por Cesar Boschetti.
Numa noite de céu limpo, se olharmos para o firmamento a partir de algum lugar com pouca iluminação, longe do centro urbano, veremos uma faixa com milhares e milhares de estrelas cintilantes. É nossa Via Láctea, vista a partir de um ponto intermediário entre a borda e o centro da galáxia. É como observar uma grande cidade iluminada a partir de um bairro periférico. Vemos uma faixa de luzes concentradas na região central da cidade, mas que se espalha para todos os lados.
A Via Láctea [1] é como uma colossal cidade de estrelas em forma de espiral. São quatro grandes braços convergindo para o centro. Nosso sistema solar encontra-se em uma estrutura secundária, chamada esporão de Orion, entre dois braços principais. A distância de um lado a outro dessa imensa cidade cósmica é da ordem de 100.000 anos-luz. Para comparar, a luz do nosso Sol leva cerca de 8 minutos para chegar até nós a 150 milhões de quilômetros de distância. Estima-se que haja entre 100 e 400 bilhões de estrelas nesta galáxia. E mesmo assim, tudo isso não passa de um grão de poeira diante da grandiosidade da criação.
Nossa galáxia tem perto de 13,6 bilhões de anos, quase tão antiga quanto o universo que possui cerca de 13,8 bilhões de anos. Há cerca de 4,5 bilhões de anos, uma grande nuvem de poeira cósmica colapsou dando origem ao nosso sistema solar.
Olhar para o céu noturno estrelado é olhar para a história do universo. É uma formidável viagem no tempo. É uma experiência que nos leva a compreender quão insignificante é esse grão de areia chamado Terra, que nos serve de habitação. Ao mesmo tempo, podemos compreender também que, nós, seres humanos, igualmente insignificantes em termos físicos, temos algo simplesmente magnífico dentro de nós. Temos uma consciência ainda muito pouco conhecida, incrivelmente misteriosa e ilimitada. A infinitude e mistérios do universo não deixa nem um pouco para trás a infinitude e mistérios da nossa consciência. Só isso já nos traz profundas indagações. O que somos nós? Onde começa nossa história? Como viemos parar aqui neste grão de areia chamado Terra?
As estrelas que vemos estão a milhares ou milhões de anos-luz de distância. O que vemos é como elas eram há milhares ou milhões de anos. Nossa própria estrela mãe, o Sol que vemos nascer todos os dias, é o Sol como era 8 minutos atrás. Se algo acontecer ao Sol, só ficaremos sabendo 8 minutos mais tarde.
Vamos começar nossa viagem pelo princípio de tudo. O Big Bang [2]. É o modelo científico que melhor explica a origem do universo. É suportado por inúmeras observações cuidadosamente realizadas. Sem nos apegarmos aos detalhes, no princípio de tudo não havia matéria, não havia energia e não havia tempo. Tudo se resumia a um ponto menor que um grão de areia com temperatura e densidade infinitas. Repentinamente, por razões que a ciência não sabe, esse ponto, em frações de segundo de um relógio cósmico que começava tique taquear, expandiu-se para dimensões colossais. Não foi uma explosão como sugere o nome. Uma explosão ocorre dentro de um espaço preexistente. O Big Bang foi a expansão repentina do próprio espaço-tempo. E aqui surgem inúmeras perguntas sem resposta. O que causou o Big Bang? O que havia antes? De onde veio esse ponto com densidade infinita de matéria e energia?
O problema começa com o tempo. Se o tempo começou com o Big Bang, não faz sentido perguntar o que houve antes. O que seria antes em um tempo que não existia? Mas o princípio da razão suficiente de Leibniz [3] cuja lei de causa e efeito é um caso particular, é um princípio muito forte que se impõe. Desse modo caímos num impasse, pelo menos por enquanto. Por que existe algo e não apenas nada? Essa é a pergunta que vem atormentando cientistas, filósofos e teólogos desde que o mundo é mundo. De acordo com o princípio de Leibniz tem que haver uma razão para a existência do Universo. Se não houvesse deixaria de ter sentido a pesquisa científica e filosófica. Deixaria de ter sentido buscar as causas e as leis que regem os fenômenos no universo. Não haveria o que buscar. Mas a medida que vamos ampliando nosso conhecimento vamos vendo que há muito o que buscar. Como dizia Einstein, o mistério da natureza é a coisa mais bela que o ser humano pode experimentar.
Mas o mistério vai ainda mais longe. Outro grande problema é o ajuste fino das grandezas físicas universais. Isso ficou conhecido como princípio antrópico [4]. Causa enorme espanto o fato que todas as constantes físicas do universo como, por exemplo, as quatro forças fundamentais, a saber, nuclear forte, nuclear fraca, eletromagnética e gravitacional, parecem ter sido finamente ajustadas com grande precisão para que a vida na terra fosse possível. Qualquer pequena diferença no valor dessas constantes tornaria impossível o universo ser como é e, portanto, existir aqui na terra vida biológica como conhecemos. A própria idade do Universo é um ponto para reflexão. O modelo cosmológico padrão detalha que, após a expansão inicial, o universo precisou de tempo para que a gravidade organizasse a matéria.
A abundância de elementos leves como hidrogênio e hélio e a posterior criação de átomos mais complexos, essenciais para a vida, dependem de processos estelares que operam em escalas de tempo de bilhões de anos. Num universo mais jovem não teria havido tempo para isso. Outro aspecto interessante é nossa Lua. Ela é responsável pela estabilidade da rotação da terra e pelo regime diário de marés que assegura a distribuição de nutrientes pelos oceanos. A estabilidade rotacional garante também a estabilidade das condições ambientais, como clima, por exemplo. Sem lua a terra não seria a mesma terra de hoje. Provavelmente o desenvolvimento da vida como conhecemos teria sido comprometido.
