| O LIVRO DOS ESPÍRITOS |
Criou
o Universo, que compreende todos os seres animados e inanimados, materiais
e imateriais.
Os
seres materiais constituem o mundo visível ou corporal e os seres
imateriais o mundo invisível ou espírita, ou seja, dos Espíritos.
O
mundo espírita é o mundo normal, primitivo, eterno, preexistente
e sobrevivente a tudo.
O
mundo corporal é secundário; poderia deixar de existir ou
nunca ter existido, sem alterar a essência do mundo espírita.
Os
Espíritos revestem temporariamente um invólucro material
perecível e sua destruição pela morte os devolve à
liberdade.
Entre
as diferentes espécies de seres corporais. Deus escolheu a espécie
humana para a encarnação dos Espíritos que chegaram
a um certo grau de desenvolvimento, o que lhe dá superioridade moral
e intelectual ante as demais.
A
alma é um espírito encarnado, e o corpo apenas o seu invólucro.
Há
no homem três coisas: lº) O corpo ou ser material, semelhante
ao dos animais e animado pelo mesmo princípio vital; 2º) A
alma ou ser imaterial, espírito encarnado no corpo; 3º) O laço
que une a alma ao corpo, princípio intermediário entre a
matéria e o Espírito.
O
homem tem assim duas naturezas: pelo corpo participa da natureza dos animais,
dos quais possui os instintos; pela alma participa da natureza dos Espíritos.
O
laço ou perispírito que une corpo e Espírito
é uma espécie de invólucro semimaterial. A morte é
a destruição do invólucro mais grosseiro. O Espírito
conserva o segundo, que constitui para ele um corpo etéreo, invisível
para nós no seu estado normal, mas que ele pode tornar acidentalmente
visível e mesmo tangível, como se verifica nos fenômenos
de aparição.
O
Espírito não é, portanto, um ser abstrato, indefinido,
que só o pensamento pode conceber. É um ser real, definido,
que em certos casos pode ser apreendido pelos nossos sentidos da vista,
da audição e do tato.
Os
Espíritos pertencem a diferentes classes, não sendo iguais
em poder nem em inteligência, saber ou moralidade. Os da primeira
ordem são os Espíritos Superiores que se distinguem pela
perfeição, pelos conhecimentos e pela proximidade de Deus,
pela pureza dos sentimentos e o amor do bem: são os anjos ou Espíritos
puros. As demais classes se distanciam mais e mais desta perfeição.
Os das classes inferiores são inclinados às nossas paixões:
o ódio, a inveja, o ciúme, o orgulho, etc. e se comprazem
no mal. Nesse número há os que não são nem
muito bons, nem muito maus; antes, perturbadores e intrigantes do que maus;
a malícia e a inconseqüência parecem ser as suas características:
são os Espíritos estouvados ou levianos.
Os
Espíritos não pertencem eternamente à mesma ordem.
Todos melhoram, passando pelos diferentes graus da hierarquia espírita.
Esse melhoramento se verifica pela encarnação, que a uns
é imposta como uma expiação, a outros como missão.
A vida material é uma prova a que devem submeter-se repetidas vezes
até atingirem a perfeição absoluta; é uma espécie
de peneira ou depurador de que eles saem mais ou menos purificados.
Deixando
o corpo, a alma volta ao mundo dos Espíritos, de que havia saído
para reiniciar uma nova existência material, após um lapso
de tempo mais ou menos longo durante o qual permanecerá no estado
de espírito errante[1].
Devendo
o Espírito passar por muitas encarnações, conclui-se
que todos nós tivemos muitas existências e que teremos outras,
mais ou menos aperfeiçoadas, seja na Terra ou em outros mundos.
A
encarnação dos Espíritos ocorre sempre na espécie
humana. Seria um erro acreditar que a alma ou espírito pudesse encarnar
num corpo de animal.
As
diferentes existências corporais do Espírito são sempre
progressivas e jamais retrógradas, mas a rapidez do progresso depende
dos esforços que fazemos para chegar à perfeição.
