por Cesar Boschetti.
Esta metáfora foi popularizada por Isaac Newton, quando em uma carta a Robert Hooke (1675) escreveu: “Se vi mais longe, foi por estar sobre os ombros de gigantes.”
Apesar de algumas controvérsias, acredita-se que Newton quis mostrar que, humildemente reconhecia que suas descobertas só foram possíveis graças ao trabalho de pensadores como Galileu Galilei e Johannes Kepler que o antecederam. Mas não foi Newton o criador da frase. O verdadeiro autor foi o filósofo Bernardo de Chartres do século XII [1], que entendia que a marcha do conhecimento sempre se apoia em conhecimentos ou descobertas anteriores. Ele costumava nos comparar a anões empoleirados nos ombros de gigantes. Ele ressaltou que podemos ver mais e mais longe do que nossos predecessores, não porque temos visão mais aguçada ou maior altura, mas porque somos levantados e carregados sobre sua estatura gigantesca.
Esse entendimento, aplicado à nossa jornada evolutiva, seja no plano material, seja no plano espiritual, nos convida a uma profunda reflexão sobre nossa atitude frente ao mundo e frente ao próximo. A ideia me veio à mente durante estudo que venho fazendo da origem e evolução do espírito e da matéria. Vários questionamentos que me incomodavam há algum tempo, sem relação direta com o referido estudo, de repente encontraram eco nessa ideia. A forma como a ideia se cristalizou, permitindo-me organizar esses questionamentos, de certo modo, atesta o valor e importância de sua essência filosófica. Essência que, além de nos intuir humildade, mostra-nos quão importante é o papel do próximo em nossa caminhada evolutiva, seja o próximo que nos acompanha na presente encarnação, seja o próximo de outras encarnações, temporariamente invisíveis, mas presentes em nossa jornada. Até mesmo o próximo cujas ideias possamos discordar, inesperadamente, pode representar o trampolim que precisamos para um olhar mais adiante, como aconteceu aqui.
O gatilho que fez com que a ideia ganhasse corpo e se cristalizasse de vez, veio de um livro defendendo a revisão de vários conceitos científicos importantes da codificação Kardequiana [2]. O livro faz uma crítica à pouca atenção que a comunidade espírita dá ao aspecto científico do espiritismo. A crítica é cordial e o autor, além de engenheiro, é trabalhador espírita de longa data, atendendo aos quesitos defendidos por Kardec para uma crítica séria [3]. Entretanto, apesar da boa intenção, com a qual inclusive concordo, o livro não está isento de algumas observações colocadas mais adiante. Há ainda um outro livro [4] que também acho importante comentar mais a frente. Cabe ressaltar, desde já, que os dois livros têm méritos, trazem boas informações e merecem reconhecimento. Devo inclusive gratidão ao autor da referência [2] por ter me inspirado este artigo. Minhas críticas, acredito, também seguem os quesitos de Kardec. Sou estudioso espírita há mais de 40 anos, tenho formação em física e fiz carreira profissional na área de pesquisa e desenvolvimento tecnológico. Mas, claro, isso não me isenta de possíveis e até desejáveis reparos.
Na verdade, a crítica, que neste caso prefiro chamar de um convite à reflexão, não é exclusiva aos livros mencionados. A referência [2] foi apenas um gatilho. Há várias correntes espíritas propondo revisão da obra Kardequiana. Há várias correntes espíritas cobrando maior atenção ao caráter científico do espiritismo. Há vários segmentos com diferentes interpretações doutrinárias. Há vários grupos que se deixaram envolver na lamentável cisão ideológica que tomou conta do Brasil e do mundo na última década. A diversidade de ideias é importante para o avanço da doutrina, mas só é positiva e edificante quando está aberta ao diálogo fraterno. Fora do diálogo o que temos é a fragmentação pura e simples do movimento espírita.
