por Nubor Orlando Facure.
Hoje atendi o Leozinho,
19 anos, com diagnóstico de autismo.
Veio de Minas com a avó e o irmão mais novo, de 11 anos.
Extremamente agitado, não consigo nenhum contato com ele.
Tento abraçá-lo, e ele se afasta.
Anda pela sala, inquieto.
O irmão menor é um protetor carinhoso, lida com o Leo com a facilidade de um pai.
A vida aproxima essas almas, mostrando o amparo da Misericórdia Divina nas horas difíceis.
Depois veio o Lucas, com 22 anos. Tem autismo e sofre convulsões graves a cada três dias.
O Lucas veio com o pai, que trabalha à noite num estacionamento, e, nesse período, são os dois irmãos que o vigiam.
A perua da APAE pega o Lucas toda manhã, e lá ele passa o dia com as terapeutas, um trabalho sagrado que merece nossos eternos agradecimentos.
Há dois anos os pais do Lucas se separaram.
É a primeira vez que vejo a mãe seguir outro caminho e desistir dos cuidados de um filho.
O herói do Lucas agora é o seu Gaspar, seu tio, que trabalha numa construção de casas populares.
Ele adora ir, sempre que pode, com esse tio até as obras.
Nunca faço qualquer julgamento sobre quem ajuda, quem se omite ou quem abandona o compromisso.
O direito de corrigir o mundo e as pessoas pertence a Jesus.
Toda noite eu tenho uma lista de pais e avós para pedir que Deus não os esqueça.
O terceiro caso é de Mogi.
É também um autista: o Carlos, que está hoje com 14 anos.
Ele assenta à minha frente, lidando com um tablet.
Não ergue os olhos.
Não nota minha presença.
A mãe diz que não consegue controlar a violência do filho.
Mostra-me o ombro dela, com marcas de uma mordida do filho.
Com a medicação, o apetite aumentou muito, e ninguém consegue mais segurá-lo.
Ele agride os avós, idosos e doentes, colocando-os em risco.
A única coisa que o acomoda é o tablet, onde ele assiste a joguinhos por horas seguidas.
Tem um detalhe: ele troca tudo por uma visita ao McDonald’s.
No finalzinho da consulta, a mãe faz um desabafo:
“O que será que eu fiz? Onde foi que errei para Deus me castigar tanto?”
Lição de casa
Há espíritos que passam séculos aguardando uma oportunidade de redenção.
A bênção do recomeço vai lhes permitir, nos termos de um resgate doloroso, retomar as trilhas do bem.
Quase sempre Deus possibilita que a tutela de anjos, configurados nas mães, os acompanhe para não fracassarem.
Não é a salvação do futuro, nem a purgação do passado.
É a construção de novos trilhos para alinhar a evolução.
Noutra veste.
Noutros termos.
Novas lições.
Novo aprendizado.
Novos propósitos.
E abençoadas conquistas.