Todos esses eventos acima mencionados fazem parte de um conjunto de fatores que, caso fossem diferentes, o universo e a terra não seriam como são hoje. Considerar que tudo seja mera coincidência parece altamente improvável, quase como imaginar alguém ganhar na loteria, milhares de vezes seguidas. O Astrônomo britânico Fred Hoyle ficou famoso por suas frases. Sobre o ajuste fino ser mera coincidência, ele dizia que isso seria semelhante à possibilidade de um furacão passando em cima de um ferro velho produzir um Boing 747 completo e novo [5]. O biólogo evolutivo Alfred Russel Wallace [4] antecipou o princípio antrópico em 1904 com a afirmação – “Um universo tão vasto e complexo como o que sabemos que existe ao nosso redor, pode ter sido absolutamente necessário […] a fim de produzir um mundo que deve ser precisamente adaptado em todos os detalhes para o desenvolvimento ordenado da vida culminando no homem.” Wallace, além de ter dividido com Charles Darwin a teoria da evolução das espécies por seleção natural, era também espiritualista e investigador dos fenômenos espíritas. Esse ponto é interessante porque mostra que Wallace sabia da importância da seleção natural na evolução da vida, mas não descartava a possível atuação de outras forças no processo.
Outra tentativa explicativa do ajuste fino é a possibilidade do multiverso. Essa hipótese defende a existência de uma infinidade de universos paralelos estéreis ao lado deste nosso que deu certo. Mas é pura especulação sem qualquer possibilidade de ser verificada. A explicação que resta é a hipótese do design inteligente ou, em outros termos, um Supremo Designer que queria que tivéssemos consciência para investigar essa possibilidade. É interessante como isso combina com a ideia acima de Wallace sobre a natureza parecer ter sido preparada para evolução da vida e da inteligência humana. Mas aqui precisamos ter cuidado. Apesar de elegante, racional e lógica, a bem da honestidade e humildade intelectual, essa explicação não pode ser tomada como prova da existência de Deus. Deus continua sendo inefável. Continua sendo o maior mistério do Universo, por isso é Deus.
E como falamos em consciência, aqui entra mais um dos grandes mistérios do universo. O mistério da consciência e do livre arbítrio. O filósofo da mente, David Chalmers [6 e 7] mostra que mapear neurônios e as reações do cérebro a estímulos externos é o problema fácil da consciência. O problema difícil da consciência reside nas experiências subjetivas, que ele chama de qualia. Um exemplo citado pelo autor esclarece o ponto. É o argumento de Mary. O autor usa a experiência mental de Mary com cores, mas a ideia é a mesma se pensarmos em sabor e aroma. Imagine que Mary sabe tudo sobre a química do mel. Conhece tudo sobre o processo pelo qual as abelhas produzem o mel, como usam o néctar das flores, como se comunicam para compartilhar com as outras abelhas o local onde pegar o néctar, como constroem a colmeia e como armazenam o mel. Um dia Mary experimenta o mel e aprende algo novo que não era possível de ser estudado e investigado, o sabor e aroma do mel. É isso que Chalmers chama de “qualia”. É essa experiência subjetiva, própria de cada indivíduo, que consiste o problema difícil da consciência e que está além das explicações materialistas.
Podemos acrescentar ainda a questão das EQMs ou Experiências de Quase Morte [8]. São assim chamadas porque são casos onde o indivíduo sofre uma parada cardiorrespiratória e o cérebro deixa de funcionar. Entretanto, existem milhares de registros e testemunhos fidedignos mostrando que o indivíduo, de algum modo, mantém consciência do que ocorre ao seu redor. Vê a atuação da equipe médica trabalhando na restauração de sua condição normal. Com frequência testemunha fatos ocorrendo fora da unidade médica. São indicativos de que a consciência não está presa ao corpo nem é fruto de atividade cerebral. A ciência tem dificuldade para abordar esse tema porque é praticamente impossível reproduzir um evento dessa natureza. Mesmo assim, o assunto é objeto de estudos acadêmicos sérios com uso de estatística e correlação de casos cujo volume de ocorrências vem crescendo dia após dia.
Se a consciência não é um produto do cérebro como sugere Chalmers e as EQMs, a mediunidade torna-se uma ferramenta legítima de investigação da realidade, e não apenas um fenômeno religioso. Mas da mesma forma que as EQMs, existem dificuldades de reprodutividade, dentre outros aspectos que dificultam o estudo experimental rigoroso. Mesmo assim a pesquisa, ainda aquém do nível desejável, vem ocorrendo [9].
Tudo que foi mencionado acima, sob a ótica rigorosa do método científico e em nome da honestidade e humildade intelectual, não são provas da existência de Deus. Tampouco da existência de um universo extrafísico. Contudo, as explicações materialistas cada vez mais se mostram insuficientes para dar conta da realidade complexa que nos cerca. Isso abre a oportunidade para trabalharmos com as possibilidades metafísicas. Mas esse trabalho precisa ser despido de caráter dogmático, precisa apoiar-se na racionalidade, precisa estar aberto ao questionamento e distanciado das religiões convencionais.
A doutrina espírita, dentro da proposta original de Kardec, cumpre bem o papel de importante apoio às pesquisas científicas sobre a consciência. Entretanto, é necessário que o movimento espírita brasileiro repense seu foco. É preciso abandonar a santificação da mediunidade e manter-se de mente aberta para uma atitude investigativa, objetivando enriquecer a doutrina espírita com conhecimentos em lugar de apenas usá-la como consolação. Aliás, a verdadeira consolação só se sustenta em cima de conhecimentos sólidos. Kardec foi muito claro ao propor que o espiritismo deveria acompanhar a evolução do conhecimento – “Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrarem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificará nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará” – A. Kardec [10].
Muitos espíritas brasileiros, optaram por priorizar a atividade religiosa e menosprezar a atividade investigativa. Por conta do alardeado tríplice aspecto, ciência, filosofia e religião, o espiritismo acaba ensejando certa arrogância. Alguns espíritas acabam acreditando que o espiritismo possui respostas para todas as questões e seria a melhor das religiões. Essa visão, no entanto, não corresponde à proposta original da doutrina. O que temos de fato são muitas perguntas ignoradas pela falta de exercício da fé raciocinada. Pensamos que sabemos muito sobre o mundo espiritual mas não sabemos quase nada. Os princípios espiritas são muito pouco conhecidos e divulgados. Prova disso é que o principal argumento dos materialistas é a “existência do mal”. A pergunta que os materialistas não se cansam de fazer é: “Como pode um Deus soberanamente justo e bom ser conivente com toda a maldade que vemos ao nosso redor?”. Evidentemente nunca estudaram o espiritismo ou outras doutrinas reencarnacionistas. Desconhecem ou simplesmente não acreditam na evolução infinita do espírito através de sucessivas reencarnações. Sem isso não é possível compreender porque uma criança inocente sofre as atrocidades que, com frequência, vemos noticiado na mídia. Nesta referência [11] temos o depoimento em vídeo de um materialista que reconhece sinais na natureza que indicam a possibilidade da existência de um criador, mas não se conforma com o problema do mal.
