| O LIVRO DOS ESPíRITOS - LIVRO 4, CAP. 2 |
966. Por que o homem faz idéias tão grosseiras e absurdas das penas e dos gozos
da vida futura?
-- Inteligência ainda não suficientemente desenvolvida. A criança
compreende da mesma maneira que o adulto? Aliás, isso depende também do que se
tenha ensinado: é nesse ponto que há necessidade de uma reforma. Vossa
linguagem é muito imperfeita para exprimir o que existe além do vosso alcance.
Por isso foi necessário fazer comparações, sendo essas imagens e figuras
tomadas como a própria realidade. Mas à medida que o homem se esclarece, seu
pensamento compreende as coisas que a sua linguagem não pode traduzir.
967. Em que consiste a felicidade dos bons Espíritos?
-- Em conhecer todas as coisas; não ter ódio, nem ciúme, nem inveja, nem
ambição, nem qualquer das paixões que fazem a infelicidade dos homens. O amor
que os une é para eles a fonte de uma suprema felicidade. Não experimentam nem
as necessidades, nem os sofrimentos, nem as angústias da vida material. São
felizes com o bem que fazem. De resto, a felicidade dos Espíritos é sempre
proporcional à sua elevação. Somente os Espíritos puros gozam, na verdade, da
felicidade suprema, mas nem por isso os demais são infelizes. Entre os maus e
os perfeitos há uma infinidade de graus, nos quais os gozos são relativos ao
estado moral. Os que são bastante adiantados compreendem a felicidade dos que
avançaram mais que eles e a ela aspiram, mas isso é para eles motivo de
emulação e não de inveja. Sabem que deles depende alcançá-la e trabalham com
esse fito, mas com a calma da consciência pura. Sentem-se felizes de não ter de
sofrer o que sofrem os maus.
968. Contais a ausência das necessidades materiais entre as condições de
felicidade para os Espíritos. Mas a satisfação dessas mesmas necessidades não é
para o homem uma fonte de gozos?
-- Sim, de gozos animais. E quando não podes satisfazer essas necessidades,
isso é uma tortura.
969. O que se deve entender quando se diz que os Espíritos puros estão reunidos
no seio de Deus e ocupados em lhe cantar louvores?
-- É uma alegoria para dar idéia da compreensão que eles têm das perfeições
de Deus, pois o vêem e compreendem; mas, como tantas outras, não se deve
tomá-la ao pé da letra. Tudo na Natureza, desde o grão de areia, canta, ou
seja, proclama o poder, a sabedoria e a bondade de Deus. Mas não penseis que os
Espíritos bem-aventurados estejam em contemplação na eternidade. Isso seria uma
felicidade estúpida e monótona, e mais ainda, a felicidade do egoísta, pois a
sua existência seria uma inutilidade sem fim. Eles não sofrem mais as
tribulações da existência corpórea: isso já é um gozo; depois, como já
dissemos, conhecem e sabem todas as coisas e empregam proveitosamente a
inteligência adquirida, para auxiliar o progresso dos outros Espíritos: essa é
a sua ocupação e ao mesmo tempo um gozo.
970. Em que consistem os sofrimentos dos Espíritos inferiores?
-- São tão variados quanto as causas que os produzem, e proporcionais ao
grau de inferioridade, como os gozos são proporcionais ao grau de
superioridade. Podemos resumi-los assim: cobiçar tudo o que lhes falta para
serem felizes, mas não poderem obtê-lo; ver a felicidade e não poder atingi-la;
mágoa, ciúme, raiva, remorsos e uma ansiedade moral indefinível. Desejam todos
os gozos e não podem satisfazê-los. É isso o que os tortura.
971. A influência que os Espíritos exercem uns sobre os outros é sempre boa?
-- Sempre boa de parte dos bons Espíritos, é claro. Mas os Espíritos
perversos procuram desviar do caminho do bem e do arrependimento os que
consideram suscetíveis de ser arrastados, e que muitas vezes levaram para o mal
durante a vida terrena.
971-a. Então a morte não nos livra da tentação?
-- Não; mas a ação dos maus Espíritos é muito menor sobre outros Espíritos
do que sobre os homens, pois aqueles não estão sujeitos às paixões materiais.