Kardec e os espíritos superiores que participaram da codificação são os gigantes sobre os quais nos apoiamos. Não era objetivo deles nos revelar tudo, muito pelo contrário, os espíritos deixaram claro que cabia a nós olhar para o futuro. Aliás, é bem esse o papel dos gigantes. Oferecerem o apoio para que vejamos mais longe. Por isso é que as propostas de revisão ou atualização da codificação, da forma como têm sido apresentadas, não procedem. O que nos cabe é expandir a base construída. Lançarmos novos tijolos sobre o alicerce cuidadosamente plantado. Não é só uma questão de respeito e preservação da memória histórica na qual, a duras penas, se lançaram essas fundações. É também uma questão de humildade intelectual. Se, na ansiedade de prestigiarmos a ciência espírita, começarmos a apontar equívocos ou lacunas científicas nas obras da codificação, absolutamente normais tendo em vista a época e o contexto de sua produção, transmitimos ao público a ideia equivocada de que os espíritos que assistiram ao codificador e o próprio Kardec não foram competentes o bastante para a tarefa.
É falta de lucidez de nossa parte e até falta de caridade querer que Kardec, em meados do século XIX, tivesse os conhecimentos que temos hoje. Quanto aos espíritos da codificação, registraram mais de uma vez que não nos revelariam o que era nossa tarefa descobrir. Em que sentido eles colaborariam com nossa evolução se nos adiantassem conhecimentos que poderiam ser alcançados por nós com nosso próprio esforço? Que contribuição dariam ao nosso progresso moral e intelectual se corrigissem todos os equívocos, frutos das ideias e dificuldades próprias do contexto social, político e científico da época?
Não é a doutrina que precisa de revisão. Somos nós que precisamos rever nossa atitude frente ao mundo, frente ao próximo e frente aos princípios fundadores da doutrina. Existe uma diferença sutil, mas muito importante entre rever textualmente uma obra e fazer uma releitura ou reinterpretação que permita transpor os ensinamentos originais ao contexto atual. Revisão é algo que cabe ao autor. Que sentido haveria em escrever um novo livro dos Espíritos textualmente revisado, por exemplo? Quem seria o autor? Qual seria o título honesto para este livro? Que ideia isso passaria ao público? Que havia um Livro dos Espíritos ultrapassado que não serve mais e agora temos um novo de outro autor que deve ser adotado? A intenção pode ser boa e acredito que seja na maior parte das vezes, mas é preciso pensar com cuidado nos possíveis desdobramentos e percepção pública de uma ação como essa.
Pense, por exemplo, na Bíblia, nos Vedas, em Platão, Aristóteles, Freud, Marx, Hegel, Santo Agostinho (encarnado) só para citar alguns. Alguém já ouviu falar em revisão ou atualização dessas obras clássicas, fundadoras de um pensamento? Isso não procede. O estudo e compreensão do espiritismo no contexto histórico de sua produção, é fundamental para o entendimento e aplicação atual de seus princípios. A dimensão histórica, seja no plano científico, filosófico ou moral dos conhecimentos espíritas, são parte desses conhecimentos. Não se pode descartá-los como se fossem roupa velha. Vejamos o exemplo do próprio Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo (ESE) foi uma releitura profunda e sistemática dos ensinamentos morais de Jesus, realizada por Kardec, à luz da filosofia espírita e não uma revisão textual dos Evangelhos canônicos. Isso está bem firmado por Kardec na introdução ao ESE [5], quando ele fala que o ensino moral de Jesus é inatacável e por isso foi escolhido como objeto de estudo doutrinário no ESE.
É este o procedimento que devemos aplicar ao espiritismo. Não se trata de entronizar Kardec ou os espíritos superiores que o assistiram. Trata-se de respeito, humildade e forma de mostrar ao público que o espiritismo é uma doutrina robusta, viva e totalmente aplicável à realidade atual, desde que bem estudada e interpretada. A reinterpretação ou releitura dos conhecimentos espíritas no âmbito científico ou filosófico no contexto atual é fundamental. Deve ser levada a sério por todo o movimento espírita. É importante que se escrevam artigos e livros fazendo essa releitura e reinterpretação. Eu mesmo, sistematicamente, venho reivindicando isso. Mas não cabe falar em revisão ou atualização textual da obra original. A força da doutrina espírita reside em sua coerência interna e na influência que exerceu sobre consciências em evolução, mais do que na conformidade com verdades absolutas ou relativas. Não se pode ignorar o contexto que dá sentido à doutrina. Acredito que seja bem nesse sentido que Herculano Pires externou seu pensamento que o Espiritismo era, e ainda é, o grande desconhecido dos próprios espíritas.
