| O LIVRO DOS ESPíRITOS - LIVRO 2, CAP. 11 |
593. Podemos dizer que os animais só agem por instinto?
-- Ainda nisso há um sistema. É bem verdade que o instinto domina na
maioria dos animais: mas não vês que há os que agem por uma vontade
determinada? É que têm inteligência, porém ela é limitada.
Além do instinto, não se poderia negar a certos animais a prática de atos combinados, que denotam a vontade de agir num sentido determinado e de acordo com as circunstâncias. Há neles, portanto, uma espécie de inteligência, mas cujo exercício é mais precisamente concentrado sobre os meios de satisfazer as suas necessidades físicas e prover à conservação. Não há entre eles nenhuma criação, nenhum melhoramento; qualquer que seja a arte que admiremos em seus trabalhos, aquilo que faziam antigamente é o mesmo que fazem hoje, nem melhor nem pior, segundo formas e proporções constantes e invariáveis. Os filhotes separados de sua espécie não deixam de construir o seu ninho de acordo com o mesmo modelo, sem terem sido ensinados. Se alguns são suscetíveis de uma certa educação, esse desenvolvimento intelectual, sempre fechado em estreitos limites, é devido à ação do homem sobre uma natureza flexível, pois não fazem nenhum progresso por si mesmos, e esse progresso é efêmero, puramente individual, porque o animal, abandonado a si próprio, não tarda a voltar aos limites traçados pela Natureza.594. Os animais têm linguagem?
594-
a.
Há animais que não possuem voz; esses não parecem destituídos de linguagem?
-- Compreendem-
se
por outros meios. Vós, homens, não tendes mais do que a palavra para vos
comunicardes? E dos mudos, que dizeis? Os animais, sendo dotados da vida de
relação, têm meios de se prevenir e de exprimir as sensações que experimentam.
Pensas que os peixes não se entendem? O homem não tem o privilégio da
linguagem, mas a dos animais é instintiva e limitada pelo círculo exclusivo das
suas necessidades e das suas idéias, enquanto a do homem é perfectível e se
presta a todas as concepções da sua inteligência.
Realmente, os peixes que emigram em massa, bem como as andorinhas, que obedecem ao guia, devem ter meios de se advertir, de se entender e de se combinar. Talvez o façam entre si, ou talvez a água seja um veículo que lhes transmita certas vibrações. Seja o que for, é incontestável que eles dispõem de meios para se entenderem, da mesma maneira que todos os animais privados de voz, que realizam trabalhos em comum. Deve- se admirar, diante disso, que os Espíritos possam comunicar- se entre eles sem o recurso da palavra articulada? (Ver item 282).595. Os animais têm livre- arbítrio?
596. De onde vem a aptidão de certos animais para imitar a linguagem do homem,
e por que essa aptidão se encontra mais entre as aves do que entre os símios,
por exemplo, cuja conformação tem mais analogia com a daquele?
-- Conformação particular dos órgãos vocais, secundada pelo instinto da
imitação. O símio imita os gestos; certos pássaros imitam a voz
597. Pois se os animais têm uma inteligência que lhes dá uma certa liberdade de
ação, há neles um princípio independente da matéria?
-- Sim, e que sobrevive ao corpo.
597-
a.
Esse princípio é uma alma semelhante à do homem?
-- É também uma alma, se o quiserdes; isso depende do sentido em que se
tome a palavra; mas é inferior à do homem. Há, entre a alma dos animais e a
do homem tanta distância quanto entre a alma do homem e Deus.
598. A alma dos animais conserva após a morte sua individualidade e a
consciência de si mesma?
-- Sua individualidade, sim, mas não a consciência de si mesma. A vida
inteligente permanece em estado latente.
599. A alma dos animais pode escolher a espécie em que prefira encarnar-
se?
-- Não; ela não tem o livre arbítrio.
600. A alma do animal, sobrevivendo ao corpo, fica num estado errante, como a
do homem após a morte?
-- Fica numa espécie de erraticidade, pois não está unida a um corpo. Mas
não é um Espírito errante. O Espírito errante é um ser que pensa e age
por sua livre vontade; o dos animais não tem a mesma faculdade. É a consciência
de si mesmo que constitui o atributo principal do Espírito. O Espírito do
animal é classificado após a morte, pelos Espíritos incumbidos disso, e
utilizado quase imediatamente: não dispõe de tempo para se pôr em relação com
outras criaturas.
