por Cesar Boschetti.
Quando Kardec falou da erraticidade na questão 226 do OLE [1], ele acrescentou na 5ª edição, uma observação bastante pertinente, esclarecendo que a erraticidade não significa espíritos inferiores perdidos no espaço sem saber para onde devem ir o que, a rigor, é o que significa o termo errante. Muitos espíritos desencarnados são evoluídos o bastante para realizarem missões importantes com o que se sentem felizes a ponto de não se verem como espíritos errantes. Vimos em artigo anterior, [2] que Kardec deu grande amplitude às possibilidades do espírito na erraticidade o que, de modo implícito, enseja a existência de colônias ou alguma outra forma de organização social dos espíritos no plano espiritual. Mas essas mesmas considerações de Kardec, ensejam uma outra reflexão também muito interessante.
Sob a perspectiva da nossa estreita visão do Universo, podemos ser levados a entender que Kardec cometeu um equívoco ao denominar, genericamente, de erraticidade, o estado do espírito entre encarnações sucessivas, desde que esse estado pode variar ao infinito, como observado no OESE [3]. Apesar de suas observações na questão 226 do OLE onde ele próprio reconhece que o termo errante seria mais apropriado ao espírito que vagueia na incerteza pelo espaço, ele manteve o termo “erraticidade” como denominação geral do estado dos espíritos entre as encarnações. E é bastante provável que essa terminologia tenha sido atribuída pelo próprio Kardec pois, como podemos ver na questão 28 do OLE [4], os espíritos superiores deixam claro que cabe a nós nos entendermos com nossas palavras. Esses pontos ensejam algumas reflexões interessantes.
Kardec usou e manteve um termo que nos remete à ideia de que o espírito vagueia sem rumo, de forma aleatória, pelo espaço infinito. Isso de fato ocorre, mas não de modo geral. Por que Kardec não se preocupou em deixar bem clara, de forma definitiva, essa situação? A referência [5] traz uma consideração importante sobre essa errata da questão 226 do OLE. De qualquer forma, é uma dúvida que somente Kardec poderia responder. Mas, independente da resposta de Kardec, podemos especular sobre a possível validade e acerto do termo erraticidade.
O que busca o espírito? E me refiro ao espírito em sua plenitude, ora encarnado ora desencarnado. Por que existimos? Porque Deus quer nossa existência, claro! É a única resposta possível, assumindo que temos fé na existência de Deus. Nada mais nos resta afirmar, senão que isso nos dá um propósito. Não há ciência nem filosofia alguma que possam nos fornecer respostas do porque de nossa existência. Para preencher o vazio da existência sem propósito, só resta buscarmos uma resposta para além da razão. Perceba! A fé, não uma fé cega, mas uma fé raciocinada, não esclarece qual é o nosso propósito, apenas indica que ele existe. Cabe a nós, encarnados ou desencarnados, buscá-lo. Essa é uma reflexão que precisa ser feita. Alguns poderiam arriscar a dizer que nosso propósito é evoluir em direção a Deus. É uma hipótese que também precisa ser meditada, já que Deus é Uno e nunca poderemos igualá-Lo.
Kardec, independente de suas razões, consciente ou não, acertou mantendo o termo erraticidade. Na verdade, enquanto espíritos sujeitos ao processo das sucessivas reencarnações, mesmo quando mais evoluídos e pertencentes a mundos de regeneração ou mundos felizes, somos de fato errantes, pois nada sabemos acerca dos verdadeiros propósitos do Criador. Tateamos no escuro, guiados apenas pela intuição e a fé, em busca da luz. Talvez quando estivermos nos mundos Celestes ou Divinos, como espíritos puros libertos do ciclo das sucessivas reencarnações, venhamos ter alguma pista a respeito. Isso pode parecer um devaneio mas não é desprovido de bom senso. Se pararmos para pensar com mais cuidado na eternidade do Criador e na infinitude da criação, não há como não percebermos quão minúsculo é, e ainda deverá ser por muitas e muitas encarnações futuras, o nosso conhecimento. Na condição de encarnado, as limitações impostas pela matéria nos impede de ver mais ao longe, além de nos submeter a inúmeras necessidades imediatas. Mesmo assim, de forma bem mais limitada e sob uma perspectiva diferente da condição de erraticidade, estamos sempre em busca dessa luz que dê sentido à vida e à morte.