Até acredito que muita gente que fala em revisão ou atualização, no fundo, esteja manifestando um desejo ou necessidade legítimos de verem a doutrina dando resposta aos problemas da vida moderna. Trazendo o consolo de uma fé racional sobre a complexidade do momento. Isso é totalmente compreensível e justo. Sintonizar a doutrina com a realidade atual, como propôs o próprio Kardec na Gênese [6] é fundamental. Mas é preciso muito cuidado e discernimento com a forma como se aborda o problema. Kardec disse o seguinte:
“Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará”
Perceba, Kardec não propôs que a cada nova descoberta científica ou a cada nova questão filosófica, social ou política que surgisse, a codificação fosse revista ou atualizada. Ele próprio reviu e reeditou seus livros várias vezes, com muito critério e com a assistência e anuência dos espíritos superiores. Era um direito e até obrigação da parte dele. Era progressista e de mente aberta, mas sabia que novas descobertas não exigiriam a reescrita das obras. Deveriam ser acrescentadas em estudos paralelos, como revistas, artigos, ou obras complementares. A revista espírita, publicada mensalmente por ele, era justamente um espaço para debate, experimentação e revisão de ideias.
A proposta espírita do tríplice aspecto – religião, ciência e filosofia – deve ser compreendida como a vivência de uma fé racional, ou como uma religião que seja uma bússola ético-moral e não um dogma. A fé racional deve apoiar-se na ciência e na filosofia de forma que haja um equilíbrio entre esses três pilares. Isso é muito importante para nossa evolução. Muito embora o caráter religioso seja consolador e importante para muita gente, o movimento espírita não pode ignorar que o verdadeiro consolo e capacidade de superação das nossas dificuldades, emergem de uma profunda reflexão filosófica sobre o que somos nós, de onde viemos e para onde vamos.
É fundamental essa compreensão da vida em vez de uma aceitação cega das vicissitudes. Sem a base científica e filosófica essa compreensão é frágil. Ciência e filosofia devem caminhar juntas. A filosofia fornece um norte para a ciência que, por sua vez, alimenta a filosofia com novas questões conceituais e éticas. Por isso, a reinterpretação de aspectos científicos da codificação, deve apoiar-se também no exame filosófico da questão e do seu entorno. A fé raciocinada e a filosofia dão um sentido à nossa existência, a ciência nos ajuda a iluminar o caminho. É o famoso pensamento de Einstein: “A ciência sem religião é manca; a religião sem ciência é cega” [7]. O movimento espírita brasileiro precisa compreender bem esses preceitos e compreender bem o pensamento de Kardec. Não tem cabimento o engessamento da doutrina, mas também não tem cabimento revisões ou atualizações textuais. É necessário o estudo profundo e releitura da obra original dentro de novos contextos. A própria expressão revisão ou atualização têm um peso negativo quando se trata de obras clássicas como a codificação. Na resposta à questão 28 do Livro dos Espíritos, estes deixam muito claro que as palavras são a grande fonte de desentendimento entre nós encarnados. Kardec era extremamente cuidadoso com uso das palavras. É um exemplo que não deve ser ignorado.
Para ilustrar como esse cuidado é importante, vamos analisar dois casos com propostas de revisão de Kardec. Insisto, muito antes que uma crítica, quero fazer um convite à reflexão.
Nosso primeiro exemplo mostrando a importância de cuidado com propostas de revisão ou atualização da codificação espírita vem do livro, “O Livro dos Espíritos – A Obra Interminável” já mencionado na referência [4]. Na página da obra encontramos os dois parágrafos seguintes:
Esta obra, elaborada por espíritos encarnados e desencarnados, está estruturada em perguntas e respostas, notas explicativas e textos complementares, notas de rodapé e preces.
Destina-se a todos que desejam iniciar ou aprofundar seu vínculo com o Criador através da leitura instrutiva e reflexiva, da oração, da prática do amor e da caridade, do autoconhecimento e da busca constante por reforma íntima pessoal.