(Ver item 996).
972. Como procedem os maus Espíritos para tentar os outros Espíritos, se não
dispõem do auxílio das paixões?
-- Se as paixões não existem materialmente, existem, entretanto, no
pensamento dos Espíritos atrasados. Os maus entretêm esses pensamentos,
arrastando suas vítimas aos lugares onde deparam com essas paixões e com tudo o
que as possa excitar.
972-a. Mas para que servem essas paixões, se lhes falta o objeto real?
-- Assim é precisamente para o seu suplício: o avarento vê o ouro que não
pode possuir; o devasso, as orgias de que não pode participar; o orgulhoso, as
honras que inveja e de que não pode gozar.
973. Quais são os maiores sofrimentos que os maus Espíritos podem suportar?
-- Não há descrição possível das torturas morais que constituem a punição
de certos crimes. Os próprios Espíritos que as sofrem teriam dificuldades em
vos dar uma idéia. Mas seguramente a mais horrível é o pensamento de serem
condenados para sempre.
O homem tem das penas e dos gozos da alma após a morte uma idéia mais ou menos elevada, segundo o estado de sua inteligência. Quanto mais ele se desenvolve, mais essa idéia se depura e se desprende da matéria; compreende as coisas de maneira mais racional deixa de tomar ao pé da letra as imagens de uma linguagem figurada. A razão mais esclarecida nos ensina que a alma é um ser inteiramente espiritual e por isso mesmo não pode ser afetada pelas impressões que não agem fora da matéria. Mas disso não se segue que esteja livre de sofrimentos, nem que não seja punida pelas suas faltas. (Ver item 237).974. De onde procede a doutrina do fogo eterno?As comunicações espíritas têm por fim mostrar-nos o estado futuro da alma, não mais como uma teoria mas como uma realidade. Colocam sob os nossos olhos as vicissitudes da vida de além-túmulo, mas ao mesmo tempo no-las apresentam como conseqüências perfeitamente lógicas da vida terrena. E embora destituídas do aparato fantástico criado pela imaginação dos homens, nem por isso são menos penosas para os que fizeram mau uso de suas faculdades. A diversidade dessas conseqüências é infinita, mas pode-se dizer de maneira geral: cada um é punido naquilo em que pecou. Assim é que uns o são pela incessante visão do mal que fizeram; outros pelos remorsos, pelo medo, pela vergonha, a dúvida, o isolamento, as trevas, a separação dos seres que lhes são caros, etc.
974-a. Mas esse temor não pode ter um bom resultado?
-- Vede se ela refreia aqueles que a ensinam. Se ensinais coisas que a
razão rejeitará mais tarde, produzireis uma impressão que não será durável nem
salutar.
O homem, incapaz de traduzir na sua linguagem a natureza desses sofrimentos, não encontrou para ela comparação mais enérgica que a do fogo, pois este é para ele o tipo do suplício mais cruel e o símbolo da ação mais enérgica. É por isso que a crença no fogo eterno remonta à mais alta antigüidade e os povos modernos a herdaram dos antigos. É ainda por isso que, na sua linguagem figurada, ele diz: o fogo das paixões, queimar de amor, de ciúmes, etc.975. Os Espíritos inferiores compreendem a felicidade do justo?
O Espírito na erraticidade abrange na sua visão: de um lado, todas as suas exigências passadas, e do outro, o futuro prometido, compreendendo o que lhe falta para atingi-lo. Como um viajante que chegou ao cume de uma montanha vê a rota percorrida e o que falta para chegar ao destino.976. Ver os Espíritos que sofrem não é para os bons uma causa de aflição, e nesse caso, em que se transforma a sua felicidade assim perturbada?
976-a. Concebe-se isso de parte dos Espíritos estranhos ou indiferentes, mas a
visão das dores e dos sofrimentos dos que lhes foram caros na Terra não lhes
perturba a felicidade?
-- Se eles não vissem esses sofrimentos, seriam estranhos após a morte.