Essa busca do Espírito pela luz, nos remete a um caso real cujo exemplo não podemos ignorar. Liev Tolstói nos legou um belo e precioso testemunho relativo a propósitos, fé e razão. Sua busca, foi pautada por uma fé que, sem medo de errar, podemos afirmar que era uma fé genuinamente raciocinada. Apesar do seu sucesso literário com obras como “Guerra e Paz” e “Anna Kariênina”, Tolstói enfrentava uma profunda crise existencial e se batia contra pensamentos suicidas. Sua obra de 1879, “Uma Confissão” [6], quando contava 51 anos, é uma reflexão íntima sobre o sentido da vida, da morte e da fé. Sua busca por respostas o leva a questionar dogmas religiosos e a observar a fé dos camponeses russos que ele entendia ser mais genuína. Tolstoi mergulhou fundo na ciência e na filosofia em busca de respostas. Russeau teve influência marcante sobre Tolstoi desde a juventude, com sua filosofia moral centrada na sinceridade, introspecção e retorno à natureza. Coincidentemente, Russeau também teve profunda influência sobre Pestalozzi que foi mestre de Kardec.
Não há relatos que nos permitam dizer que Tolstoi conhecia o trabalho de Kardec. A penetração do espiritismo na Rússia foi mais lenta que na Europa. Mesmo com relação a Alexandre Aksakov, diplomata e pesquisador russo dos fenômenos psíquicos e espirituais, contemporâneo de Tolstói, não existem relatos que indiquem que Tolstoi conhecesse o trabalho de Aksakov. É possível que conhecesse devido à destacada posição de Aksakov como diplomata e conselheiro do Tzar Alexandre III. Mas isso é mera especulação. A comunicação e veiculação de notícias e livros no final do século XIX e início do século XX eram extremamente lentas, no mundo todo, se comparadas com os dias atuais. De qualquer modo, as conexões das ideias de Rousseau, Tolstoi, Aksakov e Kardec, nos permitem ver como as ideias, independente dos interlocutores, dialogam entre si. Talvez, quem sabe, com o “dedo” dos espíritos superiores. Nesse sentido, devemos mais um tributo a Kardec por seu Catálogo racional de obras para se fundar uma biblioteca espírita [7]. Lá, bem como em muitas outras fontes, encontramos obras que, mesmo sendo contrárias ao espiritismo podem contribuir para nossa compreensão da Doutrina e fornecer elementos que acrescentem algo à nossa busca por sentido. Essa era a visão de Kardec.
Até onde sabemos, Tolstói não encontrou a resposta final que procurava o que, pelo que vimos acima, não deve nos surpreender. Ele não se suicidou. Desencarnou em 1910 aos 82 anos, na estação ferroviária de Astapovo, na província de Riazan, também na Rússia [8]. A causa da morte foi pneumonia, após abandonar sua casa em busca de uma vida mais simples e coerente com seus ideais. Tolstoi encontrou várias pistas interessantes em meio à gente humilde. Tolstoi encontrou entre os camponeses, mujiques, no linguajar russo, uma fé simples e prática mas carregada de significados. O trecho a seguir na metade do capítulo IX de “Uma Confissão” mostra claramente como Tolstoi busca pelo sentido da vida em cima de um equilíbrio entre fé e razão (grifos meus):
“A fé é a força da vida. Se o homem vive, ele acredita em alguma coisa. Se não acreditasse que é preciso viver para alguma coisa, ele não viveria. Se ele não vê e não entende a ilusão do finito, acredita nesse finito; se ele entende a ilusão do finito, deve acreditar no infinito. Sem fé, é impossível viver.”
A fé raciocinada experimentada por Tolstoi, sem conhecer o trabalho de Kardec ou de outros renomados pesquisadores espíritas, é algo que merece reflexão. As palavras, “A fé é a força da vida”, aparece em vários trechos da “Confissão”. Isso mostra claramente como precisamos transcender a razão para darmos sentido à vida. Mas essa transcendência só faz sentido apoiada em uma fé raciocinada. A fé cega é apenas a ilusão do finito. Tolstoi foi excomungado pela Igreja Ortodoxa Russa por sua posição contrária ao dogmatismo. Como exemplo desse dogmatismo ele cita a obrigatoriedade imposta pela Igreja ao povo de se rezar todos os dias pela saúde do Tzar e de seus familiares.