A obra aborda temas doutrinários interessantes e importantes. Objetiva, conforme expresso em sua introdução, complementar e somar-se à obra inicial, adaptando-se aos dias atuais. Mas o primeiro aspecto que chama a atenção e mancha um pouco essa ideia, é o formato da obra, a começar pelo título, “O Livro dos Espíritos” que, mesmo seguido pelo subtítulo “A Obra Interminável” causa um certo choque.
– Como assim? Existe um novo Livro dos Espíritos?
A obra replica integralmente o título base, a estrutura de seções, capítulos, e o formato de perguntas e respostas da obra original. Usa inclusive, de modo reestilizado, como separador, o ramo de oliveira usado na obra original. Embora haja mérito na proposta de tornar o conteúdo mais acessível por meio de linguagem atual e reflexões contemporâneas, a escolha editorial é questionável. Ao manter o título e a forma da obra original sem distinção clara entre codificação e uma reinterpretação, corre-se o risco de confundir o leitor menos informado quanto à autoria, à autoridade doutrinária e à natureza do conteúdo apresentado. A ausência de marcações explícitas indicando uma releitura ou reinterpretação do texto original, somada à apresentação como uma “atualização”, compromete a transparência editorial. Embora a “obra interminável” seja distribuída sob licença aberta e tenha intenção educativa, seria mais respeitoso com o legado kardecista que adotasse um título distinto e deixasse evidente sua condição de obra derivada, prestigiando a identidade e a integridade da codificação original. A clareza na apresentação é essencial para evitar a diluição da referência doutrinária e garantir que o leitor compreenda que se trata de uma proposta complementar, e não de substituição oficial.
Quanto ao conteúdo, a obra guarda coerência com o original, mas não sendo parte da codificação, deveria explicitar muito bem esse ponto. Há ao longo do livro muitas referências às obras básicas. Isso é muito positivo, mas deveria enfatizar melhor a importância do estudo da obra original. Os princípios fundamentais estão coerentes com o original. A exceção fica por conta do Consenso Universal do Ensino dos Espíritos. Na “Obra Interminável” fala-se do concurso de vários espíritos que também participaram da codificação dentre outros que não participaram. Isso é diferente do critério usado por Kardec, sendo assim, passível de questionamento. O livro deveria esclarecer melhor esse ponto. Kardec era extremamente cuidadoso com a clareza das ideias e dos termos utilizados.
Não procederemos com a análise detalhada da obra toda. Não caberia aqui. Mas alguns pontos merecem ser mostrados. A introdução destaca a moral, a consciência, o intelecto, o amor, a fé e a união como qualidades importantes a serem observadas por todo ser humano. Da mesma forma que Kardec, o amor e a caridade são enfatizados como virtudes essenciais. No prefácio, item I, a obra fala que após haver passado tanto tempo após o lançamento da obra original, a necessidade de atualização é evidente e irrevogável (grifo meu). Acrescenta no terceiro parágrafo o seguinte (grifo da própria obra interminável):
Sem contradizer o primeiro livro, e sim, complementando-o, um conjunto de espíritos superiores vem dar continuidade às obras básicas, em um texto simples e objetivo, com poder de síntese para facilitar o entendimento de todas as crenças, religiões e idades, trazendo, assim, novos adeptos à Doutrina, além de reavivar a fé daqueles que já fazem parte dela.
Percebe-se que, indiscutivelmente, a intenção é nobre, mas, admitindo ser um complemento, não deveria ter usado a expressão atualização evidente e irrevogável. Ninguém usaria esses termos com um texto clássico, como já mencionado. O item II do prefácio começa colocando que:
Sabemos que a grande maioria dos espíritas nasce através da curiosidade pela “paranormalidade” envolvida no desconhecido. Ela é o motor que impulsiona o espírito às descobertas e à busca de respostas.
