por Roberto Billo.
I
Eu estava sentado em círculo com todo o grupo de alunos do curso de mediunidade, já nas últimas aulas.
Era uma noite importante: um exercício de relaxamento e abertura mental para poder receber qualquer tipo de mensagem. Quase um momento de meditação. Luz bem baixa, um silêncio tranquilo; todos sentados em círculo, e apenas a voz da instrutora nos guiava, passo a passo, até o melhor estado possível para ativar a nossa sensibilidade.
Preciso interromper um pouco esse clima para explicar o meu caminho espiritual/espírita.
Antes de conhecer a Monica, eu era um homem tranquilo. Eu acreditava em Deus, mas não num Deus “codificado” por religiões, e admitia que pudessem existir acontecimentos impossíveis de explicar cientificamente — até prova em contrário.
Porém, no fundo, eu pensava que as pessoas eram como computadores: enquanto há “energia”, elas funcionam; quando não há mais, não há mais nada. Essa ideia costuma assustar muita gente, mas, para mim, era algo tão natural que eu não me preocupava; eu vivia bem.
Ainda assim, quero enfatizar uma coisa: o meu comportamento vinha da educação dos meus pais, que eu resumiria como respeito pelos outros. Eu poderia dizer: uma base cristã.
A Monica, por outro lado, começou a formalizar e me explicar, em termos mais “concretos”, acontecimentos que naquela época eu chamaria — e hoje eu diria de forma imprópria — de sobrenaturais. Era algo muito distante das minhas crenças, mas nós convivemos com respeito mútuo.
Depois veio o Ettore. Mas, por ter nascido prematuro, ele viveu apenas alguns dias. E aí aconteceu o ponto de virada.
Quando voltamos para casa, a Monica foi direta para o quarto. Eu fiquei um instante entre a cozinha e a sala, e então vi — atrás do armário que fazia uma espécie de divisória — duas pernas de alguém, como se essa pessoa estivesse sentada no sofá. Eu levei um susto enorme: naquele apartamento morávamos apenas eu e ela. Mas eu percebi uma “voz” (não audível pelos ouvidos, e sim muito clara dentro de mim) me tranquilizando, dizendo para eu não ter medo.
Eu fiquei paralisado: medo e curiosidade misturados.
Essa presença me disse que não iria se mostrar por completo para não me assustar demais; seria uma emoção forte demais — e, de fato, eu já estava muito tenso.
Como parecia ser um adulto, eu perguntei quem era. E então percebi algo ainda mais estranho: eu não estava usando a minha voz para me comunicar.
Eu sentia a mente como se estivesse em pausa, sem pensamentos, sem “ruído” interno.
E veio a maior surpresa: declarou ser o Ettore, nosso bebê. Um choque enorme, porque um recém-nascido de seis dias não poderia ter as pernas de um adulto alto. Ele perguntou se eu me sentia capaz de avançar e vê-lo por completo. Eu realmente não conseguia. Fiquei imóvel: medo, ansiedade, incredulidade, curiosidade… O que mais me desorientava era a sensação do tempo: parecia parado.
Ele disse que entendia, principalmente porque aquilo contrariava as minhas convicções. Sim, eu considerava a possibilidade de Deus, das almas e de fenômenos não definíveis cientificamente; mas o que eu estava vivendo ali era extremo.
Ele me tranquilizou de novo: disse que vinha em paz, e para explicar o que tinha acontecido conosco, ainda que isso levasse algum tempo. Tentou aliviar a nossa tristeza profunda, dizendo que eu não precisava ficar triste, porque ele estava ali — embora de um jeito diferente.
Depois, percebendo que eu estava no limite emocional e psicológico, ele se despediu, prometendo que voltaria a nos encontrar.
Aos poucos, as pernas que eu via foram desaparecendo. O barulho da rua voltou a preencher o ambiente, o tempo voltou a “correr”, e a ansiedade diminuiu.