Em uma palestra de 2016 no centro Espírita Caminho da Redenção, o médium Divaldo Pereira Franco se refere a Tolstoi da seguinte forma [9]:
…”Depois que entendeu o significado de amar, do que é ter por meta servir, ser alguém que a outrem ajude, ter o poder de estender bênçãos, ter uma vida dedicada a construção de sorrisos, de como é extraordinário preencher o lado existencial. E onde ele está, há paz, onde ele passa deixa a esperança, quando abre a boca ensina, quando é perseguido perdoa”…
A lição de Tolstoi é preciosa e merece profunda reflexão de nossa parte. Não há como sabermos qual é o propósito que o Criador estabeleceu para nós. Provavelmente, mais importante que uma resposta a essa questão seja não nos conformarmos com uma fé finita e ilusória e não deixarmos de fazer perguntas. Talvez mais importante que sabermos qual o propósito da vida atribuído por Deus, seja buscarmos as pequenas coisas que fazem com que nos sintamos úteis e gratificados por podermos ser importantes uns para os outros. Não há vazio existencial que não possa ser preenchido por esta via.
Não vamos nos alongar, mas não podemos encerrar essa nossa reflexão sem uma menção a Viktor Flankl. Em seu livro, “Em Busca de Sentido” [10], V. Frankl via no sofrimento uma oportunidade de transcendência. Percebeu que mesmo num campo de concentração, diante da morte, o ser humano podia ter uma atitude interior soberana.Observe como isso dialoga com Kardec que nos esclarece que o sofrimento não é um castigo, mas que a caminho da perfeição devemos passar por todas as vicissitudes da existência corporal. Eu ousaria acrescentar, por todas as vicissitudes da erraticidade também. O importante e percebermos que tanto para V. Flankl, para Tolstoi como para Kardec, o sentido da vida não é algo dado, objeto de uma fé cega, mas sim algo a ser construído em cima de uma fé raciocinada.
A vida em sociedade, por mais complexa e atribulada que seja, é o melhor cadinho para o progresso e realização humana. É no ato de nos amarmos uns aos outros, auxiliarmo-nos uns aos outros, aprendermos uns com os outros e, principalmente, nos perdoarmos uns aos outros que encontraremos a alegria de viver. É algo ao alcance de todos, desde o mais humilde dos espíritos até o mais privilegiado. E isso, com certeza, vale tanto para a vida material como para a erraticidade. Não há porque devesse ser diferente. Não deve ser outra senão essa a razão pela qual o Espírito de Verdade nos aconselha: Espíritas, amai-vos, eis o primeiro ensinamento. Instrui-vos, eis o segundo.
Referências
[1] Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte segunda — Do mundo espírita ou mundo dos Espíritos. Capítulo VI, Da vida espírita, Espíritos errantes, questão 226. Acesso em 20 de julho de 2025.
https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/2/o-livro-dos-espiritos/527/parte-segunda-do-mundo-espirita-ou-mundo-dos-espiritos/capitulo-vi-da-vida-espirita/espiritos-errantes/226
[2] Boschetti, Cesar. Espiritismo – A Obra Inacabada de Kardec. Página Grupo de Estudos Avançados Espíritas (GeaE). Acesso em 20 de julho de 2025.
[3] Kardec, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Capítulo III — Há muitas moradas na casa de meu pai. Diferentes estados da alma na erraticidade. Acesso em 20 de julho de 2025.
https://kardecpedia.com/roteiro-de-estudos/887/o-evangelho-segundo-o-espiritismo/2150/capitulo-iii-ha-muitas-moradas-na-casa-de-meu-pai/diferentes-estados-da-alma-na-erraticidade
[4] Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos. Parte primeira — Das causas primárias. Capítulo II, Dos elementos gerais do universo. Espírito e matéria. Questão 28. Acesso em 20 de julho de 2025.
[5] Chibeni, S. Seno. A Errata do Livro dos Espíritos, 2015. Portal do Espírito. Acesso em 29 de junho de 2025. Acesso em 20 de julho de 2025.
[6] Uma Confissão de Liev Tolstoi. Página Academia Edu. Acesso em 20 de julho de 2025.
[7] Kardec, Allan. Catálogo racional de obras para se fundar uma biblioteca espírita. Acesso em 20 de julho de 2025.
[8] Frazão, Dilva. Biografia de Leon Tolstói. Página e-biografia. Acesso em 19 de julho de 2025
[9] Coelho, Maria Raquel, Sociedade e Espiritualidade, Notícias: Divaldo Franco e o significado de Amar para Tolstói. Acesso em 19 de julho de 2025.
[10] Borges Filho, Adolfo. A permanente atualidade do livro “Em Busca de Sentido” de Viktor E. Frankl. Revista do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro nº 88, abr./jun. 2023. Acesso em 20 de julho de 2025.