Isso indica que nós espíritas estamos deixando de fazer algo pelo espiritismo. Talvez precisemos rever nossa atitude dentro da doutrina. Será que não nos fechamos em uma zona de conforto limitando-nos a orar e vigiar passivamente? Será que sob a boa intenção de não fazer proselitismo não estamos deixando de divulgar melhor os princípios espíritas? Será que não nos acomodamos dentro de uma religião que nós criamos de forma indevida e exclusivista? Muitas vezes aceitamos mensagens e obras mediúnicas como verdades definitivas, sem o necessário crivo da razão e da reflexão crítica. Isso nos fez perder grandes oportunidades de enriquecimento doutrinário com médiuns excepcionais como foi Chico Xavier.
Precisamos nos conscientizar que a comunicação entre o plano físico e o plano extrafísico não é algo que ocorre com a mesma naturalidade que a comunicação entre dois indivíduos no plano físico. Aliás, mesmo essa está sujeita a problemas como bem colocado na questão 28 do Livro dos Espíritos. O exercício da mediunidade requer muita responsabilidade, estudo e dedicação. A santificação da atividade acaba induzindo o médium à sensação de autossuficiência e excesso de confiança no domínio da comunicação. Poucos médiuns têm a humildade de Chico Xavier para reconhecer isso. Chico reconhecia seu lugar. Em suas próprias palavras, várias vezes afirmou – “o telefone toca de lá para cá”, deixando claro sua consciência de ser um instrumento passivo e não o agente. Além disso, Chico teve a humildade de publicamente reconhecer que ele não entendia nada do que psicografava. Isso está registrado no programa Pinga Fogo da rede Tupi de televisão de 1971 [12].
Chico foi uma figura de excepcional estatura moral, um exemplo ímpar de humildade e capacidade mediúnica. Mas o movimento espírita optou por aceitar as obras que ele nos trouxe, como se fossem revelações intocáveis, que dispensassem qualquer reflexão ou questionamento. Veja bem! O problema não está na integridade moral do médium nem do espírito comunicante. Existem dificuldades inerentes à própria natureza dos planos físico e extrafísico. Muitas ideias e conceitos no plano espiritual não encontram analogias adequadas no plano físico. As percepções de espaço e de tempo, por exemplo, são diferentes. Não temos como perceber essas diferenças, mas o estudo atento da codificação nos esclarece que elas existem e devem ser levadas em conta em toda comunicação mediúnica.
As diferenças são maiores quando se trata de espíritos mais evoluídos que, embora com maior bagagem de conhecimentos, encontram-se em faixas vibratórias mais altas, mais afastadas do plano físico e, portanto, com maiores dificuldades para se fazerem entender com analogias conhecidas por nós. Isso torna a comunicação mais complexa.
Espíritos em faixas vibratórias próximas do plano físico quase não percebem as diferenças entre os planos, chegando inclusive a ter sensações similares às nossas como encarnados. Esses espíritos, apesar de menos evoluídos têm mais facilidade para comunicar suas ideias e percepções com o plano físico. Essa realidade precisa ser meditada e compreendida com cuidado para que possamos agir com imparcialidade e sem pré-julgamento dos nossos irmãos desencarnados ou encarnados, exercendo de boa-fé, a mediunidade.
Questionar uma obra mediúnica não quer dizer colocar em dúvida a boa intenção do autor espiritual ou a integridade moral do médium, mas tão somente aclarar a compreensão dos aspectos mais complexos. O plano espiritual superior espera esse esforço de nossa parte. Conhecem nossas dificuldades, mas sabem que cabe a nós, pelo uso do livre arbítrio, querer aprender e evoluir. Eles não vão nos passar informações sem que haja esforço de nossa parte para conquistá-las. Um espírito superior jamais se sentirá ofendido com nossas dúvidas, muito pelo contrário, terá enorme satisfação em nos esclarecer. Vale aqui o conselho do espírito Erasto, “Vale mais repelir dez verdades que admitir uma só mentira, uma só teoria falsa” [13]. Sábio conselho, não porque haja mentiras no caso Chico Xavier, mas porque uma ideia mal compreendida pode se transformar em uma falsa ideia.
É dentro desse contexto que podemos nos debruçar sobre uma obra psicografada por Chico Xavier e ditada pelo espírito Emmanuel. Estamos falando de “A Caminho da Luz” do ano de 1938 [14]. Não é uma leitura fácil. É bastante conhecida no meio espírita, possivelmente, muito mais pelo nome e referência aos exilados de Capela, que pela leitura e estudo refletido. De acordo com Emmanuel, no antelóquio da obra, a mesma segue a mesma linha religiosa de “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho” de autoria espiritual de Humberto de Campos. A Caminho da Luz se propõe a resgatar a evolução espiritual da terra de acordo com o evangelho de Jesus.
O teor religioso usado ao longo do texto, combina bem com o objetivo da obra, mas acaba por embaraçar um pouco a compreensão de certos aspectos importantes. Acreditamos que, assim como, “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, a obra estava em sintonia com o seu tempo. Inclusive, no caso desta última, certa dose de ufanismo combinava com o momento político do governo Vargas bastante nacionalista. Não se pode esquecer também que em 1938 o mundo já vivia sob as tensões políticas e sociais que prenunciavam a II guerra mundial. O que de fato ocorreu em setembro de 1939. A humanidade atravessava momentos difíceis, que ensejavam maior necessidade de conforto religioso.
Nosso objetivo aqui é tentar separar do aspecto religioso uma compreensão mais focada nos aspectos científicos e filosóficos da gênese do planeta terra. Lembrando sempre da posição de Kardec, endossada pelos espíritos superiores – “Se a Religião se nega a avançar com a Ciência, esta avançará sozinha” [15]. E por que isso importa? Importa porque a ciência e a filosofia nos permitem compreender quão raro é este planeta e quão rara é a oportunidade que nos está sendo ofertada de habitá-lo. Sabemos que são muitas as moradas, mas é a terra o planeta adequado ao nosso presente estágio evolutivo.