As
qualidades da alma são as do Espírito encarnado. Assim, o
homem de bem é a encarnação de um bom Espírito
e o homem perverso a de um Espírito impuro.
A
alma tinha a sua individualidade antes da encarnação e a
conserva após a separação do corpo.
No
seu regresso ao mundo dos Espíritos a alma reencontra todos os que
conheceu na Terra e todas as suas existências anteriores se delineiam
na sua memória, com a recordação de todo o bem e todo
o mal que tenha feito.
O
Espírito encarnado está sob a influência da matéria.
O homem que supera essa influência, pela elevação e
purificação de sua alma, aproxima-se dos bons Espíritos
com os quais estará um dia. Aquele que se deixa dominar pelas más
paixões e põe todas as suas alegrias na satisfação
dos apetites grosseiros aproxima-se dos Espíritos impuros, dando
preponderância à natureza animal.
Os
Espíritos encarnados habitam os diferentes globos do Universo.
Os
Espíritos não-encarnados ou errantes não ocupam nenhuma
região determinada ou circunscrita; estão por toda parte,
no espaço e ao nosso lado, vendo-nos e acotovelando-nos sem cessar.
É toda uma população invisível que se agita
ao nosso redor.
Os
Espíritos exercem sobre o mundo moral e mesmo sobre o mundo físico
uma ação incessante. Agem sobre a matéria e sobre
o pensamento e constituem uma das forças da Natureza, causa eficiente
de uma multidão de fenômenos até agora inexplicados
ou mal explicados, que não encontram solução racional.
As
relações dos Espíritos com os homens são constantes.
Os bons Espíritos nos convidam ao bem, nos sustentam nas provas
da vida e nos ajudam a suportá-las com coragem e resignação;
os maus nos convidam ao mal: é para eles um prazer ver-nos sucumbir
e cair no seu estado.
As
comunicações ocultas verificam-se pela influência boa
ou má que eles exercem sobre nós sem o sabermos, cabendo
ao nosso julgamento discernir as más e boas inspirações.
As comunicações ostensivas realizam-se por meio da escrita,
da palavra ou de outras manifestações materiais, na maioria
das vezes através dos médiuns que lhes servem de instrumento.
Os
Espíritos se manifestam espontaneamente ou pela evocação.
Podemos evocar todos os Espíritos: os que animaram homens obscuros
e os dos personagens mais ilustres, qualquer que seja a época em
que tenham vivido; os de nossos parentes, de nossos amigos ou inimigos
e deles obter, por comunicações escritas ou verbais, conselhos,
informações sobre a situação em que se acham
no espaço, seus pensamentos a nosso respeito, assim como as revelações
que lhes seja permitido fazer-nos.
Os
Espíritos são atraídos na razão de sua simpatia
pela natureza moral do meio que os evoca. Os Espíritos superiores
gostam das reuniões sérias em que predominem o amor do bem
e o desejo sincero de instrução e de melhoria. Sua presença
afasta os Espíritos inferiores, que encontram, ao contrário,
livre acesso e podem agir com inteira liberdade entre as pessoas frívolas
ou guiadas apenas pela curiosidade e por toda parte onde encontrem maus
instintos. Longe de obtermos bons conselhos e informações
úteis desses Espíritos, nada mais devemos esperar do que
futilidades, mentiras, brincadeiras de mau gosto ou mistificações,
pois freqüentemente se servem de nomes veneráveis para melhor
nos induzirem ao erro.
Distinguir
os bons e os maus Espíritos é extremamente fácil.
A linguagem dos Espíritos superiores é constantemente digna,
nobre, cheia da mais alta moralidade, livre de qualquer paixão inferior,
seus conselhos revelam a mais pura sabedoria e têm sempre por alvo
o nosso progresso e o bem da Humanidade. A dos Espíritos inferiores,
ao contrário, é inconseqüente, quase banal e mesmo grosseira;
se dizem às vezes coisas boas e verdadeiras, dizem com mais freqüência
falsidades e absurdos, por malícia ou por ignorância; zombam
da credulidade e divertem-se à custa dos que os interrogam, lisonjeando-lhes
a vaidade e embalando-lhes os desejos com falsas esperanças. Em
resumo, as comunicações sérias, na perfeita acepção
do termo, não se verificam senão nos centros sérios,
cujos membros estão unidos por uma íntima comunhão
de pensamentos dirigidos para o bem.