Ora, a religião vos diz que as almas vos vêem mas consideram as vossas aflições
de outro ponto de vista, pois sabem que os vossos sofrimentos são úteis para o
vosso adiantamento, desde que os suporteis com resignação. Eles se afligem mais
com a falta de coragem que vos atrasa do que com os sofrimentos que sabem ser
passageiros.
977. Os Espíritos não podendo ocultar-se reciprocamente os pensamentos e todos
os atos da vida sendo conhecidos, segue-se que o culpado está sempre na
presença da vítima?
-- Isso não pode ser de outra maneira, diz o bom senso.
977-a. Essa revelação de todos os atos repreensíveis e a presença constante das
vítimas serão um castigo para o culpado?
-- Maior do que se pensa, mas somente até que ele tenha expiado suas
culpas, seja como Espírito, seja como homem em novas existências
corpóreas.
Quando estivermos no mundo dos Espíritos, todo o nosso passado estando descoberto, o bem e o mal que tivermos feito serão igualmente conhecidos. Em vão aquele que fez o mal tentará escapar à visão de suas vítimas: sua presença inevitável será para ele um castigo e um remorso incessante, até que tenha expiado os seus erros. O homem de bem, pelo contrário, só encontrará por toda parte olhares amigos e benevolentes.978. A recordação das faltas que a alma tenha cometido quando ainda imperfeita não perturba a sua felicidade, mesmo depois que ela se depurou?Para o mau, não há maior tormento na Terra do que a presença de suas vítimas. É por isso que ele sempre as evita. Que será dele quando, dissipada a ilusão das paixões compreender o mal que praticou, vendo os seus atos mais secretos revelados, sua hipocrisia desmascarada, e sem poder afastá-los da sua vista? Enquanto a alma do homem perverso é presa da vergonha, do pesar e do remorso, a do justo goza de perfeita serenidade.
979. As provas que ainda terá de sofrer para terminar a sua purificação não são
uma preocupação penosa, que perturba a sua felicidade?
-- Para a alma que ainda permanece maculada, sim. É por isso que ela não
pode gozar de uma felicidade perfeita, senão quando estiver inteiramente pura.
Mas para aquela que já se elevou, o pensamento das provas por que ainda tem de
passar nada tem de penoso.
A alma que chegou a um certo grau de pureza goza a felicidade; um sentimento de doce satisfação a envolve: sente-se feliz com tudo o que vê e que a rodeia; o véu se eleva, para ela, descobrindo os mistérios e as maravilhas da Criação e as perfeições divinas se mostram em todo o seu esplendor.980. O laço de simpatia que une os Espíritos da mesma ordem é para eles um motivo de felicidade?
O homem goza as primícias dessa felicidade, sobre a Terra, quando encontra almas com as quais pode confundir-se numa união pura e santa. Numa vida mais depurada esse prazer será inefável e sem limites, porque ele só encontrará almas simpáticas, que o egoísmo não tornou indiferentes. Pois tudo é amor na Natureza; o egoísmo é que o aniquila.981. Há diferença, para o estado futuro do Espírito, entre aquele que temia a morte e aquele que a via com indiferença e até mesmo com alegria?
982. É necessário fazer profissão de fé no Espiritismo e crer nas
manifestações, para assegurar nossa sorte na vida futura?
-- Se assim fosse, todos os que não crêem ou que não puderam esclarecer-se
seriam deserdados, o que é absurdo. É o bem que assegura a sorte no futuro;
ora, o bem é sempre o bem, qualquer que seja a via que a ele conduz. (Ver itens
165-799).
A crença no Espiritismo ajuda o homem a melhorar-se ao fixar-lhe as idéias sobre determinados pontos do futuro; ela apressa o adiantamento dos indivíduos e das massas porque permite considerarmos o que seremos um dia: é, pois, um ponto de apoio, uma luz que nos guia. O Espiritismo ensina a suportar as provas com paciência e resignação, desvia o homem da prática dos atos que podem retardar-lhe a felicidade futura, e é assim que contribui para a sua felicidade. Mas nunca se disse que sem ele não se possa atingi-la.
| O LIVRO DOS ESPíRITOS - LIVRO 4, CAP. 2 - NATUREZA DAS PENAS E DOS GOZOS FUTUROS |