Em 1938 a teoria do Big Bang ainda não estava consolidada, muitos cientistas ainda acreditavam num universo estacionário. A tectônica de placas responsável pela migração dos continentes ainda não era amplamente aceita. A essência da evolução do sistema solar a partir de uma nuvem de poeira cósmica, proposta por Laplace e apresentada por Kardec na Gênese ainda é válida para a ciência atual, mas os eventos e transformações ao longo da evolução foram revisados. A origem da lua proposta na codificação também foi revista. A teoria mais aceita hoje é do grande impacto, proposta em 1970.
Não vamos esmiuçar por inteiro a obra de Emmanuel. Não há necessidade. Mas alguns aspectos, da obra merecem reflexão como veremos mais a frente neste ensaio. O livro é subdividido em vinte e cinco capítulos. Os três primeiros capítulos formam a base para compreensão da obra. Tratam consecutivamente da gênese do planeta, do surgimento da vida e da evolução da espécie humana auxiliada por espíritos imigrantes de outro orbe. Logo na introdução, Emmanuel apresenta uma reflexão profunda sobre a transição planetária e a soberania do mundo espiritual sobre o mundo material. Destacando que, enquanto a humanidade encarnada enfrentava as tensões sociais e o prenúncio da guerra que se aproximava, as forças espirituais se reuniam para planejar o futuro. Aproximava-se o momento de aferição dos valores que norteavam a sociedade terrestre, para abrir caminho a um novo mundo. A obra busca recolocar a fé no seu devido lugar de bússola norteadora da verdadeira sabedoria, acima da ciência e das religiões que sempre ensejaram a separação.
Emmanuel descreve a história da terra como se fosse um filme através dos tempos, reunindo todas as experiências terrestres, boas e ruins, formando uma espécie de memória da alma imortal em sua ascensão para o infinito. As diversas gerações e etnias humanas do passado, são vistas como fases de aprendizado da grande família humana. No comando dessa estrutura planetária Emmanuel identifica Jesus como a fonte de luz que ilumina o destino do planeta. Enfatiza que o amor é a lei universal e enquanto as instituições humanas passam, Jesus permanece como farol imutável da caminhada humana para o alto.
No capítulo I Emmanuel descreve a formação física da Terra sob uma perspectiva espiritual e tendo Jesus como responsável pelo orbe. Há uma comunidade de espíritos puros, da qual Jesus faz parte, que detém as rédeas do sistema solar. Eles se reuniram em dois momentos cruciais. Na formação da Terra e na vinda do Cristo ao mundo. Jesus, auxiliado por legiões de trabalhadores espirituais, organizou a matéria em ignição vinda do Sol, estabelecendo as leis matemáticas que regem o planeta. Foi deliberado também a criação da lua para servir como âncora do equilíbrio terrestre e fonte de magnetismo para a reprodução das espécies. Após a solidificação da crosta e a estabilização da atmosfera e oceanos, Jesus lançou na superfície o protoplasma, o germe sagrado da vida organizada.
No capítulo II Emmanuel detalha como a espiritualidade trabalhou na evolução das formas biológicas ao longo de milênios. Os operários espirituais planejaram o mundo das células, focando na beleza e na ordem como bases para os organismos futuros. Os primeiros habitantes foram seres unicelulares que se multiplicavam nos oceanos mornos. O sentido do tato foi o primeiro a ser desenvolvido, dando origem a todos os outros.
Milênios de experimentação espiritual foram necessários para aperfeiçoar os órgãos de nutrição, respiração e o sistema nervoso. Isso incluiu a criação de animais monstruosos e répteis gigantes, que foram “ensaios” eliminados quando deixaram de ser úteis ao plano evolutivo. Os antepassados do homem não passaram por uma fase de “descida da árvore” no sentido literal, isto é, não houve uma transição repentina entre os antepassados que viviam nas árvores para os que começaram a caminhar pelas planícies. Essa transição foi lenta, mas importante porque permitiu ao nosso antepassado começar as usar as mãos para fabricar ferramentas. As entidades espirituais auxiliaram o “homem do sílex”, operando transformações no seu corpo perispiritual para que o primata pudesse atingir a racionalidade.
No capítulo III o autor espiritual explica a origem das grandes civilizações antigas através de um evento migratório de outro sistema solar. Trata-se dos exilados de Capela. Segundo Emmanuel, um planeta do sistema de Capela tinha chegado a um alto nível evolutivo, entretanto, milhões de espíritos rebeldes dificultavam o progresso desse mundo para um nível superior. Esses espíritos foram exilados na Terra, um mundo primitivo, onde deveriam aprender através da dor e do trabalho, enquanto impulsionavam o progresso na Terra.
Foram quatro grandes grupos que ficaram conhecidos como “raças adâmicas”[*]. Foram os antigos indo-europeus, os egípcios, o povo de Israel e os povos da Índia. Esses grupos guardavam lembranças de seu planeta de origem, mais evoluído, dando origem à lenda do “paraíso perdido”, presente em diversas culturas. Eles trouxeram também a promessa do Cristo de que um dia seriam redimidos, razão pela qual o advento do Messias foi previsto por todas essas civilizações milênios antes de sua vinda. O autor espiritual reforça que não houve um retrocesso para os capelinos, apenas uma nova oportunidade para que eles aprendessem a valorizar as conquistas no caminho da evolução.
A abordagem empregada por Emmanuel está coerente com a codificação. Kardec deixa claro que os espíritos superiores já libertos da matéria e até do corpo perispiritual, continuam evoluindo e atuando como ministros de Deus. Kardec usa exatamente essa expressão, ministros de Deus, que atuam sobre o mundo material conferindo propósitos à matéria e zelando pelo cumprimento das leis divinas eternas e imutáveis. Atuam inclusive sobre os espíritos menos evoluídos compelindo-os a participarem de alguma forma da obra do criador.
Kardec apresenta uma abordagem mais científica, objetivando explicar como ocorreu a evolução da Terra. Ele procura demonstrar que os fenômenos espirituais são, na verdade, leis da natureza. Sua preocupação é desmistificar o sobrenatural e o maravilhoso, provando que o mundo invisível e o visível são forças que reagem incessantemente uma sobre a outra.
Já Emmanuel em “A Caminho da Luz” busca mostrar a evolução da Terra como uma tese religiosa, e não um trabalho puramente histórico ou científico. Seu foco é mostrar a influência da fé e o ascendente místico de Jesus sobre as civilizações, apresentando a história como um “fio inquebrantável” de espiritualidade que diviniza a matéria.
