| O LIVRO DOS ESPíRITOS - LIVRO 3, CAP. 8 |
780. O progresso moral segue sempre o progresso intelectual?
-- É a sua conseqüência, mas não o segue sempre imediatamente. (Ver
itens 192-365).
780-a. Como o progresso intelectual pode conduzir ao progresso moral?
-- Dando a compreensão do bem e do mal, pois então o homem pode escolher. O
desenvolvimento do livre arbítrio segue-se ao desenvolvimento da inteligência e
aumenta a responsabilidade do homem pelos seus atos.
780-b. Como se explica, então, que os povos mais esclarecidos sejam
freqüentemente os mais pervertidos?
-- O progresso completo é o alvo a atingir, mas os povos, como os
indivíduos, não chegam a ele senão passo a passo. Até que tenham desenvolvido
o senso moral eles podem servir-se de inteligência para fazer o mal. A moral e
a inteligência são duas forças que não se equilibram senão com o tempo. (Ver
itens 365-751).
781. É permitido ao homem deter a marcha do progresso?
-- Não, mas pode entravá-la algumas vezes.
781-a. Que pensar dos homens que tentam deter a marcha do progresso e fazer
retrogradar a Humanidade?
-- Pobres seres que Deus castigará; serão arrastados pela torrente que
pretende deter.
782. Não há homens que entravam o progresso de boa-fé, acreditando favorecê-lo,
porque o vêem segundo o seu ponto de vista e freqüentemente onde ele não
existe?
-- Pequena pedra posta sob a roda de um grande carro sem impedi-lo de
avançar.
783. O aperfeiçoamento da Humanidade segue sempre uma marcha progressiva e
lenta?
-- Há o progresso regular e lento que resulta da força das circunstâncias;
mas quando um povo não avança bastante rápido, Deus lhe provoca, de tempos a
tempos, um abalo físico ou moral que o transforma.
Sendo o progresso uma condição da natureza humana ninguém tem o poder de se opor a ele. É uma força viva que as más leis podem retardar, mas não asfixiar. Quando essas leis se tornam de todo incompatíveis com o progresso ele as derruba com todos os que a querem manter, e assim será até que o homem harmonize as suas leis com a justiça divina, que deseja o bem para todos e não as leis feitas para o forte em prejuízo do fraco.784. A perversidade do homem é bastante intensa, e não parece que ele está recuando, em lugar de avançar, pelo menos do ponto de vista moral?O homem não pode permanecer perpetuamente na ignorância, porque deve chegar ao fim determinado pela Providência: ele se esclarece pela própria força das circunstâncias. As revoluções morais, como as revoluções sociais se infiltram pouco a pouco nas idéias, germinam ao longo dos séculos e depois explodem subitamente, fazendo ruir o edifício carcomido do passado, que não se encontra mais de acordo com as necessidades novas e as novas aspirações.
O homem geralmente não percebe, nessas comoções, mais do que a desordem e a confusão momentâneas que o atingem nos seus interesses materiais, mas aquele que eleva o seu pensamento acima dos interesses pessoais admira os desígnios da Providência, que do mal fazem surgir o bem. São a tempestade e o furacão que saneiam a atmosfera, depois de a haverem revolvido[56].
785. Qual o maior obstáculo ao progresso?
-- São o orgulho e o egoísmo. Quero referir-me ao progresso moral, porque o
intelectual avança sempre. Este parece, aliás, à primeira vista, duplicar a
intensidade daqueles vícios, desenvolvendo a ambição e o amor das riquezas, que
por sua vez incitam o homem às pesquisas que lhe esclarecem o Espírito. É assim
que tudo se relaciona no mundo moral como no físico e que do próprio mal pode
sair o bem. Mas esse estado de coisas durará apenas algum tempo;
modificar-se-á à medida que o homem compreender melhor que além do gozo dos
bens terrenos existe uma felicidade infinitamente maior e infinitamente mais
durável. (Vede Egoísmo, cap. XII).
Há duas espécies de progresso que mutuamente se apoiam e entretanto não marcham juntos: o progresso intelectual e o progresso moral. Entre os povos civilizados o primeiro recebe em nosso século todos os estímulos desejáveis, e por isso atingiu um grau até hoje desconhecido. Seria necessário que o segundo estivesse no mesmo nível. Não obstante, se compararmos os costumes sociais de alguns séculos atrás com os de hoje teremos de ser cegos para negar que houve progresso moral. Por que, pois, a marcha ascendente da moral deveria mostrar-se mais lenta que a da inteligência? Por que não haveria entre o século décimo-nono e o vigésimo quarto tanta diferença nesse terreno como entre o décimo quarto e o décimo-nono? Duvidar disso seria pretender que a Humanidade tivesse atingido o apogeu da perfeição, o que é absurdo, ou que ela não é moralmente perfectível, o que a experiência desmente.
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