É uma afirmação questionável. Sabemos que muitos confrades buscam o espiritismo por outros motivos, incluindo muitas vezes o desespero diante das vicissitudes sem resposta em outras doutrinas. Por isso não seria justo ignorarmos que a busca pela compreensão da vida e de tudo aquilo que nos transcende, também ocorre em outras doutrinas espiritualistas e reencarnacionistas além do espiritismo. O item IV do prefácio vem com uma mensagem assinada pelo espírito de Isaac Newton, recebida em Matão, SP em 11 de julho de 2019. Não cabe fazermos qualquer reparo na mensagem em si, pelo contrário, a mensagem enaltece o amor como a maior das leis. Apenas não há como sabermos se foi realmente Newton ou outro espírito.
Aliás, encontramos dispersos ao longo da introdução trechos e frases que, pelo estilo de linguagem, nos dão a impressão de serem oriundas dos espíritos, mas não há notas esclarecendo isso. No restante do prefácio, itens V e VI fala-se na importância da fé, da disciplina e do preparo para evoluir. Na sequência temos os prolegômenos que apontam os três pilares da evolução: o amor, a caridade e a fé, enfatizando que são pilares imutáveis e atemporais.
A partir daqui adentramos no conteúdo propriamente dito da obra que consiste de perguntas dos encarnados e respostas dos espíritos. Isso é explicado apenas na introdução. Kardec não deixava nenhuma dúvida ao longo de todo o Livro dos Espíritos original a autoria das perguntas e das respostas. Em meio às perguntas e respostas existem longos textos onde não fica claro a autoria. O capítulo I aborda questões gerais que, excetuando a ênfase dada à atualização, algumas vezes substituída pelo termo complementação, a meu ver, não trazem novidades. Apenas cabe citar um dado curioso. Na questão 13 temos a seguinte indagação:
P.: Com tantos trabalhadores esforçados como Chico Xavier, por que a escolha desta equipe imperfeita?
R.: Quem disse que esses trabalhadores também não fazem parte desta equipe? A vida não acaba no desencarne, muito menos o auxílio ao próximo.
É muito curioso essa pergunta e resposta. Evidentemente, pela data desta obra, editada em 2021, mas, ao que tudo indica, iniciada em 2018, a pergunta refere-se à equipe espiritual, pois Chico Xavier desencarnou em 2002. Mas se a equipe é de espíritos que participaram da codificação original, auxiliados por outros que não participaram, mas, por hipótese natural, de similar estatura, por que a pergunta se refere a uma equipe imperfeita? E por que a equipe não seria tão esforçada quanto Chico Xavier? E por que a equipe espiritual insinua que Chico faz parte da equipe e por isso ela não é tão imperfeita? São pontos que merecem atenção.
O capítulo II inicia-se com uma mensagem assinada por Sócrates e fala das cinco mudanças energéticas da humanidade, quatro que já ocorreram e uma quinta que será a colocação em prática efetiva de tudo que, em teoria, já sabemos sobre o amor e a caridade. Essa colocação simbólica em termos de mudanças energéticas não é empregada na codificação original. Entretanto a codificação original contempla a evolução da humanidade através de sucessivas reencarnações nas quais os espíritos atravessam diversas fases desde os imperfeitos ou primitivos até os espíritos puros. Desse modo, não parece haver ganho de entendimento com a mudança de linguagem, até porque a ciência acadêmica não reconhece essas interpretações espiritualistas de energia. Essa abordagem acaba ensejanddo afastamento em lugar de aproximação com a ciência. Vale dizer que existe pesquisa acadêmica e dados efetivos em torno do processo reencarnatório por trás da evolução do espírito [8].
Isso indica que, embora ainda timidamente, o espiritismo tem iniciativas de diálogo com a ciência dentro das premissas propostas por Kardec. E isso ocorre sem necessidade de nenhuma atualização, revisão ou inserção desnecessária e precipitada de terminologia científica em meio a conceitos espíritas.
No item II, capítulo II, fala-se na evolução do princípio espiritual através dos reinos mineral, vegetal e animal. Ou seja, mantêm o mesmo entendimento da época de Kardec. Mas sendo a “obra interminável” uma proposta atualizadora, deveria ter clareado e contextualizado esse ponto dentro da compreensão da moderna biologia, como vem sendo feito por estudiosos espíritas [9]. E, de novo, sem falar e revisão ou atualização da codificação.
