por Nubor Orlando Facure.
Até parece teologia — essa visão do “mistério da Santíssima Trindade” no cérebro, constante nos tratados médicos.
Talvez isso se deva a um cacoete dos velhos professores da medicina francesa, que buscavam, em todas as doenças, a “tríade sintomática” que as caracterizava.
A meningite, por exemplo, iniciava-se com três sintomas: “dor de cabeça, febre e constipação intestinal”.
Mesmo considerando a multiplicidade das funções do cérebro e do psiquismo humano, encontramos, em vários autores, essa sistematização hierarquizada em três níveis, lembrando “o Pai, o Filho e o Espírito Santo”, que a Igreja coloca na distribuição dos poderes sagrados.
Sigmund Freud identifica três entidades em nosso aparelho psíquico:
o Id, o Ego e o Superego.
Há entre esses níveis uma hierarquia e uma submissão que, ocasionalmente, é contrariada.
As forças do Id, procedentes do “inconsciente”, podem impor, de forma disfarçada, seus desejos, oprimidos pela consciência, onde o Ego supostamente faz nossas escolhas.
Esses propósitos impositivos de domínio, submissão e perversão da hierarquia estiveram sempre presentes nas diversas apresentações da “trindade” cerebral.
Antes de Freud, tivemos o grande neurologista inglês Hughlings Jackson, cuja esposa sofria de epilepsia, apresentando um tipo de crise motora sui generis.
As contrações ocorriam sem perda da consciência, iniciando no polegar e estendendo-se para os dedos, a mão, o antebraço, o braço e, finalmente, a face.
Como foram descritas pelo próprio esposo, ficaram conhecidas como crises jacksonianas.
Estudando a atividade motora no sistema nervoso, Hughlings Jackson sugeriu a existência de três níveis de complexidade:
o sistema piramidal — no córtex cerebral;
o extrapiramidal — nos gânglios da base;
e o periférico — a partir da medula espinhal.
Jackson introduziu o conceito de “liberação”:
lesões nos níveis superiores “liberam” a ação dos inferiores.
Há exaltação dos reflexos medulares quando são lesionados os sistemas piramidal e extrapiramidal.
Outra visão trinária foi popularizada pelo neurocientista americano Paul MacLean.
Sua proposta é evolucionista.
Ele enxerga três cérebros sobrepostos na anatomia humana:
um cérebro reptiliano, um intermediário, dos mamíferos, e um superior, dos primatas — chimpanzés e humanos.
A fisiologia humana revela, em todas as nossas atividades, esse modelo hierarquizado por MacLean (1967).
Os sistemas funcionais
Os estudantes de neuropsicologia, quase todos, iniciam os estudos das funções superiores do cérebro com a leitura de Luria, neurologista russo.
Ele propõe a organização do cérebro em sistemas que se hierarquizam em três níveis de complexidade. Simplificadamente:
um para a manutenção do tônus muscular;
outro para a percepção sensorial;
e, finalmente, um para as vias de associação.
Por fim, queremos anotar a descrição do cérebro feita pelo Espírito André Luiz (psicografia de Chico Xavier), no capítulo “A Casa Mental”, do livro No Mundo Maior (1947).
Ele anota, também, três níveis:
um medular, de atividade visceral — sexo e alimentação;
outro, no nível da atividade motora, que nos prende ao cotidiano das tarefas, principalmente o trabalho de subsistência;
e, por fim, o nível frontal superior, que permite nossa ligação com os propósitos mais elevados da espiritualidade.
No primeiro nível desenvolvemos hábitos e automatismos;
no nível médio, o esforço e a vontade;
no nível superior, nossos ideais e metas elevadas.
Lição de casa
É escolha nossa o nível de atividade cerebral pelo qual decidimos caminhar no mundo.
Muitos ainda permanecem “escoiceando” e agredindo.
Outros demoram-se nos vícios.
Poucos progridem na aquisição de valores superiores que nos elevam espiritualmente.