601. 0s animais seguem uma lei progressiva, como os homens?
-- Sim, e é por isso que nos mundos superiores, onde os homens são mais
adiantados, os animais também o são, dispondo de meios de comunicação mais
desenvolvidos. São, porém, sempre inferiores e submetidos aos homens, sendo
para estes servidores inteligentes.
Nada há nisso de extraordinário. Suponhamos os nossos animais de maior inteligência como o cão, o elefante, o cavalo, dotados de uma conformação apropriada aos trabalhos manuais, o que não poderiam fazer sob a direção do homem?602. Os animais progridem como o homem, por sua própria vontade, ou pela força das coisas?
603. Nos mundos superiores, os animais conhecem a Deus?
-- Não. O homem é um deus para eles, como antigamente os Espíritos foram
deuses para os homens.
604. Os animais, mesmo aperfeiçoados nos mundos superiores, sendo sempre
inferiores aos homens, disso resultaria que Deus tivesse criado seres
intelectuais perpetuamente votados à inferioridade, o que parece em desacordo
com a unidade de vistas e de progresso que se assinalam em todas as suas
obras?
-- Tudo se encadeia na Natureza, por liames que não podeis ainda perceber,
e as coisas aparentemente mais disparatadas têm pontos de contato que o homem
jamais chegará a compreender, no seu estado atual. Pode entrevê-
los,
por um esforço de sua inteligência, mas somente quando essa inteligência tiver
atingido todo o seu desenvolvimento e se libertado dos preconceitos do orgulho
e da ignorância poderá ver claramente na obra de Deus. Até lá, suas idéias
limitadas lhe farão ver as coisas de um ponto de vista mesquinho e acanhado.
Sabei que Deus nunca se contradiz e que tudo, na Natureza, se harmoniza através
de leis gerais, que jamais se afastam da sublime sabedoria do Criador.
604-
a.
A inteligência é assim uma propriedade comum, um ponto de encontro entre a alma
dos animais e a do homem?
-- Sim, mas os animais não têm senão a inteligência da vida material; nos
homens, a inteligência produz a vida moral.
605. Se considerarmos todos os pontos de contato existentes entre o homem e os
animais, não poderíamos pensar que o homem possui duas almas: a alma animal e a
alma espírita; e que, se ele não tivesse esta última, poderia viver, mas como
os animais? Dizendo de outra maneira: o animal é um ser semelhante ao homem,
menos a alma espírita? Disso resultaria que os bons e os maus instintos do
homem seriam o efeito da predominância de uma ou de outra dessas duas almas?
-- Não, o homem não tem duas almas, mas o corpo tem os seus instintos, que
resultam da sensação dos órgãos. Não há no homem senão uma dupla natureza: a
natureza animal e a espiritual. Pelo seu corpo, ele participa da natureza dos
animais e dos seus instintos; pela sua alma, participa da natureza dos
Espíritos.
605-
a.
Assim, além das suas próprias imperfeições, de que o Espírito deve despojar-
se,
deve ele lutar contra a influência da matéria?
-- Sim, quanto mais inferior é ele, mais apertados são os laços entre o
Espírito e a matéria. Não o vedes? Não, o homem não tem duas almas; a alma é
sempre única, um ser único. A alma do animal e a do homem são distintas entre
si, de tal maneira que a de um não pode animar o corpo criado para o outro. Mas
se o homem não possui uma alma animal, que por suas paixões o coloque no nível
dos animais, tem o seu corpo, que o rebaixa freqüentemente a esse nível porque
o seu corpo é um ser dotado de vitalidade, que tem instintos, mas
ininteligentes e limitados ao interesse de sua conservação[38].
O Espírito, encarnando- se no corpo do homem, transmite- lhe o princípio intelectual e moral, que o torna superior aos animais. As duas naturezas existentes no homem oferecem às suas paixões duas fontes diversas: umas provêm dos instintos da natureza animal, outras das impurezas do Espírito encarnado, que simpatiza em maior ou menor proporção com a grosseria dos apetites animais. O Espírito, ao purificar- se, liberta- se pouco a pouco da influência da matéria. Sob essa influência, ele se aproxima dos brutos; liberto dessa influência eleva- se ao seu verdadeiro destino.606. De onde tiram os animais o princípio inteligente que constitui a espécie particular de alma de que são dotados?