Os itens de III ao VI do capítulo II fala das descobertas científicas do século XX tais como, antimatéria, dualidade onda partícula (física quântica), genoma humano, buracos de minhoca (atalhos no espaço-tempo), tempo, gravidade e expansão do universo. Fala do perispírito, de vibrações e energia, teoria das cordas e ação do pensamento. São temas importantes na fronteira da ciência. A compreensão de vários desses temas não está ao alcance de todos. Requer conhecimentos mais avançados de física. Isso acaba contradizendo a proposta da obra de se colocar ao alcance de todos. Por outro lado, a bem da verdade, a compreensão desses temas não traz ganho para a compreensão do espiritismo. Além disso, como já dito acima, a inserção precipitada de terminologia técnica atual dentro de temas doutrinários é questionável e não é reconhecido pela ciência acadêmica. Acaba por afastar a ciência em lugar de aproximá-la do espiritismo.
Não seguiremos adiante analisando o restante da obra que, tem sim, muitos pontos interessantes e importantes que merecem leitura. Mas o objetivo da obra de suprir a lacuna científica entre a codificação original e a atualidade não me pareceu ter sido atingido. A inserção de conceitos científicos modernos dentro da doutrina, por sí só, não traz ganho efetivo para a compreensão do espiritismo. Além disso, o diálogo entre ciência e espiritismo ou entre o espiritismo e a realidade atual não requer atualização ou revisão textual da codificação. Apesar das inegáveis qualidades e boa intenção da obra, sua proposta científica ficou comprometida, justamente por falta de rigor científico. A codificação original de Allan Kardec também aborda temas que tangenciam ciência, filosofia e espiritualidade, mas com uma abordagem mais criteriosa e metodológica. Kardec tinha o cuidado de separar claramente o que era doutrina espírita, o que era hipótese filosófica, e o que pertencia ao campo da ciência empírica. Por isso a codificação original não deve ser textualmente revisada ou atualizada, mas pode e deve beneficiar-se com releituras ou reinterpretações criteriosas de aspectos científicos e filosóficos à luz dos avanços do século XXI. Há uma diferença muito importante entre essas duas abordagens.
Voltemos agora nossa atenção à obra mencionada na referência [2] que inspirou este artigo. O livro intitula-se “Uma Breve História do Espírito”. No capítulo introdutório, o autor apresenta sua motivação para escrever o livro, unindo ciência e espiritismo, destacando a importância de revisar conceitos espíritas à luz dos avanços científicos do século XXI. Proposta esta que poderia ser apresentada de forma diferente como uma releitura ou reinterpretação. Mas devo ressaltar que o autor, na prática, fez uma reinterpretação de conceitos e ideias e não uma revisão textual. E isso é muito positivo. Apenas insisto na importância de se cuidar com a forma como se apresenta o objetivo da obra.
Na opção revisionista ou atualizadora, seja intencional ou não, acaba transparecendo a ideia de substituição da versão original por uma nova melhor. Na segunda opção, reconhece-se a necessidade de uma reinterpretação ou releitura dentro do contexto atual, mas sem abandono do trabalho original que reflete o momento histórico de seu nascimento. Os conceitos científicos e filosóficos na obra original estavam conforme o contexto histórico de sua produção. Não se pode considerá-los errados por não se ajustarem bem aos avanços científicos do século XXI. A releitura é uma posição não só mais respeitosa como mais racional pois a verdade científica de hoje pode ser o grande equívoco de amanhã.
O capítulo 2 do livro intitula-se “Modelo Cosmológico Espírita Possível”. Aqui, na expectativa de compatibilizar a ciência espírita com a cosmologia física, o autor acaba por entrar em contradição com os dois campos. Precisaremos analisar com calma essa questão. Não culpo o autor. A questão é realmente complexa e qualquer descuido pode facilmente nos conduzir a contradições. O autor parte da premissa metafísica da existência de Deus, princípio fundamental no espiritismo, e da premissa física do Big Bang [10] que, por enquanto, é o melhor modelo que temos para explicar a origem física do universo.