Kardec se preocupa em mostrar a causa inteligente por trás do automatismo das forças materiais. Já Emmanuel busca despertar o sentimento e a fé dando nome e rosto à direção espiritual, revelando a existência de uma Comunidade de Espíritos Puros organizadores do sistema solar, da qual Jesus é um dos membros divinos, responsável pela Terra. Ele descreve a ação direta de Jesus como o “Divino Escultor”, que operou a escultura geológica e organizou as camadas atmosféricas especialmente para a futura vida humana.
A linguagem de Kardec é prudente e analítica. Enfatiza que o Espiritismo não tem teorias secretas e deve ser julgado pela razão e pela lógica. Ele foca na Uranografia Geral, tratando de tempo, espaço e matéria de forma abstrata, impessoal e universal. Emmanuel utiliza uma linguagem mais alegórica, fornecendo pormenores sobre eventos específicos, como a imigração de Espíritos do sistema de Capela para a Terra. Ele busca tocar o sentimento e a fé do leitor, apresentando Jesus como a fonte de luz e harmonia que sustenta a existência na Terra.
Kardec explica o progresso como condição normal de todos os seres espirituais e de todos os mundos através das leis divinas. Emmanuel ilustra esse progresso através de etapas históricas e missões de grandes vultos, mostrando como a espiritualidade trabalhou na “elaboração paciente das formas” e no aprimoramento biológico do homem primitivo.
Tanto a Gênese de Kardec quanto A Caminho da Luz de Emmanuel são obras densas, ricas em conhecimentos e muito coerentes entre si, apesar de abordagens diferentes. Entretanto, alguns aspectos merecem atenção e reflexão. O intercâmbio entre o plano espiritual e o plano material na formação e evolução da Terra, evidentemente é um processo geral que ocorre em todos os orbes do Universo. Mas é preciso um cuidado especial para que possamos compreender corretamente esse intercâmbio. Não existem milagres. As leis divinas são eternas e imutáveis. Jamais poderão ser alteradas por espírito nenhum, seja Jesus ou qualquer outro de maior grau. Esses são princípios que precisam ser compreendidos muito bem. Os espíritos não criam leis, apenas organizam a matéria sob as leis da natureza.
O trabalho do plano espiritual pode ser comparado a uma grande fábrica com suas equipes de engenheiros e técnicos. A fábrica transforma matérias primas em produtos diversos. Por exemplo, comida enlatada, mesas, cadeiras, utensílios de cozinha, até aviões e satélites artificiais. Essas transformações não conflitam com as leis da natureza. Tudo é feito sob as leis eternas e imutáveis da física e da química. O engenheiro terrestre não muda a lei da gravidade para fazer um prédio ou uma ponte, faz isso respeitando essa lei. O plano espiritual trabalha a matéria pela força do pensamento, utilizando o fluido cósmico universal, mas tudo debaixo da estrita observância das leis divinas eternas e imutáveis. Os espíritos organizam a matéria, mas não alteram nem estabelecem as leis da natureza.
No caso da vida, por exemplo, tão logo as condições geoquímicas do planeta reuniram condições adequadas como uma crosta sólida, temperatura amena e presença de água líquida, a matéria inorgânica foi organizada de tal modo que possibilitasse sua vitalização dando início à vida. Exatamente como se deu esse processo está além da nossa compreensão. A ciência conseguiu esclarecer como a vida evoluiu, mas ainda não conseguiu explicar como matéria inorgânica se transformou em vida capaz de evoluir. Com certeza não foi um milagre, mas sim a ação inteligente dos espíritos superiores sobre a matéria inerte. Tudo respeitando as leis divinas eternas e imutáveis das quais conhecemos apenas um diminuto subconjunto.
O longo tempo de milhões de anos decorrido entre as várias etapas de formação e resfriamento da Terra e formação dos oceanos onde surgiu a vida, é uma prova da imutabilidade das leis divinas. São processos nos quais não cabe a intervenção dos espíritos. É como ocorre em certos processos industriais. Por exemplo, o homem prepara o solo, planta a uva adequada àquele solo, colhe no tempo certo, esmaga a uva e a deixa fermentar pelo tempo adequado ao tipo de vinho que se quer. Nada ocorre fora das leis da natureza. A transformação de água em vinho por Jesus nas bodas de Caná não foi um milagre, embora isso fosse conveniente no contexto. Não sabemos o que exatamente ocorreu, mas podemos fazer algumas suposições racionais. Sabemos que as substâncias presentes no vinho se encontram dispersas no ar, certamente estavam presentes no ambiente onde vinho que acabou estava armazenado e na própria água em proporções reduzidas. Pela força do pensamento Jesus pode ter reunido e concentrado essas substâncias para obter vinho. Ele não produziu as substâncias, apenas as reuniu.
É claro que a hipótese acima é apenas uma hipótese, mas é como devemos entender o princípio que não existe o sobrenatural. O espírito é uma das forças da natureza que a ciência ainda não logrou compreender. A própria evolução por seleção natural estudada por Darwin e Wallace, que demandam tempos extremamente longos é prova de que as leis da natureza são eternas e imutáveis, apesar de os espíritos poderem atuar como cocriadores organizando a matéria. No capítulo I de A Caminho da Luz Emmanuel fala que Jesus e seus auxiliares estabeleceram as Leis Matemáticas que regem o planeta. Essa afirmação merece cuidado. Provavelmente, não é um erro de Emmanuel mas sim consequência das dificuldades da comunicação entre planos já apontada acima.
Não vamos entrar em detalhes sobre a formação do sistema solar, da Terra e da lua. A Gênese de Kardec [16], apresenta explicações trazidas pelo espírito Galileu ao médium e astrônomo Camille Flammarion e complementadas pelas considerações de Kardec. Estão em admirável sintonia com as explicações da ciência moderna [17]. É importante fazermos esse estudo comparado para que possamos refletir com mais carinho sobre a filosofia e a ciência espírita. Nosso propósito neste modesto ensaio é tentar entender melhor a evolução do espírito e a importância da Terra nesse processo. São aspectos que acabam passando despercebidos quando damos muito foco ao aspecto religioso e deixamos de lado o aspecto científico e filosófico.