A
moral dos Espíritos superiores se resume, como a do Cristo, nesta
máxima evangélica: "Fazer aos outros o que desejamos que
os outros nos façam", ou seja, fazer o bem e não o mal. O
homem encontra nesse princípio a regra universal de conduta, mesmo
para as menores ações.
Eles
nos ensinam que o egoísmo, o orgulho, a sensualidade são
paixões que nos aproximam da natureza animal, prendendo-nos à
matéria: que o homem que, desde este mundo, se liberta da matéria
pelo desprezo das futilidades mundanas e o cultivo do amor ao próximo,
aproxima-se da natureza espiritual; que cada um de nós deve tornar-se
útil segundo as faculdades e os meios que Deus nos colocou nas mãos
para nos provar; que o Forte e o Poderoso devem apoio e proteção
ao Fraco, porque aquele que abusa da sua força e do seu poder para
oprimir o seu semelhante viola a lei de Deus. Eles ensinam, enfim, que
no mundo dos Espíritos nada pode estar escondido: o hipócrita
será desmascarado e todas as suas torpezas reveladas; a presença
inevitável e incessante daqueles que prejudicamos é um dos
castigos que nos estão reservados; ao estado de inferioridade e
de superioridade dos Espíritos correspondem penas e alegrias que
nos são desconhecidas na Terra.
Mas
eles nos ensinam também que não há faltas irremissíveis,
que não possam ser apagadas pela expiação. O homem
encontra o meio necessário nas diferentes existências, que
lhe permitem avançar, segundo o seu desejo e os seus esforços,
na via do progresso, em direção à perfeição
que é o seu objetivo final."
A oposição
das corporações científicas é, para muita gente,
senão uma prova, pelo menos uma forte presunção contrária.
Não somos dos que levantam a voz contra os sábios, pois não
queremos dar motivo a nos chamarem de estouvados; temo-los, pelo contrário,
em grande estima e ficaríamos muito honrados se fôssemos contados
entre eles. Entretanto, sua opinião não poderia representar,
em todas as circunstâncias, um julgamento irrevogável.
Quando
a Ciência sai da observação material dos fatos e trata
de apreciá-los e explicá-los, abre-se para os cientistas
o campo das conjecturas: cada um constrói o seu sistemazinho, que
deseja fazer prevalecer e sustenta encarniçadamente. Não
vemos diariamente as opiniões mais contraditórias serem preconizadas
e rejeitadas, repelidas como erros absurdos e depois proclamadas como verdades
incontestáveis? Os fatos, eis o verdadeiro critério dos nossos
julgamentos, o argumento sem réplica. Na ausência dos fatos,
a dúvida é a opinião do homem prudente.
No
tocante às coisas evidentes, a opinião dos sábios
é justamente digna de fé, porque eles as conhecem mais e
melhor que o vulgo. Mas no tocante a princípios novos, a coisas
desconhecidas, a sua maneira de ver não é mais do que hipotética,
porque eles não são mais livres de preconceitos que os outros.
Direi mesmo que o sábio terá, talvez, mais preconceitos que
qualquer outro, pois uma propensão natural o leva a tudo subordinar
ao ponto de vista de sua especialidade: o matemático não
vê nenhuma espécie de prova, senão através de
uma demonstração algébrica, o químico relaciona
tudo com a ação dos elementos, e assim por diante. Todo homem
que se dedica a uma especialidade escraviza a ela as suas idéias.
Afastai-o do assunto e ele quase sempre se confundirá, porque deseja
tudo submeter ao seu modo de ver; é esta uma conseqüência
da fragilidade humana. Consultarei, portanto, de bom grado e com absoluta
confiança, um químico sobre uma questão de análise;
um físico sobre a força elétrica; um mecânico
sobre a força motriz; mas eles me permitirão, sem que isto
afete a estima que lhes devo por sua especialização, que
não tenha em melhor conta a sua opinião negativa sobre o
Espiritismo do que a de um arquiteto sobre questões de música.