606-
a.
A inteligência do homem e a dos animais emanam, portanto, de um princípio
único?
-- Sem nenhuma dúvida; mas no homem ela passou por uma elaboração que a
eleva sobre a dos brutos.
607. Ficou dito que a alma do homem, em sua origem, assemelha-
se
ao estado de infância da vida corpórea, que a sua inteligência apenas desponta
e que ela ensaia para a vida. (Ver item 190). Onde cumpre o Espírito essa
primeira fase?
-- Numa série de existências que precedem o período que chamais de
Humanidade.
607-
a.
Parece, assim, que a alma teria sido o princípio inteligente dos seres
inferiores da criação?
-- Não dissemos que tudo se encadeia na Natureza e tende à unidade? É
nesses seres, que estais longe de conhecer inteiramente, que o princípio
inteligente se elabora, se individualiza pouco a pouco, e ensaia para a vida,
como dissemos. É, de certa maneira, um trabalho preparatório, como o da
germinação, em seguida ao qual o princípio inteligente sofre uma transformação
e se torna Espírito. É então que começa para ele o período de
humanidade, e com este a consciência do seu futuro, a distinção do bem e do mal
e a responsabilidade dos seus atos. Como depois do período da infância vem o da
adolescência, depois a juventude, e por fim a idade madura. Nada há, de resto,
nessa origem, que deva humilhar o homem. Os grandes gênios sentem-
se
humilhados por terem sido fetos informes no ventre materno? Se alguma coisa
deve humilhá-
los,
é a sua inferioridade perante Deus e sua impotência para sondar a profundeza de
seus desígnios e a sabedoria das leis que regulam a harmonia do Universo.
Reconhecei a grandeza de Deus nessa admirável harmonia que faz a solidariedade
de todas as coisas na Natureza. Crer que Deus pudesse ter feito qualquer coisa
sem objetivo e criar seres inteligentes sem futuro, seria blasfemar contra a
sua bondade, que se estende sobre todas as suas criaturas.
607-
b.
Esse período de humanidade começa na Terra?
-- A Terra não é o ponto de partida da primeira encarnação humana. O
período de humanidade começa, em geral, nos mundos ainda mais inferiores. Essa,
entretanto, não é uma regra absoluta e poderia acontecer que um Espírito, desde
o seu início humano, esteja apto a viver na Terra. Esse caso não é freqüente, e
seria antes uma exceção.
608. O Espírito do homem, após a morte, tem consciência das existências que
precederam, para ele, o período de humanidade?
-- Não, porque não é senão desse período que começa para ele a vida de
Espírito, e é mesmo difícil que se lembre de suas primeiras existências como
homem, exatamente como o homem não se lembra mais dos primeiros tempos de sua
infância, e ainda menos do tempo que passou no ventre materno. Eis porque os
Espíritos vos dizem que não sabem como começaram. (Ver item 78).
609. O Espírito, tendo entrado no período de humanidade, conserva os traços do
que havia sido precedentemente, ou seja, do estado em que se encontrava no
período que se poderia chamar anti-humano?
-- Isso depende da distância que separa os dois períodos e do progresso
realizado. Durante algumas gerações ele pode conservar um reflexo mais ou menos
pronunciado do estado primitivo, porque nada na Natureza se faz por transição
brusca[39]; há sempre anéis que ligam as
extremidades da cadeia dos seres e dos acontecimentos. Mas esses traços
desaparecem com o desenvolvimento do livre arbítrio. Os primeiros progressos se
realizam lentamente, porque não são ainda secundados pela vontade, mas seguem
uma progressão mais rápida, à medida que o Espírito adquire consciência mais
perfeita de si mesmo.
610. Os Espíritos que disseram que o homem é um ser à parte na ordem da Criação
enganaram-
se,
então?
-- Não, mas a questão não havia sido desenvolvida, e há coisas que não
podem vir senão a seu tempo. O homem é, de fato, um ser à parte, porque tem
faculdades que o distinguem de todos os outros e tem outro destino. A espécie
humana é a que Deus escolheu para a encarnação dos seres que podem
conhecer.
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