A Terra, originalmente uma massa de material fundido, foi gradualmente se resfriando até que por volta de 800 milhões de anos após a formação inicial, isto e, entre 3,7 e 3,8 bilhões de anos atrás, a temperatura da atmosfera, considerada uma proto atmosfera, caiu para menos de 100º C, viabilizando a retenção de água líquida na superfície e a formação dos primeiros proto oceanos. Isso aconteceu no final do éon Hadeano e início do éon Arqueano. Éon é um termo originalmente filosófico e religioso relativo às eternidades. Mas acabou sendo apropriado pela geologia para referir-se aos 4 grandes períodos geológicos do planeta Terra, a saber, Hadeano, a partir do início da formação do planeta, o Arqueano, o Proterozoico e o atual Fanerozoico, iniciado há cerca de 540 milhões de anos [18].
A origem da água é atribuída em parte ao grande bombardeio sofrido pela Terra nos seus primeiros estágios. Durante essa fase, a superfície da Terra sofria impactos titânicos causados continuamente por corpos residuais, como cometas e asteroides, que eram atraídos gravitacionalmente pelos planetas recém-formados. O evento foi crucial porque grande parte do material agregado pela Terra vinha das regiões externas e geladas do Sistema Solar. Assim, os oceanos terrestres foram formados por água e outras substâncias voláteis extraterrestres trazidos do espaço [19]. Era o início da grande sopa que daria origem à vida. Foi nessas condições que se formaram as primeiras moléculas que mais tarde adquiriram a capacidade de se reproduzir.
Os detalhes de como se formaram essas primeiras moléculas capazes de se multiplicarem é ainda tema de muitos debates no meio científico. Sabe-se que foi um longo processo. As condições necessárias para a formação dessas moléculas é também algo que merece profunda reflexão. Dentre os 8 planetas que formam o sistema solar, somente a Terra abriga a vida que conhecemos. Para isso conta o seu tamanho, sua distância em relação ao Sol, cujo tamanho e brilho também fazem parte dessa combinação de fatores. A própria lua, com seu tamanho e orbita ao redor da Terra está ligada à estabilidade orbital do planeta e ao ciclo de mares que tem papel fundamental na circulação de nutrientes marinhos. A estabilidade rotacional da Terra, devido a lua, é também importante para o campo magnético terrestre que nos protege da radiação cósmica. Os dois grandes gigantes do sistema solar, Júpiter e Saturno também tiveram e têm seu papel de escudo protetor contra corpos celestes que poderiam colidir com a Terra.
Todo esse conjunto de fatores permitiu que a Terra abrigasse vida e que essa vida, ao longo de bilhões de anos fosse lentamente evoluindo sob a batuta, sábia e paciente do grande mestre, acabando por culminar no homo sapiens atual, capaz de ter consciência dos enormes desafios que foram superados e refletir sobre a trajetória do planeta e de si mesmo. Kardec não atribui especificamente a Jesus a condução do planeta, mas essa hipótese, de modo algum conflita com a codificação. A ciência, evidentemente, não admite causas extrafísicas em nenhum evento físico passado ou presente. Entretanto, as explicações puramente fisicalistas mostram-se cada vez mais limitadas. As dificuldades são compreensíveis. A ciência requer reprodutibilidade dos eventos para que possa estudá-los e experimentá-los com rigor. Seria importante a ciência desenvolver novos protocolos de pesquisa capazes de tratar questões metafísicas não reprodutíveis sob nossa vontade.
Mas bem antes do homo sapiens a Terra passou por cinco grandes extinções da vida existente. A quinta grande extinção foi a do Cretáceo da era Mesozoica [20]. É a mais famosa, ocorrida há 65 milhões de anos e marcou o fim dos dinossauros. A principal causa foi o impacto de um asteroide na península de Yucatán, no México.
Apesar de catastróficos, eventos desse tipo fazem parte da história do planeta e, além disso, após cada extinção, novos nichos foram abertos, permitindo o surgimento e a diversificação de novas espécies, como ocorreu com os mamíferos após a extinção dos dinossauros. Merece reflexão o fato de existirmos porque os dinossauros foram extintos. Aqui entra uma série de questões espirituais que ainda não compreendemos. No capítulo II Emmanuel fala em milênios de experimentações espirituais necessárias para aperfeiçoar os órgãos de nutrição, respiração e o sistema nervoso. Isso incluiu a criação experimental de animais monstruosos e répteis gigantes.
Será que os dinossauros foram um acidente experimental? Será que a engenharia genética do plano espiritual, efetuou operações objetivando o aperfeiçoamento dos órgãos de nutrição e respiração mas, posteriormente, ao deixarem que evolução por seleção natural, seguisse as leis cegas da matéria, acabaram produzindo esses resultados indesejáveis? Terá sido isso? Ou será que esses animais, por razões que desconhecemos, precisaram passar pela Terra primitiva? Os dinossauros dominaram a Terra por quase 100 milhões de anos antes de sua extinção. Extinção essa provocada pela queda de um asteroide aproximadamente do tamanho de Manhattan em Nova York. Na cratera formada caberia a cidade de São Paulo. Isso foi um evento direcionado pelos espíritos ou foi um evento previsto mas não controlado diretamente pelos espíritos? Se esses monstros foram realmente indesejáveis, porque a demora de 100 milhões de anos para extingui-los? Demora essa do nosso ponto de vista, pois devemos lembrar que o tempo dos espíritos é diferente.
Como se vê, são muitas perguntas sem resposta. Emmanuel, certamente poderia fornecer explicações mais detalhadas se o movimento espírita da época o tivesse interpelado. Chico Xavier, com certeza, de bom grado teria colaborado. Não tenho a menor dúvida, que o benfeitor teria grande satisfação em nos esclarecer. Os espíritos não vão nos passar informações se não houver interesse e esforço de nossa parte. Eles se limitam a nos informar dentro dos limites dos conhecimentos na época da comunicação.
Outra questão levantada por Emmanuel que merece nossa atenção é a migração dos capelinos para a Terra. Kardec trata da migração de espíritos entre orbes sob perspectiva mais genérica. Kardec fala que a raça simbolizada por Adão foi a imigração de uma colônia de espíritos provenientes de outro orbe mais avançado que a Terra. Emmanuel especifica que essa colônia de imigrantes veio da constelação do Cocheiro onde existe o sistema solar de Capela [21]. Segundo Emmanuel, havia nesse sistema um orbe cuja evolução havia alcançado grande progresso, mas, de modo semelhante ao que temos hoje aqui na Terra, vários milhões de espíritos persistiam no erro mantendo-se moralmente atrasados. A comunidade diretora desse orbe decidiu então conversar com Jesus e encaminhá-los para a Terra, onde poderiam auxiliar o progresso material ao mesmo tempo que expiassem suas faltas.
