O fantasma da máquina

Compartilhe esta postagem em:

por Nubor Orlando Facure.

 

O cérebro, seus neurônios e a complexa rede de conexões que eles constroem permitiram o aparecimento das funções motoras, sensoriais e intelectuais.
Para alguns, ele se basta em suas sinapses, que responderiam a toda ordem de fenômenos, para o bem e para o mal.
Porém, outros não imaginam neurônios produzindo os versos de Fernando Pessoa, a não ser que o neurônio seja, também, um fingidor,
que finge ser outro o que deveras sente.
Mas quem é esse outro?
O fantasma da máquina?
A alma das coisas?

O que diz a experiência?
Nossa tecnologia permite realizar estímulos diretos no cérebro.

1. Estímulos na área motora frontal esquerda
A mão direita reage e passa a se movimentar involuntariamente, de forma meio desordenada.
Responde mecanicamente aos estímulos.
São movimentos estereotipados, trejeitos sem propósito definido.
Enquanto realizamos esse estímulo, podemos pedir ao indivíduo que erga a mão do outro lado, a mão esquerda.
Ele o faz conscientemente, obedecendo a um ritmo, a uma velocidade e a um trajeto opcional regular.
Podemos pedir que ele bloqueie a mão esquerda que se move de modo automático,
mas ele tem dificuldade em conter essa mão travessa, que segue inconscientemente o estímulo recebido pelos aparelhos.

2. Estímulos na área sensitiva do lobo parietal
Podemos estimular uma região um pouco mais posterior, a área sensitiva do lobo parietal.
O indivíduo relata perceber algo tocando a pele, causando incômodo, mas de forma mal definida.

3. Estímulos em áreas do hipocampo
Podemos estimular áreas do hipocampo, onde se distribuem nossas memórias.
O indivíduo percebe um cenário, lembranças pouco nítidas, talvez relacionadas a fatos vividos, talvez construídas naquele momento.
São cenas do passado.
Ele não sabe se as viveu ou se as está criando ali.
Parecem um filme.
Não lhe causam emoção.

Mas podemos pedir que ele descreva seu primeiro dia de aula na faculdade.
Ele o fará com riqueza de detalhes e sentirá o mesmo pulsar do coração daqueles momentos.

Como explicar essa diferença?
Estimular neurônios no cérebro produz efeitos correspondentes à área estimulada,
mas não com o mesmo desempenho, nem o mesmo desembaraço.
Falta o conteúdo afetivo das respostas voluntárias, falta a graciosidade do gesto.

É importante saber que,
mesmo que algo esteja ocorrendo no meu cérebro,
a minha consciência permanece no comando.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.