As
ciências comuns se apóiam nas propriedades da matéria,
que pode ser experimentada e manipulada à vontade; os fenômenos
espíritas se apóiam na ação de inteligências
que têm vontade própria e nos provam a todo instante não
estarem submetidas ao nosso capricho. As observações, portanto,
não podem ser feitas da mesma maneira, num e noutro caso. No Espiritismo
elas requerem condições especiais e outra maneira de encará-las:
querer sujeitá-las aos processos ordinários de investigação,
seria estabelecer analogias que não existem. A Ciência propriamente
dita, como Ciência, é incompetente para se pronunciar sobre
a questão do Espiritismo: não lhe cabe ocupar-se do assunto
e seu pronunciamento a respeito, qualquer que seja, favorável ou
não, nenhum peso teria.
O
Espiritismo é o resultado de uma convicção pessoal
que os sábios podem ter como indivíduos, independente de
sua condição de sábios. Querer, porém, deferir
a questão à Ciência seria o mesmo que entregar a uma
assembléia de físicos ou astrônomos a solução
do problema da existência da alma. Com efeito, o Espiritismo repousa
inteiramente sobre a existência da alma e o seu estado após
a morte. Ora, é supinamente ilógico pensar que um homem deve
ser grande psicólogo pelo simples fato de ser grande matemático
ou grande anatomista. O anatomista, dissecando o corpo humano, procura
a alma e porque não a encontra com o seu bisturi, como se encontrasse
um nervo, ou porque não a vê evolar-se como um gás,
conclui que ela não existe. Isto, em razão de colocar-se
num ponto de vista exclusivamente material. Segue-se daí que ele
esteja com a razão, contra a opinião universal? Não.
Vê-se, portanto, que o Espiritismo não é da alçada
da Ciência.
Quando
as crenças espíritas estiverem vulgarizadas, quando forem
aceitas pelas massas, o que, a julgar pela rapidez com que se propagam,
não estaria muito longe, dar-se-á com elas o que se tem dado
com todas as idéias novas que encontraram oposição:
os sábios se renderão à evidência. Eles as aceitarão
individualmente, pela força das circunstâncias. Até
que isso aconteça, seria inoportuno desviá-los de seus trabalhos
especiais para constrangê-los a ocupar-se de coisa estranha, que
não está nas suas atribuições nem nos seus
programas. Enquanto isso, os que, sem estudo prévio e aprofundado
da questão, pronunciam-se pela negativa e zombam dos que não
concordam com a sua opinião, esquecem que o mesmo aconteceu com
a maioria das grandes descobertas que honram a Humanidade. Arriscam-se
a ver os seus nomes aumentando a lista dos ilustres negadores das idéias
novas, inscritos ao lado dos membros da douta assembléia que, em
1752, recebeu com estrondosa gargalhada o relatório de Franklin
sobre os pára-raios, julgando-o indigno de figurar entre as comunicações
da pauta, e daquela outra que fez a França perder as vantagens da
navegação a vapor ao declarar o sistema de Fulton um sonho
impraticável. Não obstante, eram questões de alçada
da Ciência. Se essas assembléias, que contavam com os maiores
sábios do mundo, só tiveram zombaria e sarcasmo para as idéias
que ainda não compreendiam e que alguns anos mais tarde deviam revolucionar
a Ciência, os costumes e a indústria, como esperar que uma
questão estranha aos seus trabalhos possa ser melhor aceita?
Esses
erros lamentáveis não tirariam aos sábios, entretanto,
os títulos com que, noutros assuntos, conquistam o nosso respeito.
Mas é necessário um diploma oficial para se ter bom senso?