Para a astrofísica moderna, o sistema Capella, localizado na constelação do Cocheiro, na verdade, é um complexo estelar de quatro estrelas a cerca de 43 anos-luz da Terra. São dois pares de estrelas. O principal consiste em duas gigantes amarelas que orbitam uma ao redor da outra em um período de 104 dias, enquanto o par secundário é formado por duas anãs vermelhas distantes. Devido à intensa radiação e às poderosas forças de maré geradas pelas estrelas gigantes, a zona habitável do sistema, isto é, a região do sistema onde poderia haver um planeta rochoso com atmosfera e água é instável e hostil. Até o momento, não foram detectados exoplanetas no sistema, e a probabilidade de encontrar um mundo similar à Terra em uma órbita estável é considerada extremamente baixa pela ciência atual.
Teria sido um erro de Emmanuel identificar nesse sistema uma civilização semelhante à terrestre dos dias atuais? Um povo intelectualmente adiantado, mas moralmente atrasado. Provavelmente não. Os capelinos originários desse sistema não necessariamente precisariam ter a mesma constituição física e biológica nossa. Kardec deixa claro que não existe planeta desabitado. Pode haver formas de vida completamente diferentes da nossa, adaptadas às condições do orbe, inclusive em faixas vibratórias distintas e invisíveis para nós. Por isso, os espíritos capelinos daquela época, embora em nível de evolução semelhante ao que temos hoje aqui na Terra, não precisavam ter as mesmas características físicas nossas. O espírito pode habitar qualquer corpo adaptado às condições próprias do planeta onde se encarne. O próprio perispírito é também moldado conforme as condições do orbe.
E falando em perispírito, e interessante assinalar a fala de Emmanuel sobre operações no perispírito do “homem do sílex” para que o primata pudesse atingir a racionalidade. Para a ciência atual existem ainda lacunas que expliquem a transição entre os antigos primatas e o gênero homo. A bem da verdade, do ponto de vista espiritual, também não sabemos exatamente como foi essa transição. Não temos a menor ideia que tipo de operações foram realizadas no perispírito dos primatas.
Emmanuel fala também do continente da Atlântida onde se fixaram os primeiros grupos de capelinos que deram origem à raça branca. A Lemúria é falada como um continente perdido pela raça dos arianos que se instalaram na Índia. São lendas com forte carga simbólica relativa a origem nobre de povos que posteriormente decaíram. Atlântida vem da época de Platão. A Lemúria já foi uma hipótese científica para explicar a presença de fósseis de lêmures em Madagascar e Índia, quando a migração das placas continentais ainda não havia se firmado. Nunca se encontrou qualquer vestígio que indique que Atlântida e a Lemúria tenham existido. As referências de Emmanuel são questões que poderiam ter sido submetidas ao próprio Emmanuel pelos espíritas da época.
Para isso era preciso interesse investigativo. Era necessário o exercício da raciocinada. É difícil dizer qual teria sido a real intenção de Emmanuel em citar esses continentes lendários. Pode ser dificuldades de comunicação já apontadas anteriormente. Pode ser que Emmanuel se referisse a colônias de adaptação dos capelinos na atmosfera espiritual terrestre para elaboração dos novos corpos perispirituais adaptados à Terra. Como se vê, parafraseando Herculano Pires, o espiritismo é o grande desconhecido dos próprios espíritas.
De qualquer modo, se porventura, parcelas moralmente retardatárias da população terrestre precisarem emigrar para algum outro orbe, não precisará ser um orbe com condições ambientais exatamente como as da Terra. Porém, seguramente, a parcela de espíritos que permanecerem aqui na Terra, precisarão de um planeta saudável, com solo, ar, água, flora e fauna compatíveis com um planeta regenerado. Um planeta abraçado com mais amor e zelo por seus habitantes que fizerem jus a essa Terra regenerada.
Foram necessários 4,5 bilhões de anos para esculpir esse pequeno planeta azul, sem par semelhante ao alcance de nossos mais poderosos e avançados telescópios. Um trabalho primoroso da mãe natureza com o concurso sábio e amoroso de milhares de falanges espirituais comandadas por um grande e fantástico arquiteto chamado Jesus. O que nós, espíritos e espíritas encarnados, apegados às religiões que separam em lugar do amor que une, estamos fazendo por essa morada? Com certeza, os exilados de Capela, apesar do atraso moral, não devem ter depredado o seu orbe a ponto de torná-lo inabitável para os que lá ficaram. Será que não estamos protagonizando os condenados da Terra em lugar de exilados? Os que deixarem a Terra talvez não sejam exilados, mas sim bem-aventurados rumo a um planeta melhor. Ficarão aqui os atrasados, relapsos e egoístas para colher as tempestades que estão plantando?
São reflexões que precisam ser feitas. A Terra é uma morada muito especial para nós, espíritos em evolução. O trabalho da natureza criada por Deus, acompanhado do amor, paciência e sabedoria dos espíritos superiores sob o comando de Jesus, é algo completamente fora do nosso alcance intelectual compreender. Mas isso não nos impede de intuir e imaginar que estamos pichando uma obra de arte sem igual nas imediações desse universo infinito.
Sim! A Terra é um planeta de provas e expiações e há muitas moradas na casa do Pai. Moradas com outras formas de vida invisíveis para nós. Mas a Terra é o planeta que precisamos nesse momento para nossa evolução. Sem esse estágio não teremos como seguir em frente na jornada evolutiva.
Amai vos uns aos outros, este é o primeiro mandamento. Instrui-vos, este é o segundo.
[*] OBSERVAÇÃO: Tanto Emmanuel quanto Kardec usam o termo raça para se referirem a diferentes povos. Vale notar que para a ciência atual existe uma única raça humana, o homo sapiens. Embora do ponto de vista social histórico o termo ainda apareça, é preciso ter cuidado com o uso. Na época de Kardec e mesmo de Emmanuel, o termo estava de acordo com os usos e costumes, não caracterizando erro, mas hoje é visto com restrições.
