por Nubor Orlando Facure,
Não é para acusar, ferir ou condenar.
No processo do aborto, as implicações morais são múltiplas.
Até hoje, o dedo que critica tem sido apontado para aquela mulher que se iludiu e abandonou o compromisso.
O homem costuma adotar o silêncio.
O instrumentista se acoberta em falsas decisões.
A sociedade opina, ignorando o ser que espera uma nova chance.
A cumplicidade se espalha quando “amigos” de última hora dizem: “ela tem direito sobre seu corpo”, “a decisão é dela; se ela quiser, ela que faça”.
No livro No Mundo Maior, de André Luiz / Chico Xavier (1947),
é relatado o transcurso de um aborto cometido por Cecília.
Filha única,
criada com proteção e muito mimo,
contando com todas as facilidades, nunca sentiu o peso do esforço para se cuidar e do trabalho para sua subsistência.
A mãe, já falecida, apela entre argumentos e lágrimas:
— Socorre-te da consciência.
Ignore os preconceitos sociais.
Permaneça com Deus exclusivamente.
A maternidade, iluminada pelo amor e o sacrifício, é feliz em qualquer parte.
Ainda mesmo que o mundo nos negue recursos, ignorando a causa de nossas quedas.
O caminho será empedrado e árido.
Os espinhos dilacerarão.
Mas terás, de encontro ao coração, um filho amoroso.
Dois pequeninos braços de veludo te cingirão, carinhosos e fiéis.
Encontrarás dentro de ti mesma o poder da paz.
Não troque a coroa de espinhos na fronte por um monte de brasas na consciência.
Ainda é tempo! Ainda é tempo!
— Não posso.
— Odeio!… Odeio esse filho intruso que não pedi à vida!… Expulsá-lo-ei… expulsá-lo-ei!
— Poupa-me! Poupa-me!
Quero acordar ao trabalho! Quero viver e reajustar meu destino!
Ajuda-me!… Pagarei com amor… não me expulses…!
Tem caridade!…
— Tentemos algum repouso, Cecília.
Modificarás possivelmente esse plano — insiste a enfermeira.
— Não, não quero adiar o procedimento.
Meu pai não pode saber disso, e eu odeio essa situação, que terminantemente não conservarei.
Feito o processo cruento, a mente do filhinho imaturo começou a reagir, prendendo-se à origem dos vasos que o alimentavam, provocando hemorragia incontrolável e fatal.
— Vingar-me-ei! Pagarás ceitil por ceitil! Não te perdoarei!
Não me deixaste retomar a luta terrena.
Cerraste-me as portas da oportunidade redentora.
Arrastar-te-ei para o abismo!
Lição de casa
A evolução dos nossos valores sociais exigirá que adotemos medidas robustas para acolher a criança rejeitada que precisa nascer.