Do lado da doutrina espírita, temos como princípio fundamental a existência de Deus, causa primária de tudo que existe. Nas questões de 10 a 14 do Livro dos Espíritos, estes deixam claro nossa total incapacidade de compreender Deus. Na melhor das hipóteses podemos tentar compreendê-lo como eterno e infinito em todas as suas perfeições. É aqui que surge a contradição na abordagem do autor. A premissa que Deus criou espírito e matéria ao mesmo tempo no Big Bang não se sustenta. O Big Bang foi um evento físico ocorrido a 13,8 bilhões de anos atrás, segundo as melhores estimativas. Mas se Deus é eterno (eternidade é um conceito metafísico de tempo), 13,8 bilhões de anos é a mesma coisa que nada. Tudo bem que para o modelo do Big Bang o tempo também teve início com o evento. Por isso, para os físicos, não faz sentido perguntar o que houve antes do Big Bang. Mas isso não impede que, pela lei de causa e efeito, haja especulações.
Deus sendo eterno e criador de tudo que existe, inclusive do tempo, também exclui a possibilidade de existir um tempo antes da criação. Mas Deus eterno, atemporal, não pode ser comparado com 13,8 bilhões de anos do Big Bang que é um tempo físico mensurável. São conceitos incompatíveis. Isso nos deixa com uma grande complicação. Ou Deus existe de todo o sempre antes do Big Bang e cria desde sempre ou, se a criação começou há 13,8 bilhões de anos, não podemos falar em Deus nem em criação simultânea do espírito e da matéria. Pode-se até supor a criação Divina da matéria no Big Bang, mas não do espírito, pois isso implicaria que antes do Big Bang Deus era inativo.
Percebe-se que a saída desse problema só pode ser a abordagem espírita de Deus eterno criando desde sempre e, portanto, o Big Bang, possivelmente, foi início de um dentre muitos outros universos anteriores fora do alcance de nosso entendimento. Aliás, essa é uma das várias especulações que os cosmólogos fazem relativamente às tentativas de compreender os instantes iniciais ou a causa do Big Bang.
Do lado da cosmologia física, não existe a premissa Deus. Não é possível associar a ação de nenhum criador ou ação criadora ao evento Big Bang, como adotado pelo autor. Para a física, a premissa mais honesta possível é que o Big Bang foi um evento puramente probabilístico ocorrido há 13,8 bilhões de anos, sem uma causa passível de identificação além de uma hipotética singularidade quântica que deu origem à expansão. Por isso, a tentativa de acomodar uma possível cosmologia espírita com a cosmologia física não faz sentido. Talvez o autor tenha usado o termo, possível cosmologia espírita, na tentativa de compatibilizar a criação na ótica espírita com a origem física do universo, na qual não cabe o termo criação.
No restante do livro, debaixo da premissa de que espírito e matéria foram criados ao mesmo tempo no Big Bang há 13,8 bilhões de anos, o autor infere que o princípio espiritual precisou aguardar mais de 10 bilhões de anos, a partir do Big Bang [11], para iniciar sua evolução em um organismo vivo. Não vamos analisar a evolução biológica da vida na Terra. Este trabalho, desenvolvido por Darwin e Wallace tem muitas referências virtuais e também está bem descrito pelo próprio autor em tela, dentre outros [12]. Mas, independentemente de boas intenções, vê-se que a aproximação entre ciência e espiritismo, diga-se, necessária e importante, requer cautela para que não nos percamos em especulações infundadas tanto do lado da doutrina quanto do lado da ciência. Antes de encerrarmos, vale enfatizar que as obras analisadas acima têm mérito, até como uma provocação, para que o movimento espírita busque se abrir mais ao diálogo entre todos os seus adeptos.
Para concluir, é importante perceber que, não apenas são válidas e muito bem-vindas as iniciativas de releitura ou reinterpretação dos conceitos espíritas no contexto atual, como são essenciais para o progresso do espírito, do espiritismo e do próprio planeta. É patente o formidável avanço científico e tecnológico no século XX e início do século XXI. Seria tolice imaginar que os conceitos científicos abordados na obra original de Kardec sejam dogmas irretocáveis. É claro que não são. Nada mais natural e desejável que esses conceitos sejam revisitados e reinterpretados à luz dos conhecimentos atuais. As referências [13, 14] ilustram bem essa abordagem. Jamais caberia uma revisão textual ou edição de um novo livro dos espíritos ou de uma nova gênese espírita. Os documentos originais espelham o conhecimento da época, têm importância histórica e jamais serão obsoletos se examinados sob esta ótica. É obra de gigantes. Nos dão apoio e nos permitem ver mais longe. É esta e não outra a mensagem do espírito de Verdade: Espíritas. Amai-vos, eis o primeiro ensino. Instrui-vos, eis o segundo.