E fora das cátedras acadêmicas não haverá mais
do que tolos e imbecis? Basta olhar para os adeptos da doutrina espírita,
para se ver se entre eles só existem ignorantes e se o número
imenso de homens de mérito que a abraçaram permite que a
releguemos ao rol das simples crendices. O caráter e o saber desses
homens autorizam-nos a dizer: pois se eles o afirmam, deve pelo menos haver
alguma coisa.
Repetimos
ainda que, se os fatos de que nos ocupamos estivessem reduzidos ao movimento
mecânico dos corpos, a pesquisa da causa física do fenômeno
seria do domínio da Ciência; mas desde que se trata de uma
manifestação fora do domínio das leis humanas, escapa
à competência da Ciência material porque não
pode ser explicada por números, nem por forças mecânicas.
Quando surge um fato novo, que não se enquadra em nenhuma Ciência
conhecida, o sábio, para o estudar, deve fazer abstração
de sua ciência e dizer a si mesmo que se trata de um estudo novo,
que não pode ser feito com idéias preconcebidas.
O
homem que considera a sua razão infalível está bem
próximo do erro; mesmo aqueles que têm as mais falsas idéias
apoiam-se na própria razão e é por isso que rejeitam
tudo quanto lhes parece impossível. Os que ontem repeliram as admiráveis
descobertas de que a Humanidade hoje se orgulha, apelaram a esse juiz para
as rejeitar. Aquilo que chamamos razão é quase sempre o orgulho
mascarado e quem quer que se julgue infalível coloca-se como igual
a Deus. Dirigimo-nos, portanto, aos que são bastante ponderados
para duvidar do que não viram, e julgando o futuro pelo passado,
não acreditam que o homem tenha chegado ao apogeu nem que a Natureza
lhes tenha virado a última página do seu livro.
Acrescentemos
que o estudo de uma doutrina como a espírita, que nos lança
de súbito numa ordem de coisas tão nova e grande, não
pode ser feito proveitosamente senão por homens sérios, perseverantes,
isentos de prevenções e animados de uma firme e sincera vontade
de chegar a um resultado. Não podemos classificar assim aos que
julgam a priori, levianamente, sem terem visto tudo: os que não
imprimem aos seus estudos nem a continuidade, nem a regularidade e o recolhimento
necessários; e menos ainda aos que para não diminuírem
a sua reputação de homens de espírito, esforçam-se
por encontrar um lado burlesco nas coisas mais verdadeiras ou assim consideradas
por pessoas cujo saber, caráter e convicções merecem
a consideração dos que se prezam de urbanidade. Que se abstenham,
portanto, os que não julgam os fatos dignos de sua atenção;
ninguém pretende violentar-lhes a crença, mas que eles também
saibam respeitar as dos outros.
O
que caracteriza um estudo sério é a continuidade. Devemos
admirar-nos de não obter respostas sensatas a perguntas naturalmente
sérias, quando as fazemos ao acaso e de maneira brusca, em meio
a perguntas ridículas? Uma questão complexa requer, para
ser esclarecida, perguntas preliminares ou complementares. Quem quer adquirir
uma Ciência deve estudá-la de maneira metódica, começando
pelo começo e seguindo o seu encadeamento de idéias. Aquele
que propõe a um sábio, ao acaso, uma questão sobre
Ciência de que ignora os rudimentos, obterá algum proveito?
O próprio sábio poderá, com a maior boa vontade, dar-lhe
uma resposta satisfatória? Essa resposta isolada será forçosamente
incompleta e, por isso mesmo, quase sempre ininteligível, ou poderá
parecer absurda e contraditória. Acontece o mesmo em nossas relações
com os Espíritos. Se desejamos aprender com eles, temos de seguir-lhes
o curso; mas, como entre nós, é necessário escolher
os professores e trabalhar com assiduidade.
Dissemos
que os Espíritos superiores só comparecem às reuniões
sérias, àquelas sobretudo em que reina perfeita comunhão
de pensamentos e de bons sentimentos. A leviandade e as perguntas ociosas
os afastam, como entre os homens afastam as criaturas ponderadas; o campo
fica então livre à turba de Espíritos mentirosos e
frívolos, sempre à espreita de oportunidades para zombarem
de nós e se divertirem à nossa custa. Em que se transformaria
uma pergunta séria, numa reunião dessas? Teria resposta?
