A leitura da neurologia em Freud

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por Nubor Orlando Facure.

 

Um relato fictício

Renato faz um curso de inglês e, hoje, chegou uma professora nova.
É jovem, muito simpática e comunicativa.

Despertou, com seu encanto, uma atenção especial por parte de Renato.
Não demorou a acender uma certa paixão velada pela professora.

Na infância, é comum esse tipo de apego e admiração pelas nossas professoras.
Mas Renato está chegando aos 30 anos e é professor de Direito numa faculdade particular.

Uma paixão nessa idade incendeia a alma.

Ocorre, porém, que, assim como em todos nós, há uma censura interna.
Não é possível alimentar esse sentimento.
Os impedimentos são muitos.

Mesmo assim, Renato nunca falta às aulas,
enche a professora de perguntas
e aproveita todas as oportunidades para se fazer notado por ela.


Freud explica

Essa energia mental deve ser canalizada para seus objetivos.
Mas nem toda ela irá para o propósito verdadeiro.

O que sobra será desviado:
ou para o corpo físico, geralmente provocando uma doença,
ou motivando uma atividade intensa que consome esse resíduo da pulsão.

A professora é casada.
Não esboça qualquer interesse por Renato, mas nada disso apaga as chamas que fazem ferver os desejos internos do jovem.

Hoje, Renato arrumou mais um emprego, envolvendo-se horas e horas na preparação de suas aulas, comprometendo-se e se esgotando com o trabalho.


Vamos ver agora como se comporta a mente e as funções neurológicas nessa situação vivida por Renato.
Qual o percurso, no cérebro, de um estímulo prazeroso?

Renato tem 30 anos e está olhando, mais uma vez, para uma jovem muito bonita.

Ele constrói, nas regiões occipitais, as imagens que registra com a visão, idealizando aquela mulher.
Distribuindo, nas regiões parietais e temporais, ele preenche as principais características da jovem:
o formato e as curvas do corpo, a cor, os gestos, a feição particular do rosto e a vibração melódica da sua voz.

Mas todas essas informações precisam adquirir um significado.

Inicialmente, no giro do cíngulo e nas amígdalas do lobo temporal, a imagem recebe seu componente afetivo.
Aí despertam a paixão e o interesse — o calor que faz ferver Renato por inteiro.

A região pré-frontal começa a interpretar a racionalidade dessa proposição afetiva.

As regiões anteriores do giro do cíngulo estabelecem as regras morais e a censura.

No hipocampo, resgatam-se memórias de grandes momentos do passado, quando ele se empolgava com namoradas que conquistava.


No cérebro, existem áreas relacionadas à punição.
Uma das mais marcantes é o estresse intenso das emoções, que libera cortisol e pode prejudicar o organismo.

O medo estará sempre por perto.
A amígdala temporal é uma estrutura primitiva, ligada ao nosso instinto de defesa.
O medo é uma de suas estratégias.

Se Renato tentar “avançar o sinal”, suas pernas podem fraquejar, o coração disparar, o suor esfriar, podendo ocorrer descontrole fisiológico, e o comportamento torna-se inquieto.

A pior das situações é a culpa e o remorso.
O giro órbitofrontal regula nossas escolhas morais e sociais e cobra caro quando desafiamos suas normas.


Lição de casa

Acredita-se que haja, no cérebro, um “ponto de Deus”.

V. S. Ramachandran, neurocientista indiano, sugeriu, na década de 1990, que certas regiões do lobo temporal estão relacionadas às experiências espirituais e místicas.

Ali, Renato encontrará forças para traçar novos rumos:
a sublimação de suas atividades
e uma postura elevada, que compensará seus novos propósitos.

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