Referências:
[1] Sobre os ombros de gigantes. Artigo da Wikipédia. Acessado em 10 de agosto de 2025.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Sobre_os_ombros_de_gigantes
[2] Machado, Alexandre Cardia. Uma Breve História do Espírito. Livro disponível no site do CCEPA, Centro Cultural Espírita de Porto Alegre. Acesso em 13 de agosto de 2025.
https://ccepa.org.br/noticias/conexoes-espiritas-de-onde-viemos-e-a-busca-por-planetas-habitados/
Há também uma palestra sobre o tema aqui: https://www.youtube.com/watch?v=Fj5ZKPiJoyk
[3] Kardec, Allan, O que é o espiritismo. Em meio ao diálogo com o crítico, Kardec faz a seguinte colocação: “É de lógica elementar que o crítico conheça, não superficialmente, mas, a fundo, aquilo de que fala, sem o que, sua opinião não tem valor”. Acesso em 14 de agosto de 2025.
[4] O Livro dos Espíritos – A Obra Interminável. Autores diversos encarnados e desencarnados. Acesso em 17 de agosto de 2025.
https://aobrainterminavel.com.br/pt/home
[5] Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Introdução, item I. Acessado em 17 de agosto de 2025.
[6] Kardec, Allan. A Gênese, Cap. 1 item 55. Acesso em 14 de agosto de 2025.
[7] Einstein, Albert. Science and Religion. A frase aparece em inglês no final do 4.o parágrafo do tópico “Science and Religion II” relativo ao simpósio “Science, Philosophy and Religion, A Symposium, 1941”. Acesso em 14 de agosto de 2025.
https://www.sacred-texts.com/aor/einstein/einsci.htm
[8] Cruz, Reinaldo Soares. Uma contribuição sobre Ian Stevenson – Cientista, pesquisador de reencarnações. Acesso em 18 de agosto de 2025.
https://www.chicoxavieramericana.com.br/ian-stevenson-cientista-pesquisador-de-reencarnacoes/
[9] Terini, Ricardo A. Espiritismo e evolução do princípio inteligente – Três Reinos? Acesso em 19 de agosto de 2025.
https://sites.google.com/site/jeespiritas/volumes/volume-8—2020/resumo—art-n-010205
[10] A Teoria do Big Bang. Site Brasil Escola. Acesso em 14 de agosto de 2025.
https://brasilescola.uol.com.br/geografia/big-bang.htm
[11] Estima-se que o planeta Terra surgiu há 4,5 bilhões de anos e a vida na Terra entre 3,5 e 4 bilhões de anos atrás. Desse modo, sob a hipótese de que vida biológica como a conhecemos só exista na Terra, em relação ao Big Bang, a vida surgiu no universo quando este já contava com mais de 10 bilhões de anos. Acesso em 19 de agosto de 2025.
https://mundoeducacao.uol.com.br/geografia/as-evolucoes-terra-dos-seres-vivos.htm
[12] Cianponi, Durval. Evolução do Princípio Inteligente. Acesso em 20 de agosto de 2025.
https://www.amazon.com.br/A-Evolu%C3%A7%C3%A3o-do-Princ%C3%ADpio-Inteligente/dp/857366066X
[13] Xavier, Ademir. Comentários sobre “Uranografia geral” de “A Gênese” de A. Kardec. Acesso em 20 de agosto de 2025.
https://eradoespirito.blogspot.com/p/livros-do-blog.html
[14] Moraes, Elias. Constextualizando Kardec do século XIX ao século XXI.Acesso em 20 de agosto de 2025.
https://www.amazon.com.br/Contextualizando-KARDEC-s%C3%A9culo-XIX-XXI-ebook/dp/B08KPKVYRH
https://www.youtube.com/watch?v=vngIXwTH4Qo