejo de satisfazer certas paixões.
Então fracassa e a culpa é sua, mas em vez de reconhecer o erro prefere acusar
a sua estrela. Há o que teria sido um bom operário, ganhando honradamente a
vida, mas se fez mau poeta e morre de fome. Haveria lugar para todos, se cada
um soubesse ocupar o seu lugar.
863. Os costumes sociais não obrigam muitas vezes o homem a seguir um caminho
errado? E não está ele submetido à influência das opiniões na escolha de suas
ocupações? Isso a que chamamos respeito humano não é um obstáculo ao exercício
do livre arbítrio?
-- São os homens que fazem os costumes sociais e não Deus; se a eles se
submetem, é que lhes convém. Isso também é um ato de livre arbítrio, pois se
quisessem poderiam rejeitá-los. Então, por que se lamentam? Não são os costumes
sociais que eles devem acusar, mas o seu tolo amor-próprio, que os leva a
preferir morrer de fome a infringi-los. Ninguém lhes toma conta desse
sacrifício à opinião geral, enquanto Deus lhes pedirá conta do sacrifício feito
à própria vaidade. Isso não quer dizer que se deva afrontar a opinião sem
necessidade, como certas pessoas que têm mais de originalidade do que de
verdadeira filosofia. Tanto é desarrazoado exibir-se como um animal curioso,
quanto é sensato descer voluntariamente e sem reclamações, se não se pode
permanecer no alto da escala.
864. Se há pessoas para as quais a sorte é contrária, outras parecem
favorecidas por ela, pois tudo lhes sai bem; a que se deve isso?
-- Em geral, porque sabem orientar-se melhor. Mas isso pode ser, também, um
gênero de prova: o sucesso as embriaga, elas se fiam no seu destino e
freqüentemente vão pagar mais tarde esse sucesso com revezes cruéis, que
poderiam ter evitado com um pouco de prudência.
865. Como explicar a sorte que favorece certas pessoas em circunstâncias que
não dependem da vontade nem da inteligência, como no jogo, por exemplo?
-- Certos Espíritos escolheram antecipadamente determinadas espécies de
prazer, e a sorte que os favorece é uma tentação. Aquele que ganha como homem,
perde como Espírito: é uma prova para o seu orgulho e a sua cupidez.
866. Então, a fatalidade que parece presidir aos destinos do homem na vida
material seria também resultado do nosso livre arbítrio?
-- Tu mesmo escolheste a tua prova: quanto mais rude ela for, se melhor a
suportas, mais te elevas. Os que passam a vida na abundância e no bem-estar são
Espíritos covardes, que permanecem estacionários. Assim, o número de
infortunados ultrapassa de muito o dos felizes do mundo, visto que os Espíritos
procuram, na sua maioria, as provas que lhes sejam mais frutuosas. Eles vêem
muito bem a futilidade das vossas grandezas e dos vossos prazeres. Aliás, a
vida mais feliz é sempre agitada, sempre perturbada: não é somente a dor que
produz contrariedades. (Ver itens 525 e seguintes).
867. De onde procede a expressão: Nascido sob uma boa estrela?
-- Velha superstição, segundo a qual as estrelas estariam ligadas ao
destino de cada homem; alegoria que certas pessoas fazem a tolice de tomar ao
pé da letra.
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