De quem? Seria o mesmo que lançarmos, numa reunião de gaiatos,
estas perguntas: O que é a alma? O que é a morte? e outras
coisas assim divertidas.
Se
quereis respostas sérias, sede sérios vós mesmos,
em toda a extensão do termo e mantende-vos nas condições
necessárias: somente então obtereis grandes coisas. Sede,
além disso, laboriosos e perseverantes em vossos estudos, para que
os Espíritos superiores não vos abandonem como faz um professor
com os alunos negligentes.
O movimento
de objetos é um fato comprovado; resta saber se nesse movimento
há ou não manifestação inteligente e, em caso
afirmativo, qual a sua origem.
Não
falamos do movimento inteligente de certos objetos, nem das comunicações
verbais ou das que são escritas diretamente pelos médiuns.
Esse gênero de manifestações, tão evidente para
aqueles que viram e aprofundaram o assunto, não é, à
primeira vista, bastante independente da vontade para convencer um observador
novato. Não trataremos, portanto, senão da escrita obtida
com a ajuda de um objeto munido de lápis, como a cesta, a prancheta,
etc. A maneira por que os dedos do médium são postos sobre
o objeto desafia, como já dissemos, a mais consumada destreza em
particular de qualquer forma da formação das letras. Mas
admitamos ainda que, por uma habilidade maravilhosa, possa ele enganar
os olhos mais atentos. Como explicar a natureza das respostas, quando elas
superam as idéias e os conhecimentos do médium? E note-se
que não se trata de respostas monossilábicas, mas quase sempre
de muitas páginas escritas com admirável rapidez, espontaneamente
ou sobre assunto determinado. Pela mão do médium menos versado
em literatura surgem poesias de uma sublimidade e de uma pureza impecáveis,
que não desmereceriam os melhores poetas humanos. E o que aumenta
ainda a estranheza desses fatos é que eles se produzem por toda
parte e que os médiuns se multiplicam ao infinito. Esses fatos são
reais ou não? A essa pergunta só podemos responder: Vede
e observai; não vos faltarão oportunidades; mas, sobretudo,
observai com constância, por longo tempo e obedecendo às condições
necessárias.
À
evidência, o que respondem os antagonistas? Sois vítimas do
charlatanismo, dizem eles, ou joguetes de uma ilusão. Responderemos
de início que é preciso afastar a palavra charlatanismo de
onde não existem lucros, pois os charlatões não agem
gratuitamente. Seria, quando muito, uma mistificação. Mas
por que estranha coincidência os mistificadores se teriam entendido,
de um extremo a outro do mundo, para agir da mesma maneira, produzir os
mesmos efeitos e dar aos mesmos assuntos e nas diversas línguas
respostas idênticas, senão quanto às palavras, pelo
menos quanto ao sentido? Como é que pessoas sérias, honradas
e instruídas se prestariam a semelhantes manobras, e com que objetivo?
Como teriam encontrado entre as crianças a paciência e a habilidade
necessárias? Porque, se os médiuns não forem instrumentos
passivos, é claro que necessitam de habilidade e de conhecimentos
incompatíveis com certas idades e posições sociais.
Então
acrescentam que, se não há embuste, os dois lados podem estar
embuídos por uma ilusão. Em boa lógica, a qualidade
das testemunhas tem um certo peso; ora, é o caso de se perguntar
se a doutrina espírita, que conta hoje milhões de adeptos,
só os recruta entre os ignorantes. Os fenômenos em que ela
se apóia são tão extraordinários que concebemos
a dúvida, mas não se pode admitir a pretensão de alguns
incrédulos ao monopólio do bom senso, ou que, sem respeito
às conveniências e ao valor moral dos adversários,
tachem de ineptos a todos os que não concordam com as suas opiniões.