REFERÊNCIAS
[1] Via Láctea – Artigo Wikipedia
https://pt.wikipedia.org/wiki/Via_L%C3%A1ctea (Acesso em 30/01/2026)
[2] Asth, Rafael C. – A Teoria do Big Bang. Artigo Toda Matéria.
https://www.todamateria.com.br/teoria-do-big-bang/ (Acesso em 30/01/2026)
[3] O que é: Princípio da razão suficiente na Filosofia – Artigo Só Escola, 2023.
https://soescola.com/glossario/o-que-e-principio-da-razao-suficiente-na-filosofia#gsc.tab=0
(Acesso em 30/01/2026)
[4] Princípio antrópico – Artigo Wikipedia
https://pt.wikipedia.org/wiki/Princ%C3%ADpio_antr%C3%B3pico (Acesso em 30/01/2026)
NOTA: Artigo muito bom. Cobre todos os aspectos a favor e contra as várias interpretações.
[5] Frase de Fred Hoyle – Citações e Frases Famosas
https://citacoes.in/autores/fred-hoyle/ (Acesso em 30/01/2026)
[6] Problema difícil da consciência – Artigo Wikipedia (mais didático)
https://pt.wikipedia.org/wiki/Problema_dif%C3%ADcil_da_consci%C3%AAncia
(Acesso em 30/01/2026)
[7] Teixeira, João de Fernandes – A Teoria da Consciência de David Chalmers. Universidade Federal de S. Carlos, Departamento de Filosofia, Instituto de Estudos Avançados da USP, Grupo de Ciência Cognitiva. (acadêmico mais complexo)
https://www.scielo.br/j/pusp/a/LWn8myq5QNbqrKJ88NdHw4C/?format=html&lang=pt
(Acesso em 30/01/2026)
[8] Carunchio, Beatriz Ferrara – Relatos perturbadores de quem esteve quase morto e voltou: pesquisadora da USP explica as consequências psicológicas da EQM. Pós-doutoranda pelo Departamento de Psicologia Social e do Trabalho do Instituto de Psicologia da USP
(Acesso em 30/01/2026)
[9] Almeida, Alexander Moreira – Pesquisa em mediunidade e relação mente-cérebro: revisão das evidências. Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde (Nupes), Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF)
https://repositorio.ufjf.br/jspui/handle/ufjf/7984 (Acesso em 30/01/2026)
[10] Kardec, Allan – A Gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo, Capítulo I — Caráter da revelação espírita, Item 55
https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/888/a-genese-os-milagres-e-as-predicoes-segundo-o-espiritismo/3579/a-genese/capitulo-i-carater-da-revelacao-espirita/55 (Acesso em 30/01/2026)
[11] Sacani, Sergio – Uma hora do geofísico e divulgador de ciência explicando a possível existência de Deus.
https://www.youtube.com/watch?v=9SMv70ibKfs (Acesso em 30/01/2026)
[12] Entrevista histórica de Chico Xavier no programa Pinga Fogo da antiga rede Tupi de TV (1ª entrevista 28/07/1971 e 2ª entrevista 21/12/1971).
https://www.youtube.com/watch?v=faBObyYg8GY&list=TLGG3FdJvtir-1kxNzAxMjAyNg
(Acesso em 30/01/2026)
NOTA: Ajuste o ponteiro marcador de tempo do video para 1h20m42s assista até 1h26m35s. Neste trecho, respondendo a perguntas de Herculano Pires sobre as obras Evolução em Dois Mundos e Mecanismos da Mediunidade de André Luiz, Chico fala abertamente, com a simplicidade e humildade que lhe eram características, sobre sua incapacidade de compreender o que psicografava. Inclusive, em tom bem humorado, relata uma passagem onde o espírito Augusto dos Anjos faz um comentário sobre sua cabeça não dar conta dos assuntos tratados. Quero crer que Chico, inconscientemente, ou por inspiração dos espíritos, estava sinalizando que a obra que ele estava trazendo não era apenas para consolo. Era sobretudo para enriquecimento doutrinário. Merecia mais atenção e estudo.
[13] Kardec, Allan – Revista espírita — Jornal de estudos psicológicos — agosto de 1861. Da influência moral dos médiuns nas comunicações (Sociedade espírita de Paris. Médium: Sr. D’Ambel). https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/895/revista-espirita-jornal-de-estudos-psicologicos-1861/5038/agosto/dissertacoes-e-ensinos-espiritas/da-influencia-moral-dos-mediuns-nas-comunicacoes-sociedade-espirita-de-paris-medium-sr-dambel (Acesso em 30/01/2026)
[14] Espírito Emmanuel – A Caminho da Luz, psicografia de Chico Xavier, 1938
https://lcvcrj.com.br/wp-content/uploads/2023/05/acaminhodaluz.pdf (Acesso em 30/01/2026)
[15] Kardec, Allan – A Gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo, Capítulo IV — Papel da ciência na gênese, item 9.
https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/888/a-genese-os-milagres-e-as-predicoes-segundo-o-espiritismo/3670/a-genese/capitulo-iv-papel-da-ciencia-na-genese/9 (Acesso em 30/01/2026)
[16] Kardec, Allan – A Gênese, Capítulo VI — Uranografia geral
https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/888/a-genese-os-milagres-e-as-predicoes-segundo-o-espiritismo/3694/a-genese/capitulo-vi-uranografia-geral (Acesso em 30/01/2026)
[17] Xavier, Ademir – A Era do Espírito, Comentários sobre Uranografia Geral
https://eradoespirito.blogspot.com/2021/01/comentarios-sobre-uranografia-geral-de.html
(Acesso em 30/01/2026)
[18] Eras geológicas – Enciclopédia Humanidades.
https://humanidades.com/br/eras-geologicas/ (Acesso em 30/01/2026)
[19] Galante, Douglas et all – Astrobiologia, Uma Ciência Emergente. (livro gratuito).
https://www.iag.usp.br/sites/default/files/2023-01/2016_galante_horvath_astrobiologia.pdf
(Acesso em 30/01/2026)
[20] Extinção do Cretáceo-Paleogeno – Artigo Wikipedia
https://pt.wikipedia.org/wiki/Extin%C3%A7%C3%A3o_do_Cret%C3%A1ceo-Paleogeno
(Acesso em 30/01/2026)
[21] Capella – Artigo Wikipédia
https://pt.wikipedia.org/wiki/Capella_(estrela)
(Acesso em 30/01/2026)