Aos olhos de toda pessoa judiciosa, a opinião dos homens esclarecidos
que viram determinado fato por longo tempo e o estudaram e meditaram será
sempre uma prova ou pelo menos uma presunção favorável,
por ter podido prender a atenção de homens sérios
que não tinham nenhum interesse em propagar erros, nem tempo a perder
com futilidades.
Entre
as objeções, algumas são mais consideráveis
pelo menos na aparência, porque baseiam-se na observação
de pessoas sérias.
Uma
dessas observações refere-se à linguagem de certos
Espíritos, que não parece digna da elevação
atribuída aos seres sobrenaturais. Se quisermos reportar-nos ao
resumo da doutrina, atrás apresentado, veremos que os próprios
Espíritos ensinam que não são iguais em conhecimentos,
nem em qualidades morais, e que não se deve tomar ao pé da
letra tudo o que dizem. Cabe às pessoas sensatas separar o bom do
mau. Seguramente os que deduzem, desse fato, que tratamos com seres malfazejos,
cuja única intenção é a de nos mistificarem,
não conhecem as comunicações dadas nas reuniões
em que se manifestam Espíritos superiores, pois de outra maneira
não pensariam assim. É pena que o acaso tenha servido tão
mal a essas pessoas, não lhes mostrando senão o lado mau
do mundo espírita, pois não queremos supor que uma tendência
simpática atraia para elas os maus Espíritos em lugar dos
bons, os Espíritos mentirosos ou esses cuja linguagem é de
revoltante grosseria. Poderíamos concluir, quando muito, que a solidez
dos seus princípios não seja bastante forte para preservá-las
do mal, e que, encontrando um certo prazer em lhes satisfazer a curiosidade,
os maus Espíritos, por seu lado, aproveitam-se disso para se introduzirem
entre elas, enquanto os bons se afastam.
Julgar
a questão dos Espíritos por esses fatos seria tão
pouco lógico como julgar o caráter de um povo pelo que se
diz e se faz numa reunião de alguns estabanados, ou gente de má
fama, a que não comparecem os sábios nem as pessoas sensatas.
Os que assim julgam estão na situação de um estrangeiro
que, chegando a uma grande capital pelo seu pior arrabalde, julgasse toda
a população da cidade pelos costumes e a linguagem desse
bairro mesquinho. No mundo dos Espíritos há também
desníveis sociais; se aquelas pessoas quisessem estudar as relações
entre os Espíritos elevados ficariam convencidas de que a cidade
celeste não contém apenas a escória popular. Mas,
perguntam elas, os Espíritos elevados chegam até nós?
Responderemos: não permaneçais no subúrbio; vede,
observai e julgai; os fatos aí estão para todos. A menos
que a essas pessoas se apliquem estas palavras de Jesus: "Têm
olhos e não vêem; têm ouvidos e não ouvem".
Uma
variante desta opinião consiste em não ver nas comunicações
espíritas e em todos os fatos materiais a que elas dão lugar
senão a intervenção de um poder diabólico,
novo Proteu que revestiria todas as formas para melhor nos iludir. Não
a consideramos suscetível de um exame sério e por isso não
nos deteremos no caso: ela já está refutada pelo que dissemos
atrás. Acrescentaremos apenas que, se assim fosse, teríamos
de convir que o diabo é às vezes bem inteligente, bastante
criterioso, e sobretudo muito moral, ou então que existem bons diabos.
Como
acreditar, de fato, que Deus não permita senão ao Espírito
do mal manifestar-se para nos perder, sem nos dar por contrapeso os conselhos
dos bons Espíritos? Se Ele não o pode, isto é uma
impotência; se Ele o pode e não faz, isso é incompatível
com a sua bondade; e uma e outra suposição seriam blasfêmias.
Acentuemos que admitir a comunicação dos maus Espíritos
é reconhecer o princípio das manifestações.
Ora, desde que estas existem, será com a permissão de Deus.
Como acreditar, sem cometer impiedade, que Ele só permita o mal,
com exclusão do bem? Uma doutrina assim é contrária
ao bom senso e às mais simples noções da religião.
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LIVRO DOS ESPÍRITOS - INTRODUÇÃO